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Monteiro: insegurança no lockdown e violão para manter a saúde mental

Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

19/05/2020 04h00

Número 1 do Brasil e atual 82º colocado no ranking mundial, Thiago Monteiro foi também o primeiro tenista de elite do Brasil a encarar um lockdown quando sua cidade-natal, Fortaleza, adotou medidas mais severas de restrição à movimentação de pessoas. O Ceará é o segundo estado do país com mais casos confirmados de covid-19 até agora.

Em quarentena há dois meses e vivendo em no bloqueio total que começou em 8 de maio, Monteiro bateu um papo comigo na última sexta-feira para falar de suas sensações. O cearense de 25 anos foi muito franco e falou sobre suas inseguranças, a impossibilidade de visitar a mãe que mora a dois andares de distância e as incertezas de viver durante a pandemia do novo coronavírus.

O tenista ressaltou a importância de ocupar o tempo e manter a saúde mental - e como o violão tornou-se peça fundamental nessa engrenagem, contou que reviu algumas de suas partidas para registrar evoluções e anotar pontos a evoluir, e também falou de seus planos para a volta ao circuito, seja em um torneio interno da CBT, seja no circuito mundial.

Você está em Fortaleza, né? Como estão as coisas aí?

Sim, estou em Fortaleza. Eles decretaram lockdown desde segunda. Antes, na quarentena, eu consegui ir na casa de um amigo meu, que tem uma quadra particular, e aí treinava com ele. Era até engraçado porque no mês que eu joguei com ele alguns dias, a gente nem apertou a mão nenhuma vez. Nem quando terminava o jogo. Foi a primeira vez na minha vida que acabei de jogar e não apertei a mão da pessoa do outro lado. Nem o cotovelo chegamos a encostar. Foi um pouco engraçado, uma sensação diferente. Mas depois que decretaram o lockdown total, eu não saí mais de casa. Só quando preciso ir no mercado. A parte do treino físico, de prevenção e força, eu tenho alguns pesinhos aqui, mas nada comparado com o que deveria ser. E fui mantendo aqui em casa, esperando ver como vai ser.

Frase Monteiro 1 - Arte em foto de Fotojump - Arte em foto de Fotojump
Imagem: Arte em foto de Fotojump
Você mora sozinho?

Eu alugo um apartamento no prédio da minha mãe. É de uma conhecida dela, e ela fez um preço muito mais barato. Deixo minhas coisas guardadas aqui. Desde novo, já acostumei a ter meu espaço. Mesmo convivendo tão pouco com a família, quando convive muito chega um momento que é difícil, né? Você quer ter seu espaço. Só o que fiquei nestes dois meses aqui em Fortaleza foi o que eu fiquei somando os últimos quatro anos (risos).

E você consegue visitá-los ou fica mesmo em casa sozinho o dia todo?

Vou muito pouco porque às vezes eu ia na casa do meu amigo, e a minha mãe já é mais velha, é grupo de risco também, e eu não arrisquei de ficar indo lá todo dia. Fico mais sozinho, fico tranquilo aqui também. Às vezes ela vem, dá um oi. Às vezes, minha irmã passa aqui para fazer alguma coisa que precisa. Estou mais me cuidando e cuidando deles ao mesmo tempo. Hoje em dia, ficar em casa é estar cuidando do próximo.

Eu estava lendo, antes de te ligar, que o Ceará é o segundo estado do Brasil com mais mortes por causa de covid-19. Isso te assusta? Pergunto porque, para mim, parece coisa de filme. Muita gente não esperava nunca viver uma situação dessas.

Totalmente. Totalmente.

Como tem sido isso para você? Qual é a sensação mais forte? Medo? Pânico? Insegurança? Ansiedade? Incerteza? O que é mais presente?

É um pouco essa insegurança e a incerteza de quando as coisas vão melhorar ou se a gente vai voltar a ter uma vida normal, como era antes. Porque no Brasil o pessoal é bem afetuoso. Sempre tem muito abraço. Cumprimentar aqui em Fortaleza são dois beijos. No Sul, são três. Então é mais essa incerteza, essa insegurança de não saber se as coisas vão ser como eram antes ou quando toda essa onda negativa vai passar. Ao mesmo tempo, tenho aproveitado para aprender coisas novas e ocupar a cabeça para não ficar só no noticiário. De manhã, é notícia de morte. No almoço, mais mortes. De noite, é "superou os casos", mais gente contaminada. Porque já estamos há dois meses, né? Então, para não ficar muito nessa loucura de noticiário, de preocupação? Isso causa uma ansiedade muito grande. Cada dia é uma preocupação maior, é uma ansiedade a mais. Acho que esse momento realmente é complicado. Mas eu tento ocupar a cabeça para ter ao menos um prazer no dia, apesar de toda essa crise, essa pandemia.

Eu tenho sentido muito esses tempos? Meu pior horário do dia é ali por volta de 19h30min, 20h, que é quando eu preciso parar para saber o que aconteceu no dia. Abrir a página principal de um portal, para mim, virou um sofrimento para mim. Abrir e ler "800 mortos" hoje, 800 e tantos mortos ontem? E você fica imaginando? Que coisa absurda!

