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US Open e seus US$ 60 milhões não resolvem a desigualdade do tênis

Divulgação/USTA
Imagem: Divulgação/USTA
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

18/06/2020 04h00

Que ninguém pense que este post é um tratado comunista, socialista, socialdemocrata ou qualquer rótulo politicosocioeconômico que queiram dar aqueles que levantam bandeiras contrárias. Ninguém aqui acredita que um slam - nenhum dos quatro! - tem como dever compensar as desigualdades do circuito mundial, cujos problemas são muito mais fundos do que a distribuição de dinheiro em um punhado de eventos. Acontece, no entanto, que as autoridades prometeram que o tênis só voltaria quando todos pudessem competir em igualdade de condições, e o slam que se avizinha passa muito distante desse conceito.

Antes de mais nada: por "igualdade de condições", entenda-se "da mesma maneira que antes da paralisação". Não se trata de uma promessa por melhor distribuição de renda ou algo do gênero. A ideia sempre foi colocar todos os atletas, de qualquer parte deste planeta (redondo, ressalte-se), em quadra da mesma maneira que antes: com tempo ideal de preparação, contando com suas equipes, entrando (ou não) nos torneios com os mesmos critérios.

Pois o US Open chega sem qualifying, com apenas metade da chave de duplas e sem torneios de cadeiras de rodas. Só no quali, são 256 tenistas a menos (128 homens e 128 mulheres) com chances de alcançar a chave principal de um dos quatro maiores torneios do mundo. São 256 sonhos jogados para debaixo de um tapete estendido cheio de pompa para a elite, que poderá usar o complexo inteiro do US Open como área de lazer, que terá um hotel inteiro à disposição durante duas semanas, que terá 64 suítes do Estádio Arthur Ashe distribuídas para os 32 principais cabeças de chave usarem como lounges privativos.

Nas duplas, são 128 jogadores a menos. Ainda que o sistema de entrada deste US Open improvisado desconsidere o ranking de simples, abrindo mais vagas para os duplistas de fato, é um corte considerável feito sob a justificativa de limitar o número de atletas hospedados e circulando no complexo, enquanto a elite terá a opção de alugar mansões perto do Billie Jean King National Tennis Center e abrigar quantos convidados e integrantes de suas equipes for possível.

Quanto a esses aluguéis, que a nova diretora do US Open, Stacey Allaster (ex-CEO da WTA), comparou com a região de Wimbledon, onde os tenistas hospedam-se em casas, é preciso lembrar que eles impedem o tipo de controle de contágio que o torneio pretendia fazer. Quem não puder pagar (a USTA estima que um aluguel desses custe cerca de US$ 40 mil pelo período), fica limitado no trajeto hotel-torneio-hotel, sem poder sair sem ser julgado por dezenas de olhos suspeitos. A intenção inicial do US Open, lembremos, era que todos ficassem no hotel oficial, criando uma "bolha de segurança", mas para isso era preciso limitar o número de convidados/equipe de cada atleta. Os donos dos supertimes, como Nadal e Djokovic, não gostaram nada da ideia, então a entidade americana recuou para atrair a chamada star power, ou seja, os nomes que trazem peso e audiência ao evento.

Aliás, falando em star power, que tal a revelação de que Serena Williams recebeu, em casa, o novo piso do US Open com direito a personalização para a quadra de sua mansão? Sejamos justos: todos sabem o quanto Serena é importante para o torneio e ninguém acha que ela não tem direito a seus privilégios, mas que ninguém volte a falar em igualdade de condições em um slam disputado nesses moldes. Vai ter tênis, vai ter muito dinheiro (são US$ 60 milhões entre o torneio de Cincinnati e o US Open), mas não nos enganemos: não vai ter público nem vai ter condições iguais para todos.

Coisas que eu acho que acho:

- É verdade que a USTA anunciou que US$ 6,6 milhões serão destinados aos tenistas afetados pelos cortes no tamanho das chaves. Também é verdade que não passa de uma tentativa de "pega essa grana e cala a boca". Tenho minhas dúvidas se vai funcionar. O tweet da top 10 de duplas Gabriela Dabrowski, que citei ontem e reproduzo aqui, é um indício.

- E o que dizer do australiano Dylan Alcott, número 1 do mundo na categoria quad para cadeiras de rodas (quad), campeão do US Open em 2015 e 2018, que não poderá competir este ano? No tweet acima, Alcott se queixa de decisão da organização, diz que os jogadores não foram consultados e ressalta: "Infelizmente, eu não tenho a única coisa que importava, conseguir caminhar. Discriminação nojenta."

- ATP e WTA divulgaram seus calendários para os próximos meses. Ficou tudo congestionado. Os torneios combinados (ATP+WTA) de Madri e Roma foram encaixados imediatamente depois do US Open e logo antes de Roland Garros, sem semana para descanso. Na ATP, uma curiosidade: o 250 de Kitzbuhel, na Áustria, será na segunda semana do US Open e os top 10 não poderão jogar a não ser que tenham sido eliminados antes em Nova York. A WTA manteve a gira asiática, enquanto o circuito masculino ainda tenta encaixar os eventos do continente oriental.

- Nada do que está escrito nos seis primeiros parágrafos deste post chega a ser surpreendente. Quem vive o mundo do tênis sabe como as coisas funcionam e que o poder de verdade está com quem tem o dinheiro e/ou a capacidade de multiplicá-lo. Por outro lado, é um tanto decepcionante que o US Open aconteça assim, nestes moldes, justamente numa época em que se fala tanto de união, solidariedade, planos para ajudar os tenistas de ranking inferior e, sim, desigualdade no tênis...

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