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Mais desafiado, mais afiado: 5 coisas que aprendemos com o título de Wild

Divulgação/Dove Men+Care Open/Jim Rydell
Imagem: Divulgação/Dove Men+Care Open/Jim Rydell
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

02/03/2020 00h14

Duas semanas seguidas de ótimas atuações, cerca de US$ 125 mil no bolso, 295 pontos na conta e, claro, o título do ATP 250 de Santiago, no Chile. Thiago Wild, 19 anos, saltou do 182º para o 113º posto no ranking e, mais do que isso, devolveu ao público brasileiro a esperança de voltar a ter um compatriota por quem torcer em torneios grandes.

A campanha de Wild em Santiago foi uma continuação do que o paranaense mostrou no forte ATP 500 do Rio de Janeiro. No Chile, em uma chave mais fraca - e com a sorte de encarar um Cristian Garín lesionado - o brasileiro aproveitou o convite que recebeu para a chave principal, lidou gloriosamente bem com desafios diferentes e terminou a semana com o troféu na mão, tornando-se o mais jovem brasileiro a vencer um evento de nível ATP.

O que podemos concluir baseados nestes últimos sete dias? Várias coisas boas. Vamos a elas:

1. Validação

No Rio de Janeiro, Wild enfrentou em Alejandro Davidovich Fokina e Borna Coric, dois top 100. Era azarão em ambas partidas e brilhou na noite carioca. Bateu Fokina em 3h49min e levou Coric ao limite, perdendo apenas no tie-break do terceiro set. Santiago trouxe obstáculos diferentes e oponentes mais, digamos, ganháveis em Facundo Bagnis e Juan Ignacio Londero. Na semifinal, era favorito contra Renzo Olivo, e Wild perdeu apenas quatro games. Vencer Casper Ruud na final não mudou o que já era possível constatar: o que aconteceu no Rio não foi por acaso. Wild tem, sim, tênis para competir e brigar por títulos nesse nível.

2. Personalidade

Aconteceu no Rio de Janeiro e, de novo, em Santiago. Em todos os momentos do torneio chileno, Wild seguiu fiel a seu "DNA" tenístico. Tentou sempre tomar a dianteira dos pontos e agredir primeiro. Fez isso ganhando ou perdendo. Às vezes trocando mais bolas, às vezes encurtando os pontos. Nunca, contudo, conformando-se em defender e esperar por erros dos adversários.

Nas oitavas de final em Santiago, diante de Juan Ignacio Londero, #63 do mundo, Wild precisou encarar dois set points na primeira parcial. No primeiro, nada de apenas colocar a bola em jogo. Foi para o ace e acertou uma bomba no T. Indefensável. No segundo, com Londero no saque, acertou uma devolução funda e deu sequência com duas direitas agressivas até que o argentino cometeu um erro forçado. Wild venceu a parcial por 7/6(7) e quebrou o rival no começo do segundo set.

O mesmo aconteceu nas quartas de final, diante do tenista da casa Cristian Garín, #18 do mundo. Mesmo sentindo dores nas costas, o chileno foi um belo rival no primeiro set e chegou a ter seis set points com o saque. Wild manteve-se firme, salvando set point atrás de set point até conseguir quebrar o rival, forçar o tie-break e vencer a parcial. Garín, então, abandonou a partida. Tivesse vencido a parcial, o chileno possivelmente teria ficado mais tempo em quadra, buscando a vitória em dois sets.

3. Altitude ajuda

No Rio de Janeiro, Wild afirmou que seu estilo de jogo agressivo, buscando entrar na quadra e atacar primeiro, ajuda um bocado em quadras rápidas. Santiago não é exatamente um saibro lento, e a altitude da região onde foi disputado o torneio (leste de Santiago, cerca de 900m acima do nível do mar) deixa o jogo mais rápido o suficiente para colocar Wild em uma zona bastante confortável (apesar das críticas à qualidade das quadras).

O que se viu durante a semana foi um Wild sacando bem (mais de 60% de aproveitamento de primeiro serviço em todas as partidas), ganhando vários pontos de graça com o fundamento (17 aces na final) e usando inteligentemente o saque aberto, com bastante kick, o que lhe permitia atacar com frequência já na segunda bola. Além disso, sua direita pesada frequentemente colocava os adversários na defensiva.

4. Oscilações / força mental

Aquele Thiago Wild conhecido por quebrar raquetes não desapareceu totalmente desde que protagonizou a cena abaixo no Challenger de Punta Del Este, no fim de janeiro.

