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Top 5: minhas finais preferidas de Indian Wells

Jed Jacobsohn/Getty Images
Imagem: Jed Jacobsohn/Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

12/03/2020 04h00

Na falta de tênis em Indian Wells, um post estilo "memória" para matar a saudade e lembrar de jogos que certamente marcaram a história do torneio californiano. A lista abaixo não é uma lista de "melhores" nem "mais isso" nem "mais aquilo". São meramente as cinco preferidas entre as que vi ao vivo e que me lembrei quando sentei para fazer este post.

Todas, acredito, têm algum significado que vai além do resultado final. Todas foram um tanto importantes para os campeões por motivos que iam além dos adversários derrotados. Além disso, quatro delas tiveram transmissão de TV ao vivo para o Brasil, o que ajuda a explicar a ausência de jogos femininos (abri uma exceção para a decisão de 1995, que tenho gravada e revi um punhado de vezes anos atrás, no auge da minha obsessão por formar um arquivo de partidas históricas em casa).

1995. Sampras d. Agassi - Final - 7/5, 6/3 e 7/5

Incluí esta partida na lista porque sei que muitos dos leitores deste blog não acompanharam nem o auge da carreira de Pete Sampras nem os melhores dias da rivalidade com Andre Agassi. O clipe acima é um exemplo perfeito do que acontecia na maioria das vezes que eles se encontravam. Dezenas de pontos espetaculares, margens mínimas para os sacadores e, na maioria, vitória de Pete Sampras.

O vídeo é bem montado porque capta não só a essência daquele jogo, mas a dinâmica dos jogos entre Sampras e Agassi. Pistol Pete ganhava a maioria dos pontos curtos - com aces, saques mal devolvidos ou subidas para fazer saque-e-voleio - enquanto Agassi comandava a maioria das trocas da linha de base e vencia mais ralis.

Ainda assim, Andre era vítima frequente da direita na corrida de Sampras, que jogava a isca lindamente numa espécie de versão anos 1990 do atual forehand de Del Potro. Pete deixava aquele lado pseudodesprotegido, desafiando o rival a atacar ali. Com ótima leitura de jogo, Sampras muitas vezes chegava inteiro e contra-atacava com uma bola mortal - e sua direita na corrida funcionava igualmente bem tanto na paralela quanto na cruzada angulada. Agassi teve pesadelos com ambas por muito tempo.

Em 1995, quando Indian Wells durava apenas uma semana, o torneio mal sonhava com o status que tem hoje (vejam como a quadra central era bem mais modesta) e a final ainda era em melhor de cinco sets, Sampras vinha de uma derrota para Agassi na final do Australian Open, e a decisão do torneio californiano era importante para lhe restabelecer na rivalidade e manter Agassi, então #2 do mundo, à distância.

O título serviu apenas para adiar a ascensão de Agassi. Andre bateu Pete na final de Miami no tie-break do terceiro set (essa decisão foi em melhor de três) e, no dia 10 de abril de 1995, assumiu o posto de número 1 do mundo.

2001. Agassi d. Sampras - Final - 7/6(5), 7/5 e 6/1

Se em 1995 Pete Sampras ainda estava no meio de seu reinado (terminou o ano como número 1 do mundo de 1992 a 1998), em 2001 quem vivia seu auge era Andre Agassi. De bem com a vida e com o tênis após despencar no ranking na segunda metade da década de 1990, Andre deixou de lado a coisa do "imagem é tudo" e concentrou seus esforços dentro de quadra com a ajuda do técnico Brad Gilbert.

A reação começou em 1999, com o título de Roland Garros, continuou com a conquista de seu segundo US Open e de mais um Australian Open no começo de 2000. Agassi fez quatro finais de slam seguidas (perdeu a final de Wimbledon/1999 para Sampras), terminou 1999 como #1 do planeta e ainda estava em grande forma em 2001, quando conquistou Melbourne mais uma vez. Com 30 anos (idade avançada para os padrões da época), viveu naquele Indian Wells mais um episódio daquele grande momento. Sampras, por sua vez, já havia iniciado a parte descendente de sua carreira.

