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Entenda o submundo das apostas que acabou com a carreira de Feijão

Divulgação/Leandro Martins
Imagem: Divulgação/Leandro Martins
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

26/01/2020 04h00

É possível afirmar que a corrupção no tênis existe há muito tempo, mas com a proliferação das casas de apostas online, o problema tomou outra dimensão na última década. Para combater o problema, a Federação Internacional de Tênis (ITF), a ATP e a WTA, juntamente com os organizadores dos Grand Slams, criaram em 2009 a Unidade de Integridade do Tênis (TIU, na sigla em inglês), órgão que baniu o brasileiro João Souza, o Feijão, pelo resto da vida.

Mais de uma década depois, casos de manipulação de partidas continuam pipocando, e a TIU, em seu último relatório, divulgou que no ano passado 26 pessoas — incluindo um técnico e uma árbitra — foram punidos por diversas infrações ao programa anticorrupção do tênis. Ainda assim, a TIU recebeu 139 alertas de partidas possivelmente manipuladas, e o número de punições continua baixo porque é difícil comprovar que houve práticas desonestas durante as partidas.

Como funciona, entretanto, esse submundo? Por que se aposta tanto no tênis? Por que as propostas para manipular partidas são tão atraentes para os atletas? Este texto explica alguns dos porquês e lembra o que vem sendo feito pelas autoridades para amenizar o problema.

Como agem os grupos de apostadores

Há vários tipos de abordagem. Alguns tenistas recebem propostas para "entregar" partidas via redes sociais. De modo geral, a mensagem chega até eles por uma conta com um nome aleatório, sem foto e localização. Só quando o jogador responde a mensagem, e se mostra disponível para algum tipo de acordo, é que existe um encontro presencial. Essas abordagens acontecem com mais frequência em torneios pequenos, como eventos do World Tennis Tour (WTT) ou ATP Challengers.

Nesses torneios, os prêmios em dinheiro são pequenos, e a maioria dos tenistas sofre para pagar suas contas com viagens, hospedagem, alimentação e treinamento. Em um WTT que distribui US$ 15 mil, por exemplo, o campeão recebe pouco mais de US$ 2 mil. Quem perde na primeira rodada, embolsa míseros US$ 156. Foi o que aconteceu com o argentino Nicolás Kicker, que acabou suspenso por seis anos. Ele relatou a história em um vídeo educacional da ITF (veja abaixo).

Em alguns casos, pessoas conhecidas — amigos, técnicos e ex-tenistas que viajam pelo circuito — se aproximam, dizem conhecer pessoas interessadas e que existe a possibilidade de ganhar muito dinheiro. Os tenistas são instruídos pela TIU a reportar todas essas propostas, mas muitos não o fazem ou pela relação de amizade com quem os procurou ou por medo de retaliações.

Por que é difícil reconhecer a manipulação

As casas de apostas online oferecem todo tipo de aposta. É possível colocar dinheiro em quem será o possível ganhador partida, mas também é possível apostar no vencedor do próximo ponto, do próximo game ou do set atual. Quem aposta também pode tentar acertar o placar total do jogo, o número de games ou até o número de games vencidos pelo perdedor. Com tantas variáveis, é difícil identificar quando há manipulação.

Suponhamos que um cidadão, sentado à beira da quadra, aposte em seu celular que o próximo ponto será decidido em uma dupla falta. Ele, então, faz um sinal para o tenista com quem combinou a trapaça, e o atleta comete a dupla falta. O apostador ganha o dinheiro, e o tenista volta a competir como se nada houvesse acontecido. É praticamente impossível para o árbitro ou qualquer pessoa vendo o jogo identificar a conduta desonesta.

Até mesmo em casos em que um tenista parece fazer pouco esforço e perde para um azarão, o atleta pode alegar lesão, pedir atendimento médico e dizer que está sentindo dor para justificar a derrota.

Por que as propostas são atrativas para os jogadores

Um relatório independente encomendado por ATP, WTA, ITF e os Grand Slams, publicado em 2018, apurou que dos cerca de 14 mil tenistas chamados profissionais no mundo todo, apenas os colocados entre 250 e 350 no ranking mundial conseguem "empatar" financeiramente, ou seja, terminam uma temporada sem ganhar, mas também sem perder dinheiro. Isso faz do tênis terreno fértil para corrupção. A tentação é muito grande para quem disputa os torneios de entrada no circuito mundial e, em sua maioria, pagam para continuar competindo e alimentando o sonho de, um dia, chegarem à elite.