Em Santiago, felizmente, o paranaense oscilou menos mentalmente. Ainda assim, no segundo set contra Ruud, perdeu a paciência quando desperdiçou um 0/30 no oitavo game, com o norueguês sacando em 3/4. Uma quebra ali significaria a chance de sacar para o jogo. O resultado? Ruud quebrou Wild no game seguinte - com direito a palmas irônicas do brasileiro quando o rival fez um winner ao pegar mal na bola - e fez 6/4 na parcial pouco depois. Wild "esqueceu" o momento ruim rapidamente e voltou preciso para o terceiro set. Abriu 3/0 e conseguiu a vantagem que lhe daria o título.

Outro exemplo? No terceiro set, com Ruud sacando em 2/5 e 15/30, Wild perdeu um ponto com uma bola do rival que tocou na fita e caiu perto da rede. O brasileiro descontou a raiva batendo com força na bolinha, que perdeu velocidade na rede e passou perto da cabeça de um boleiro. Um leve erro de cálculo poderia ter feito a bola ir de encontro ao boleiro e causar uma desclassificação a dois pontos do título. De qualquer modo, Wild foi vaiado pelo público neste e no ponto seguintes. Era um momento delicado, logo antes de o brasileiro sacar para o jogo. Novamente, Thiago mostrou força mental e entrou no game de cabeça fresca. Disparou dois aces para abrir 30/0 e simplificou bastante o resto da tarefa.

5. Mais desafiado = mais afiado

Na primeira entrevista que fiz com Thiago Wild, em novembro de 2017, o garotão ainda tinha 17 anos ainda era o #637 do mundo, mas já tinha uma certeza: saberia que o caminho ao sucesso passaria por momentos delicados e saber lidar com a pressão seria essencial. "Eu sempre gostei de ter um desafio a mais", disse, antes de completar: "Jogar um 4/5, 30/40 é pressão - lógico que tem a tensão - mas é uma coisa que vai acontecer muito, que sempre acontece. É uma coisa que o jogador de tênis que quer ser um bom jogador de tênis tem que aprender a lidar. Tem que gostar."

Não é por acaso que algumas das melhores atuações de Wild nos últimos anos foram em torneios considerados fortes para seu nível no momento. Desde a apresentação contra Carlos Berlocq no Brasil Open de 2018 até a campanha que o levou às quartas de final do Challenger de Campinas no mesmo ano (incluindo uma vitória sobre o top 100 Hugo Dellien), incluindo a vitória sobre Elias Ymer no Brasil Open de 2019 e as duas excelentes partidas do Rio Open, na última semana. Quanto maior o desafio, mais concentrado e afiado Wild entra em quadra. Uma característica essencial a grandes tenistas. Que Thiago Seyboth Wild, 19 anos, continue assim.

Coisas que eu acho que acho:

- Não é justo julgar a promotora depois do que aconteceu, mas é possível apreciar a ironia: a Octagon tirou seu ATP de São Paulo e levou para Santiago, dando o evento nas mãos da família de Nicolás Jarry e contando com dois tenistas fortes para impulsionar o evento. Jarry acabou suspenso provisoriamente em um caso de doping, enquanto Garín lesionou-se no Rio de Janeiro e não conseguiu competir como gostaria no Chile. O campeão? Um brasileiro que ganhou convite para a chave principal…

- Há quem diga que ser um grande juvenil coloca muita pressão sobre um tenista jovem. Wild não foi número 1 do mundo como juvenil, mas foi campeão do US Open júnior, chamou atenção de patrocinadores, assinou com a Octagon e ganhou convites para torneios. Aproveitou um deles e conquistou seu primeiro ATP aos 19 anos. Voltamos à questão de lidar com expectativas. Há quem sofra com isso e se faça de vítima. Outros aprendem a lidar com a situação cedo e aproveitam chances. Está claro a que grupo Thiago Wild pertence.

- Num momento em que nenhum canal (aberto, fechado ou de streaming) mostra a WTA e há direitos de vários torneios sendo renovados e/ou renegociados, um título de um brasileiro deve ter a força de mexer no mercado. Ninguém vai querer ficar fora da briga se Wild passar a ser nome constante em ATPs 500 e Masters 1.000. E pouca gente duvida hoje em dia que ele tem tênis para estar logo, logo entre os 50 do mundo.

- Entendo quando alguém escreve "supera feito de Guga" após o título de Wild. De fato, o paranaense foi campeão de ATP com 19 anos, enquanto o catarinense venceu seu primeiro torneio de nível ATP aos 20. É difícil, entretanto, comparar as conquistas. O primeiro ATP de Gustavo Kuerten foi "apenas" Roland Garros.

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