O resultado nisso, num duelo tradicionalmente com margens mínimas, é que Sampras até teve suas chances, mas saiu atrás porque cometeu mais de uma dupla falta no tie-break do primeiro set. Aquele Agassi ultraconfiante e super afiado manteve um nível altíssimo e, quando abriu 2 sets a 0, deslanchou no terceiro set enquanto Sampras caiu de produção.

Além de incluir a partida completa, o vídeo acima vale pela entrevista pós-jogo, que coloca Agassi e Sampras com fones de ouvido (ao mesmo tempo!) para analisar a partida e conversar com a equipe de transmissão. Um ouve enquanto o outro fala e ambos trocam elogios. Agassi x Sampras foi o Fedal de uma época em que ainda não shipávamos esses jogos. Foi um duelo de estilos de jogo e personalidades entre dois atletas que, se tiveram pequenas rusgas, sempre se respeitaram e admiraram o que o rival levava para dentro de quadra. Por motivos óbvios, é meu preferido entre os cinco vídeos deste post.

2014. Djokovic d. Federer - Final - 3/6, 6/3 e 7/6(3)

Na falta de uma grande final com cinco sets, pulemos para decisões que terminaram no tie-break do terceiro. Em 2014, mais um episódio da rivalidade entre Novak Djokovic e Roger Federer que terminou com um triunfo do sérvio. Até ali, contudo, o head to head em finais era equilibrado: 4 a 4 (hoje, Nole lidera por 13 a 6).

O cenário era interessante porque ambos viviam momentos de reafirmação. Em 2013, Federer passou por seu pior momento no circuito em muito tempo. Teve dores nas costas no segundo semestre e começou a testar raquetes diferentes. No meio disso tudo, sofreu derrotas para gente como Sergiy Stakhovsky (Wimbledon, segunda rodada), Federico Delbonis (Hamburgo, semifinais) Daniel Brands (Gstaad, primeira rodada) e Tommy Robredo (US Open, terceira fase). Foi quando começaram a surgir os comentários sobre sua aposentadoria. Felizmente, Roger e a Wilson desenvolveram uma raquete nova, com cabeça maior, que fez diferença. Em 2014, depois de perder a final de Brisbane para Hewitt e a semifinal do Australian Open para Nadal, o suíço encontrou o rumo em Dubai, onde bateu Djokovic na semi e Berdych na final. Indian Wells era o torneio imediatamente seguinte.

Djokovic também queria retomar a liderança do ranking. Depois de atropelar o circuito em 2011 e terminar 2012 ainda como número 1, o sérvio viu Nadal, voltando de lesão, começar uma arrancada espetacular no Brasil Open e fazer uma temporada fantástica em 2013. Depois de vencer o trio Canadá-Cincy-US Open, o espanhol terminou a temporada na ponta. Nole, que sofreu na semi de Roland Garros/2013 uma das derrotas mais doídas da carreira, precisava correr atrás novamente em 2014. Depois de perder para Wawrinka nas quartas em Melbourne e para Federer na semi de Dubai, Indian Wells precisava ser o ponto de partida para uma nova arrancada. Logo, aquela final contra o suíço colocava muita coisa em jogo para ambos.

E se o histórico de sérvio e suíço em finais era equilibrado até então, aquela partida teve mais drama. Roger saiu na frente, mas Nole forçou o terceiro set e parecia rumar para a vitória, mas foi quebrado quando sacava para o jogo. A decisão precisou de um tie-break. A vitória, de fato, impulsionou a temporada de Djokovic. Depois de vencer na Califórnia, foi campeão também em Miami e Roma, chegando a Roland Garros muito bem cotado, mas essa é outra história.

