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Quando Nadal, aos 16 anos, bateu um brasileiro no circuito mundial

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

04/07/2020 04h00

A carreira de Rafael Nadal teve momentos importantes ligados ao Brasil. Na Costa do Sauípe, em 2005, o espanhol conquistou seu segundo título de ATP na carreira. Foi o início da arrancada de um adolescente que começou a temporada fora do top 50 e terminou como número 2 do mundo. Em 2013, Rafa voltava de uma lesão no joelho e conquistou o Brasil Open em São Paulo. Foi o primeiro torneio em uma série de 40 vitórias em 41 partidas e que terminou com mais uma conquista em Roland Garros.

No ano seguinte, Nadal foi campeão da edição inaugural do Rio Open, no Jockey Club Brasileiro. Dois anos depois, novamente voltando de lesão, Rafa conquistou a medalha de ouro nas duplas dos Jogos Olímpicos Rio 2016 junto com seu amigo Marc López. Muitas visitas, muitas vitórias importantes. Mas quem se lembra da primeira vez que Nadal enfrentou um brasileiro no circuito mundial? Aconteceu em 2003, quando Rafa tinha 16 anos, e quem conta essa curiosa (e divertida) história é o gaúcho Martin Behrend, jornalista e autor do livro "Tomás Behrend - Jamais Desista De Seus Sonhos. A Trajetória Vitoriosa De Um Tenista Gaúcho". Reproduzo abaixo este trecho do livro (mais adiante informo como obtê-lo).

24 de março de 2003, um sábado. Parte da família estava reunida na casa de veraneio em Gramado. Era um dia ensolarado, a casa estava de portas abertas, arejando. Eis que toca o telefone fixo da sala - o celular não era algo tão popular e ligações eram caríssimas. Eu estava mais perto do aparelho e atendi. Do outro lado da linha, estava o Tomás. A expectativa de pais e irmãos era saber como tinha sido o resultado na semifinal do Challenger de Barletta, na Itália, disputado em quadras de saibro. Ele vinha de uma boa semana, com vitórias sobre o francês Julien Boutter, o italiano Giorgio Galimberti e o espanhol Salvador Navarro-Gutierrez. O Tomás continuou falando:

- Hoje não deu. Não joguei mal, mas o cara do outro lado jogou muito bem. Perdi 6/1, ganhei o segundo por 6/3; mas, no terceiro, ele levou a melhor: 6/4.

Primeiro, parabenizei meu irmão pela boa semana, mas não deixei de fazer uma piadinha:

- Mas tu perdeu pra uma criança. Teu adversário não tem 17 anos. Bah, ficou feio!

Do outro lado, o Tomás aceitou a brincadeira e fez uma previsão:

- Esse espanhol joga muito. Tem muita força, é canhoto. Pode escrever: ainda vamos ouvir falar muito desse Rafael Nadal.

Naquele 24 de março, o Tomás perdia para um Nadal com 16 anos e 9 meses de vida. Dois anos depois, ele conquistaria o seu primeiro título em Roland Garros em cima do argentino Mariano Puerta - até 2017, o espanhol conquistou dez vezes Roland Garros. Uma marca espantosa!

Nos bastidores: depois da semifinal e antes da ligação para o Brasil, Tomás foi ao vestiário do clube de Barletta, tomar um banho e aliviar o corpo após o disputado confronto em três sets. Ele estava num dos extremos do vestiário, arrumando as coisas. No outro lado, estavam Nadal e seu tio e treinador, Toni Nadal. Vendo que o Tomás estava meio cabisbaixo, Toni cruzou o vestiário e se aproximou. Ele disse: "Tomás, tu jogaste muito bem. Não te preocupas que perdeste para um cara que vai fazer 17 anos. Esse cara ainda vai ganhar muitos títulos na vida..."

O Toni Nadal tinha razão. E o Tomás também.

A pitoresca história é uma de várias relatadas pelos irmãos Behrend em um saboroso livro de pouco mais de 150 páginas. Tomás, para quem não lembra, foi número 74 do mundo em simples e 43 em duplas. Seu currículo inclui vitórias sobre gente como Juan Carlos Ferrero, Marc Rosset, Marcelo Ríos, Carlos Moyá, Max Mirnyi, James Blake, Janko Tipsarevic, Andrei Pavel, Mario Ancic, Gastón Gaudio, Guillermo Cañas, Fernando Verdasco e outros nomes grandes da história.

"Jamais Desista De Seus Sonhos" conta casos de bastidores desses importantes triunfos e também de derrotas que machucaram. Também relata o dilema vivido por Tomás na expectativa por defender o Brasil na Copa Davis e outros momentos um tanto relevantes na carreira de um belíssimo tenista.

Quem quiser adquirir o livro (recomendo fortemente), que está à venda por R$ 40, pode fazê-lo neste link.

Coisas que eu acho que acho:

- Toda vez que eu conto uma história ou caso curioso sobre um tenista não tão famoso, alguém comenta algo do tipo "Ah, quem é fulano? Nem foi top 50". Como se fosse simples assim o circuito mundial. A carreira de Tomás Behrend é belíssima. Em toda a história, só 16 homens brasileiros ocuparam posições melhores no ranking mundial de simples.

- Para mim, o grande barato do livro é que, mesmo com todo orgulho que ele tem do irmão (e quem não teria?), Martin relata vitórias e derrotas de Tomás. Lembra dos momentos felizes, mas também dos triunfos que escaparam e das partidas que machucaram. Isso faz de "Jamais Desista De Seus Sonhos" um livro muito mais humano do que qualquer compilado de vitórias e sucessos de um número 1 do mundo, seja lá de onde ele for.

- Para efeito de estatísticas oficiais, esse jogo não conta como duelo com um brasileiro porque Behrend jogava sob nacionalidade alemã. Todos sabem, porém que ele nasceu no Brasil, é gaúcho com orgulho (e quem não é?) e teve a expectativa de ser convocado pelo Brasil para jogar a Copa Davis antes de, finalmente, ser convocado pela Alemanha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.