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US Open: US$ 60 milhões e mais mordomias para convencer tenistas

CORINNE DUBREUIL/FFT
Imagem: CORINNE DUBREUIL/FFT
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

17/06/2020 04h00

Uma semana depois de uma videoconferência acalorada com cerca de 400 tenistas um tanto céticos sobre o retorno do circuito mundial, o US Open está confirmado no calendário do circuito mundial. O anúncio foi feito ontem pelo governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, e será ratificado oficialmente nesta quarta-feira pela USTA, a federação americana de tênis, responsável pela organização do evento.

Para convencer os tenistas preocupados com sua saúde diante da pandemia do novo coronavírus que está longe de encerrada, os cartolas americanos apostam no enorme prêmio em dinheiro de US$ 60 milhões e nas mordomias que serão concedidas aos tenistas em um complexo gigante como o Billie Jean King National Tennis Center, que ficará sem público este ano.

Outro anúncio que virá nesta quarta-feira será o dos calendários de ATP e WTA. O circuito feminino volta primeiro, com o WTA de Palermo, na Itália, marcado para começar no dia 3 de agosto. Para os homens, o retorno será no ATP 500 de Washington a partir do dia 14. Em seguida, virá o Masters 1000 de Cincinnati, no dia 22, que será em Nova York, no mesmo complexo do US Open. O slam americano, por sua vez, inicia dia 31.

Prêmio em dinheiro

O comunicado enviado pela USTA informa que o prêmio total será de US$ 60 milhões de dólares (a premiação do torneio de Cincinnati está incluída nesse montante). Parte desse valor cobrirá hospedagem e mais US$ 6,6 milhões que, divididos igualmente entre homens e mulheres, serão distribuídos aos tenistas impactados pela mudança no formato. Este ano, não haverá qualifying no US Open, e as chaves de duplas serão reduzidas de 64 para 32 times. Não haverá torneio de duplas mistas tampouco.

Mais de um integrante por equipe

Um dos grandes pontos de discórdia entre cartolas e tenistas dizia respeito ao número de pessoas que cada atleta poderia levar consigo ao torneio. A proposta inicial era de apenas uma pessoa por tenista, o que desagradou a nomes como Rafael Nadal e Novak Djokovic. A USTA, então, recuou e mudou os planos. Agora, a entidade vai disponibilizar dois quartos de hotel para cada atleta, com um máximo de duas pessoas por quarto, e o tenista pagando a segunda habitação.

A grande novidade, porém, é que os tenistas não serão obrigados a se hospedarem em um dos hotéis oficiais, o que fazia parte do plano inicial da USTA. Agora, a entidade está trabalhando com corretores para que os tenistas possam alugar casas fora de Manhattan. Assim, poderão hospedar quantos integrantes de sua equipe quiserem. Será possível levar familiares, médicos, fisioterapeutas, técnicos, nutricionistas e quem mais acharem necessário.

Mordomias

Além de recuar nos pontos mais cruciais, a USTA promete uma série de benefícios para os atletas. Entre eles, estão o espaço que normalmente seria ocupado pelos fãs e que agora será livre para os tenistas circularem, as instalações do hotel e até as suítes corporativas do Estádio Arthur Ashe, que agora serão dedicadas aos jogadores. O comunicado da USTA lista:

- Centro fitness expandido, sala de recuperação, fisioterapia privada e longe para jogadores no hotel.
- Restaurante dos jogadores aberto para café, almoço e jantar
- A comida pode ser encomendada por celular e entregue aos jogadores no local do torneio.
- Restaurantes outdoor (do público) abertos para uso dos jogadores.
- Comida e bebida disponíveis no hotel.
- Vestiários e centros fitness monitorados com protocolos de distanciamento social, limpeza e ventilação.
- Áreas outdoor adicionais disponíveis para áreas de treino.
- Chuveiros liberados com protocolos de distanciamento social.
- Suítes disponíveis como lunges privados para os 32 cabeças de chave. Ao se tornarem disponíveis, irão para o tenista de ranking mais alto em sequência.
- Vestiário do Centro de Tênis Indoor disponível.

Testes

Segundo a USTA, o protocolo de testes foi desenvolvido após consulta a especialistas em doenças infecciosas, revisado pela equipe médica da ATP e aprovado pelo governo local.

- Testes devem ser realizados antes da viagem aos EUA e também serão feitos durante a competição no hotel.
- Frequência de 1-2 testes por semana (sujeito a mudança baseado nas instruções de autoridades médicas locais).
- Questionário de sintomas e conferência de temperatura diários.
- Se um jogador testar positivo ou mostrar sintomas, será isolado, abandonará o torneio e seguirá o protocolo médico recomendado pelo CDC (centro de controle de doenças dos EUA).

Precauções

Entre as obrigações dos tenistas estão:

- Tenistas e convidados terão de usar máscaras nas instalações do torneio, a não ser durante treinos, competição ou sessões de fitness.
- Recomendações de distanciamento social devem ser respeitadas em todas áreas comuns do complexo do US Open e no hotel.

E os tenistas?

A expectativa da USTA é de que os grandes nomes do circuito reconheçam o esforço da entidade para realizar o torneio e apareçam para jogar, mesmo sem público. Nesse sentido, o recuo nas questões da hospedagem e do número de convidados (ou integrantes de equipes) é crucial. Acredita-se que Novak Djokovic, por exemplo, depois de atuar em seu circuito de exibição em Belgrado, no último fim de semana, decida participar. A etapa da capital sérvia do chamado Adria Tour não respeitou distanciamento social entre os espectadores nem entre os atletas, e Djokovic se defendeu dizendo que o torneio atende às recomendações de saúde locais - a pandemia na Sérvia está em um estágio mais ameno que Brasil e EUA, por exemplo.

A mesma lógica deve se aplicar aos outros integrantes do Adria Tour, como Dominic Thiem e Grigor Dimitrov. Se os tenistas competiram em um evento aberto ao público e com poucas precauções quanto à covid-19, não há por que não participar do US Open, que toma tantos cuidados com a saúde de todos. É esse, pelo menos, o racicínio de quem espera realizar um torneio sem desfalques e/ou boicotes.

Ainda assim, as medidas não agradaram a todos. Ainda antes do anúncio oficial, a canadense Gabriela Dabrowski, top 10 de duplas, mostrou graves preocupações. Ela aponta que que um torneio sem quali, sem duplas mistas e apenas metade das chaves de duplas apenas aumenta a disparidade entre quem está no topo e o resto do circuito. Ela ainda lembra que quem testar positivo terá de abandonar o torneio, independentemente da rodada, e ficar dentro de um quarto de hotel até testar negativo novamente.

"Para mim, um slam não é um slam sem qualifying, duplas e duplas mistas. Fica um gosto ruim na minha boca quando tantos jogadores são contra a realização de um evento, e ainda assim ele vai acontecer."

O tweet de Dabrowski já foi reproduzido por vários outros tenistas menos conhecidos do grande público, como o duplista número 1 do mundo, Robert Farah, o alemão Dustin Brown, a canadense Sharon Fichman, a duplista americana Nicole Melichar e o técnico Sascha Bajin.

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