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Doping de chileno é mais um a colocar o Brasil nos holofotes errados

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

21/04/2020 04h00

A Federação internacional de Tênis (ITF, na sigla em inglês) anunciou nesta segunda-feira a punição ao chileno Nicolás Jarry, flagrado em um exame antidoping realizado no dia 19 de novembro do ano passado, enquanto disputava as finais da Copa Davis, em Madri. O jovem de 24 anos, que já foi número 38 do mundo, pegou 11 meses de suspensão em um caso cuja sentença cita mais brasileiros do que cidadãos de quaisquer outros países.

Jarry, assim como os brasileiros Marcelo Demoliner, Thomaz Bellucci, Igor Marcondes, Bia Haddad Maia e Camilla Bossi, argumentou que as substâncias proibidas encontradas em sua amostra de urina entraram em seu sistema por culpa da chamada "contaminação cruzada", ou seja, estavam por acidente em suplementos produzidos por uma farmácia de manipulação.

O curioso - e que torna o caso de Jarry especialmente ruim para o Brasil - é que o chileno também mandou fazer seus suplementos em uma farmácia brasileira. A sentença, que pode ser lida na íntegra aqui, além de citar todos os tenistas acima, ainda menciona outros dois personagens brasileiros: o fisioterapeuta Paulo Santos, que já trabalhou em equipes de Copa Davis, e o Dr. Ricardo Diaz Savoldelli, atual médico do time verde-e-amarelo.

Segundo a sentença, Paulo Santos disse a Jarry para não tomar suplementos produzidos por uma farmácia do Rio de Janeiro porque Bellucci e Demoliner usaram os serviços do estabelecimento e acabaram testando positivo. O texto da ITF também relata que Savoldelli faz uma visita-surpresa à Orthofarma, em São Paulo, para verificar o processo usado pela farmácia de manipulação, e ficou satisfeito com o que viu. Ambos fatos pesaram a favor de Jarry, mas não o isentaram de culpa e não evitaram a suspensão.

Pesaram contra Jarry os casos de Demoliner, Bellucci e Marcondes, todos punidos por doping nos últimos quatro anos. Também jogou contra o chileno o caso do argentino Franco Agamenone, também suspenso (10 meses) por contaminação cruzada. Além disso, no dia da punição a Agamenone, a ITF publicou em seu site um aviso em que alertava os tenistas sobre o risco envolvido no uso de suplementos. O texto ainda dizia especificamente: "jogadores da América do Sul devem estar em alerta especialmente alto quanto ao uso de suplementos, inclusive os preparados em farmácias, já que várias violações vêm acontecendo com suplementos preparados por fontes parecidas nessa região."

A sentença ainda cita os casos de Bia Haddad Maia e da juvenil Camilla Bossi e lembra que Jarry carrega uma culpa maior do que os casos anteriores, justamente porque deveria ter conhecimento de tais punições e, por isso, o chileno pegou 11 meses de gancho - um mês a mais que Bia e Agamenone, os casos mais recentes.

Coisas que eu acho que acho:

- Jarry estará liberado para voltar a competir no dia 15 de novembro de 2020. O tempo de punição corre normalmente, mesmo com o circuito parado.

- Ainda não conversei com Jarry ou alguém de sua equipe, mas estranha demais o fato de um chileno mandar produzir suplementos no Brasil. Ainda que ele tenha um fisioterapeuta brasileiro, depois de saber de tudo que aconteceu com farmácias daqui (e isso inclui o famosíssimo caso de Cesar Cielo, lá atrás, em 2009), mandar produzir suplementos no Brasil era correr um risco desnecessário para quem não mora no país. Não valeu a pena.

- Como venho escrevendo há alguns anos, a ITF encontrou o argumento perfeito para lidar com os casos de contaminação cruzada. Ao estabelecer que cada tenista flagrado tem mais culpa do que o anterior, a entidade vai punindo cada vez mais severamente todos que se arriscam com suplementos. A coisa vai ficando muito feia para quem ainda testa sua sorte.

- Sobre a visita do médico Ricardo Diaz Savoldelli à Orthofarma: a ITF aponta na sentença que a visita aconteceu em fevereiro de 2018 e, portanto, estava datada e não podia servir de referência para um tenista 20 meses depois - quando Jarry encomendou seus suplementos.

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