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Serena não terá chance igual para vencer outro slam

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Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

11/09/2020 18h52

Que ninguém ouse duvidar de Serena Williams. O conjunto de capacidades técnicas, físicas e mentais é tamanho e tão sem precedente na história do tênis que permite à americana continuar competindo em altíssimo nível aos 38 anos com um peso acima do ideal - e muito acima do seu próprio peso antes da gravidez. Serena é espetacular assim e nunca pode ser descartada. Ponto.

Dito isso, quando cedeu a virada a uma brilhante Victoria Azarenka na noite da última quinta-feira, a ex-número 1 do mundo deu adeus a uma chance extraordinariamente rara para conquistar um slam - seu 24º. Uma janela que se abriu graças a uma combinação de fatores que, tudo indica, não se repetirão no futuro próximo - quiçá num distante.

Chave esburacada

Tudo é consequência da pandemia, que criou condições nada favoráveis para viagens intercontinentais e ruins até mesmo na chamada "bolha" de segurança formada pela USTA para o torneio de Cincinnati e o US Open. Logo, muitas competidoras de peso não foram para Nova York. Levando em conta ainda as tenistas lesionadas, a chave teve mais de 20 ausências. Só no top 10 os desfalques foram seis: Ashleigh Barty (#1 do mundo), Simona Halep (#2), Elina Svitolina (#5), Bianca Andreescu (#6), Kiki Bertens (#7) e Belinda Bencic (#10).

Entre outros nomes notáveis que não deram as caras no US Open estavam campeãs de slam como Svetlana Kuznetsova e Sam Stosur, a chinesa Qiang Wang (que eliminou Serena no Australian Open deste ano), as alemãs Julia Goerges e Andrea Petkovic, as russas Anastasia Pavlyuchenkova e Anastasia Potapova, as tchecas Barbora Strycova e Barbora Krejcikova e outras. Evidentemente, a maior parte dessa lista entraria com status de zebra contra Serena, mas as presenças fortaleceriam o torneio como um todo e, na mais suave das hipóteses, deixariam o caminho até o título um tantinho mais complicado.

Este ano, na prática, Serena nem se deu tão bem assim no sorteio - considerando as possibilidades. Ela enfrentou duas das três principais cabeças de chave de seu quadrante e, ainda assim, se tivesse superado Azarenka na semifinal alcançaria a decisão do torneio sem encarar nenhuma top 20. É difícil imaginar que um cenário assim, com tantos desfalques, se repita em Roland Garros.

Privilégio de campeã (e milionária)

Durante a pandemia, enquanto boa parte do circuito se preparava para voltar a competir longe das condições ideais (entre quarentenas, lockdowns e todo tipo de restrições), Serena recebeu em sua casa o piso que seria usado no torneio. Assim, construiu uma quadra para poder treinar da melhor maneira possível para chegar ao combo Cincinnati + US Open em boa forma.

A revelação foi feita pela diretora do US Open, Stacey Allaster, em uma entrevista coletiva em junho, ou seja, dois meses antes do início do torneio. Houve tempo de sobra para a veterana adquirir uma vantagem sobre suas rivais. Um conjunto de condições que não se repetirá em Roland Garros, Wimbledon ou no Australian Open.

Logística

Serena Williams foi um dos oito tenistas que se deram o luxo de alugar uma casa fora do hotel oficial do US Open. Um benefício que propicia vantagens de todos os tipos: conforto, alimentação, possibilidade de hospedar parentes, amigos e estafe, etc. Além de tudo isso, há o aspecto mental de não estar na "bolha", podendo, por exemplo, caminhar por um jardim e abrir as janelas do quarto. Apenas oito tenistas pagaram o alto valor necessário para alugar casas fora do complexo (o milionário Andy Murray achou caro demais) e, coincidência ou não, a final feminina será disputada entre Osaka e Azarenka, que também estão hospedadas fora do hotel oficial.

Novak Djokovic, quando indagado sobre a vantagem de se hospedar fora do hotel, afirmou categoricamente que todos poderiam ter feito esse investimento. A mesma lógica vale para a quadra que Serena construiu em casa. É como dizer que um aluno de escola pública tem a mesma chance que alguém que sai do ensino particular na disputa por vagas em universidades. A pandemia - e as medidas tomadas pela USTA para contorná-la - só deixaram mais óbvio o quanto o financeiro pesa na preparação para um torneio. Qualquer torneio. Em qualquer nível.

Ausência de público em Nova York

Serena é uma queridinha dos americanos e joga sempre com torcida a favor no Estádio Arthur Ashe. No entanto, o histórico mostra que nem sempre a veterana lida bem com expectativa. Em Nova York, já foram três ocasiões em que isso aconteceu, trazendo consequências muito ruins para ela.

Não ter o Ashe fazendo todo aquele barulho possivelmente ajudaria Serena em situações de alto estresse. Ela mesma declarou, durante este US Open, que jogar na quadra vazia lhe acalmava. É uma situação que, pelo menos em Nova York, não deve se repetir. Vejamos como será em Roland Garros...

Coisas que eu acho que acho:

- Além de tudo isso, Serena fez a maior parte de seus jogos na sessão diurna, quando o jogo fica mais rápido e, quase sempre, com menos ralis. Como a USTA não precisou vender ingressos para a sessão noturna, ficou mais fácil escalar a ex-número 1 em um horário que ela prefere.

- Desde que perdeu a final de 2018 e acusou o árbitro Carlos Ramos de machismo, Serena Williams fez 13 partidas de simples no US Open. Apenas uma teve um homem na cadeira. Os outros 12 jogos foram arbitrados por mulheres. Duvido que alguém encontre proporção parecida para qualquer outro tenista de elite em um grand slam. A USTA faz mesmo tudo que pode para evitar novos problemas com Serena.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.