E é muita coisa, né? E já virou questão de números. Só números, estatísticas? Se sobe, tá ruim. Mas se começa a descer, é "hoje só teve 700 mortos, então tá tranquilo." Mas são 700 pessoas, 700 famílias afetadas. São três acidentes aéreos gigantes por dia. Nessas proporções. É meio louco como a cabeça se adapta a essas notícias e depois se contenta com "hoje, só 600 mortes." É algo muito crítico. Não tem como estar tranquilo em relação a isso. Mas acho que é possível ocupar a cabeça com outras coisas, mais por saúde mental e também para ajudar da forma que se pode.

O que você vem fazendo para se distrair?

Eu tenho tocado mais violão. Aprendi a tocar faz uns dois-três anos. Com o circuito, era difícil acompanhar tanto. Eu tinha até um violãozinho elétrico portátil, mas é um som diferente. Eu estava ficando desanimado. E agora, nesse tempo, comecei a pegar forte num cursinho mesmo. É um prazer que adquiri, muito através da Bia [Haddad Maia, namorada de Thiago], que é muito ligada em música. Eu fui aprendendo, a gente começou praticamente junto, e aí ficou aumentando a vontade. Mas ao mesmo tempo, vejo Netflix, estou aproveitando para antecipar algumas cadeiras que estou perto de me formar em administração na Estácio, então consigo estar ocupando meu tempo com isso. Tenho sentido até que o dia a dia tem passado muito rápido porque já são dois meses em casa, e o tempo, para mim, voou.

Não sei se você parou para pensar nisso, mas pela situação em que o Brasil está, existe um cenário em que o circuito mundial pode voltar antes de o Brasil estar livre de covid. Se acontecer, você tem algum plano para isso?

Sem dúvida, estou buscando alternativas. Tenho ficado bastante em contato com o Bruno [Soares, integrante do Conselho dos Jogadores], que está sempre nas reuniões do Conselho. Uma coisa que ele me deixou tranquilo é que o plano da ATP é que quando voltar o circuito, vai voltar com oportunidades iguais para todo mundo. É realmente ter a possibilidade de viajar e competir da forma que sempre foi. Ele acha que não seria o caso de, sei lá, a Europa e a Austrália estarem abertas, mas a América do Sul, não. Não vou dizer impossível porque não dá para saber a dimensão da coisa daqui a alguns meses, mas é bem difícil de acontecer, o que me tranquilizou. Ao mesmo tempo, meus treinadores estão na Argentina [Thiago trabalha com o técnico Fabian Blengino], lá as regras estão bem rígidas, fronteiras fechadas? Se eu tivesse ido para lá algumas semanas atrás, eu teria que ficar 15 dias realmente sem poder sair do apartamento em que eu fico lá. Eles levam bem a sério, os vizinhos denunciam, não ia ter como fazer nada por 15 dias, até por isso eu optei ficar por aqui. Meu plano, se as coisas não ficassem tão graves, era ir alguns dias para o Rio de Janeiro, treinar com o pessoal da Tennis Route. Agora, a opção que pode vir à tona é com a CBT, que está em contato com os jogadores buscando armar uma solução, quem sabe um circuito nacional como foi proposto pelo Millman na Austrália. Se der certo, seria fantástico. É algo que já é uma esperança para a gente poder competir.

Pelo que foi conversado com vocês até agora, esse plano da CBT tem data, local, formato? Já tem algo pensado nesse sentido?

Eles conversaram com a gente, têm algumas propostas, não sei o que pode ser falado ou não (risos), mas eles têm um plano, sim. O patrocinador da confederação, o BRB, gostou da ideia, e o plano era tentar fazer algumas etapas, uma série de 4-5 semanas de torneios em cidades próximas para que a locomoção seja fácil. Eles têm essa ideia, mas ao mesmo tempo, precisam da aceitação dos clubes. Porque pode ter quadra, mas pode ser que o restaurante esteja fechado, o vestiário esteja fechado, então tem que ter a disponibilidade dos clubes, num momento em que esteja mais aberto, de poder promover um evento lá, mesmo que seja com portas fechadas. A gente fica nessa expectativa, mas é um bom plano.

A volta do circuito foi adiada para 31 de julho. Você acha provável essa data ou ainda parece muito longe?

Não. É longe. Para mim, é difícil. A maioria dos tenistas com quem eu converso? Falei com Taro Daniel, o Millman, o Pella, o Schwartzman, e a maioria é bem pessimista para o retorno este ano ainda! Porque tênis é diferente, né? Não é como o futebol em alguns países, que fecham as portas e jogam só nacionalmente. No tênis, no circuito mundial, é muito difícil com as viagens, cada semana em um lugar diferente. Esse pinga-pinga vai ser complicado pelas questões sanitárias de cada país. Depois, cada um vai implementar sua forma de receber os turistas. Depois que vier a vacina, acredito que as coisas se tranquilizem, mas até então vai haver sempre uma incógnita. Será que pagou? Será que pode pegar de novo? Será que pode transmitir? Será que é assintomático? Então é bem complexo. Então 31 de julho é muito próximo, muito difícil. Pelo que o Bruno me passou, a possibilidade mais otimista seria ali por setembro, e aí tentar pegar um US Open ou Roland Garros, quem sabe, esticar o calendário, jogar dezembro e janeiro? São algumas das propostas.