2018. Del Potro d. Federer - Final - 6/4, 6/7(8) e 7/6(2)

Depois de uma eternidade de problemas e cirurgias, Juan Martín del Potro voltou ao circuito em 2016 e foi subindo no ranking aos poucos. Antes de 2018, esteve perto de títulos grandes, mas bateu na trave. Perdeu a final dos Jogos Rio 2016 para Andy Murray e caiu na semifinal do US Open de 2017 diante de Rafael Nadal. Quando chegou a Indian Wells/2018, Delpo (#8) já era top 10 e tinha acabado de conquistar o ATP 500 de Acapulco, na quadra dura, superando, em sequência, David Ferrer, Dominic Thiem, Alexander Zverev, e Kevin Anderson (os últimos três eram top 10). Se o argentino tinha pretensões de um dia brigar pela liderança do ranking, era preciso brilhar nos Masters 1000, e aquela final de Indian Wells se apresentava como o primeiro passo.

Roger Federer, por sua vez, vivia um momento iluminado. Após seis meses afastado por causa de uma lesão no joelho em 2016, o suíço voltou ao circuito em 2017 conquistando o Australian Open em uma final memorável contra Nadal, depois venceu Indian Wells e Miami, triunfou em Halle e Wimbledon mais uma vez e, por pouco, não terminou a temporada como número 1. A liderança ficou com Nadal, que venceu o US Open - torneio em que Federer caiu nas quartas de final justamente diante de Del Potro. O suíço abriu 2018 também de forma fulminante. Venceu em Melbourne e foi campeão em Roterdã, finalmente assumindo a liderança do ranking. Mais um título em Indian Wells serviria para consolidar seu lugar na ponta e, por que não, vingar a doída derrota em Nova York no ano anterior.

O jogo teve todos elementos clássicos de um bom Federer x Del Potro. O suíço esteve bem no saque, subiu à rede e tentou explorar a esquerda do argentino. Delpo, por sua vez, usou o saque e sua violenta direita para definir os pontos sempre que possível. Além disso, teve set point voltando após replay, uma rara dupla falta de um furioso Federer no 6/5 do primeiro tie-break, um match point perdido por Del Potro com uma bola fácil em sua direita… e tudo isso apenas no segundo set! No terceiro, Federer quebrou Del Potro no nono game, sacou para o título em 40/15 (!!!) na sequência e… lembrem no vídeo acima.

2019. Thiem d. Federer - Final - 3/6, 6/3 e 7/5

Apesar de não ter conseguido defender o título do Australian Open (perdeu para Stefanos Tsitsipas nas quartas), Federer fazia mais um belo começo de temporada 2019. Depois de Melbourne, conquistou Dubai, batendo o mesmo Tsitsipas na final, e voltou à final de Indian Wells. O caminho no torneio californiano não foi dos mais turbulentos. Passou por Gojowczyk, Wawrinka, Edmund e Hurkacz. Na semi, avançou por WO porque Nadal se lesionou na vitória contra Khachanov. Restava apenas Thiem entre ele e o título.

Para Dominic Thiem, 2019 era o ano para dar o salto do top 10 para o top 5, que é mais complicado do que parece. O austríaco ainda não tinha um título de Masters 1000 no currículo (nem no saibro), mas já tinha mostrado seu potencial em quadras duras no US Open do ano anterior, quando levou Nadal ao tie-break do quinto set em uma partida de tirar o fôlego. A temporada de 2019 começou ruim, com problemas de saúde, um abandono na Austrália e uma derrota precoce para Djere na primeira rodada do Rio Open. Em Indian Wells, contudo, tudo começou a se encaixar. Após bater Thompson, Simon, Karlovic, Monfils e Raonic era a hora de tentar superar Federer e conquistar o maior título da carreira.

O suíço saiu na frente, com uma quebra logo no segundo game. Um sinal de que seria duro para Thiem lidar com todas variações e com o ótimo saque do veterano no piso sintético. No segundo set, porém, o austríaco fez Federer pagar o preço por um par de tentativas de saque-e-voleio, mostrando que sua devolução lá do fundo tem sua eficiência. A parcial decisiva parecia mais na mão do suíço, que teve até um break point no oitavo game - faria 5/3 e sacaria para o jogo - mas errou um backhand na corrida com Thiem junto à rede. O austríaco ainda se safou de um delicado 30/30 no 4/5, com Federer subindo à rede. O veterano, então, pagou o preço no 5/5, tentando duas curtinhas seguidas que Thiem alcançou e ganhou os pontos para alcançar seu break point.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.