Frase Monteiro 2 - Montagem em foto de Fotojump - Montagem em foto de Fotojump
Imagem: Montagem em foto de Fotojump
Uma coisa boa desse período é que os canais brasileiros têm reprisado alguns jogos antigos e clássicos. Você viu algum desses jogos ou parou para rever algumas partidas suas?

Vi alguns. Vi mais o Guga. Vi a final dele com o Agassi, o jogo dele com o Sampras, o jogo dele com o Safin, que esse passou umas três semanas seguidas (risos de ambos). Um jogaço, mas reprisou bastante. Vi alguns jogos meus também, principalmente deste ano. Vi algumas das evoluções que eu vinha apresentando, falando com meus treinadores e visualizando como as coisas vinham acontecendo porque eu estava indo super bem. Vi um pouco o jogo do Fino com o Rafter. Eu gosto de ver! Mas, ao mesmo tempo, acho que vi pouco. Acabei não acompanhando tanto até porque, como eu falei, meu dia está passando rápido. Não parei tanto para só analisar o tênis. Queria ver alguns grandes jogos de Nadal e Djokovic, que até reprisaram, mas não vi.

Nos seus jogos, você presta atenção em quê?

Tenho conversado com meu preparador físico um pouco da questão dos posicionamentos, dos splits. Tinha muitas vezes que eu era surpreendido com bolas que? sei lá, o cara dava uma cruzada, às vezes eu não cobria a paralela como deveria cobrir, e tomava um winner na paralela que era mais no meio do que na paralela - só que eu tomava um winner porque eu não cobria os espaços da forma como deveria ser. Isso mais no fim do ano passado. Este ano, já estava bem mais rápido. Quando o cara chega nas bolas, dizem que o cara é muito rápido, mas na verdade é um bom posicionamento, né? O Tomic mesmo? Era difícil dar um winner no cara. Parecia que o cara nem mexia as pernas, mas o cara se posicionava de uma forma que poucos tinham uma visão tão privilegiada como a dele. Um pouco essas questões mais técnicas, de movimentação e do meu jogo em si, momentos em que poderia ter arriscado uma bola, um erro que não poderia ter acontecido. Mas são essas análises mais pontuais, de um certo momento do jogo. Um 30/40, um 40/30, como jogar mais padrão, ver que o cara perdeu três-quatro pontos e estava mais estressado no momento e não entregar esse ponto de graça, não arriscar tanto? Então umas coisas mais pontuais, de certos momentos do jogo.

Algum tempo atrás, rolou aquela ideia de todos top 100 doarem dinheiro para os tenistas de ranking mais baixo. Eu quero saber a sua opinião porque, segundo o que foi divulgado, quem estivesse entre 50-100 no ranking, daria US$ 5 mil, e hoje isso dá quase R$ 30 mil!

Eu fui falando com o Bruno, e ele me tranquilizou nessa questão. Depois, no fim das contas, o dinheiro foi arrecadado com os grand slams, ATP e WTA. Não saiu dos jogadores. Teve toda uma confusão, uma briga com o posicionamento de alguns jogadores, depois alguns tomaram as dores, então? Sem ter a necessidade porque não havia a informação. O Bruno me explicou essa situação. Vai ter realmente o benefício para os jogadores, o que é importante. Vivenciei muito os Futures. Como o Thiem falou, realmente tem caras que não se comprometem tanto, mas tem muita gente que está batalhando dia a dia, pulando de torneio para torneio. Peguei um pouco a época do Dustin Brown, que viajava de trailer de um torneio para o outro. O cara batalhava. A cada semana, ele precisava receber aquele dinheiro para poder bancar a próxima semana. É importante ter esse apoio nesse momento complicado para esses jogadores. Tem todo um negócio bem organizado para o dinheiro sem dividido da forma mais justa. Vai ter gente que realmente não se compromete tanto e vai receber um dinheiro, mas é minoria.

Então nunca chegou a estar perto do "vamos te obrigar a dar US$ 5 mil", né?

Não. Pelo meu conhecimento, não. Pelo que fui acompanhando, em contato com o pessoal que estava mais envolvido, nas haveria essa medida. Na verdade, o top 20 ou top 10, que tem mais dinheiro - porque a divisão do dinheiro está praticamente toda lá, né? (risos) Só o Djokovic tem mais de US$ 100 milhões de prize money. Só ele podia bancar todo mundo ali (risos). Teve uma proposta, sim, mas depois os grand slams se envolveram e conseguiram fazer essa divisão sem precisar tirar, sei lá, US$ 5 mil meus (risos) para isso.

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