Reprodução/Relatório independente de 2018
Imagem: Reprodução/Relatório independente de 2018

Nas tabelas ao lado, que mostram o total de alertas de partidas suspeitas de 2009 a 2017, a linha azul representa os torneios menores. A linha laranja representa os torneios da série Challengers; a verde, os ATP/WTA Tours; e a vermelha, os do Grand Slam. A linha preta representa o total de alertas. O gráfico de cima mostra os números do circuito masculino. O de baixo, os do circuito feminino.

Nos torneios do World Tennis Tour, eventos de entrada no circuito mundial, os prêmios em dinheiro são muito pequenos. Nesse nível, em torneios que dão US$ 15 mil ao todo, para ganhar US$ 2.160 na semana, um atleta precisa ser campeão, vencendo cinco partidas. Ainda assim, dependendo da viagem que fez para disputar o torneio, o montante muitas vezes é insuficiente para pagar os gastos totais daquele período. Para quem perde na primeira rodada, o drama financeiro é ainda maior. Em entrevista ao Globoesporte.com em 2016, Feijão abordou o problema e disse entender a posição de quem aceita "vender" partidas.

"Eu sei de caras que já se venderam, caras que fazem? O circuito é muito pequeno, todo mundo sabe os caras que fazem e não fazem. Então, você acaba entendendo. Todo mundo tem amor ao tênis, mas quer fazer dinheiro com o negócio. É muito mal pago. A gente não vive de top 100. E os outros? É muito bem pago Grand Slam, Masters 1000, torneios 500, 250? Mas e o resto? Imagina um espanhol que veio para cá, disputar um Challenger, com treinador, hotel, comida? É muito gasto. Se você não está entre os 100, vai perder dinheiro. O cara te manda e-mail, Facebook, consegue teu whatsapp. Te oferece 15 mil euros. Você vai fazer o que? Um cara que a família não tem condição, sem patrocínio. Eu entendo esse lado."

Como age o órgão anticorrupção

A Unidade de Integridade do Tênis trabalha em função dos "match alerts", que são comunicados recebidos sobre padrões incomuns em apostas. Se, por exemplo, uma casa de apostas percebe um valor muito acima do normal apostado em um azarão, isso pode significar que circula nos bastidores um boato sobre um resultado que será manipulado. A TIU é informada e, a partir disso, começa a apurar. O órgão envia investigadores para entrevistar árbitros, organizadores e tenistas — inclusive com o poder de confiscar smartphones e baixar os dados do aparelho para serem analisados posteriormente.

Tenistas são obrigados a cooperar com a investigação e fornecer todo tipo de material solicitado pela TIU. Quem se recusa, mesmo que não tenha manipulado resultados, pode ser igualmente suspenso do circuito. O argentino Federico Coria ficou suspenso por dois meses e pagou US$ 5 mil de multa simplesmente por não reportar uma abordagem para manipular resultado.

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Imagem: Getty Images

"No meu depoimento, eu disse que não tinha como denunciar. Na minha opinião, deveriam ter vários regulamentos porque não é o mesmo viver na América do Sul do que na Suíça ou na Alemanha. Recebemos ameaças, pessoas que dizem o nosso endereço, que sabem onde a gente vive. Não sei, mas acho que eles não entendem que aqui no Brasil ou na Argentina nos matam por um celular. Eles não entendem e vão muito ao limite das regras. E as regras são assim. Eles têm razão, mas eu também acho que eu tenho razão", disse o argentino ao jornalista Thiago Quintella no ano passado, durante o Challenger de Campinas.

A TIU também distribui aos torneios imagens de pessoas suspeitas e, dependendo da investigação, aparece de surpresa e monta escritórios em alguns torneios. No Brasil, isso já aconteceu em Curitiba, em 2018. Alguns tenistas foram entrevistados (verbo educado que substitui "interrogar" no linguajar da TIU), mas o órgão não revelou o que estava apurando na ocasião.

Quem já foi punido

A lista de pessoas suspensas e banidas do esporte não para de crescer e não se limita a tenistas. Técnicos e árbitros também são punidos. Em 2018, por exemplo, três árbitros tailandeses foram banidos pelo resto da vida. O trio apostou em partidas nas quais estavam trabalhando e, além disso, agiram desonestamente na hora de registrar o placar.

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Imagem: Getty Images

Esse tipo de trapaça acontece porque existe um atraso de cerca de 30 segundos entre o momento que o árbitro registra o placar em seu tablet e o instante em que o placar ao vivo chega nas casas de apostas online. Quando o árbitro atrasa propositalmente o registro do último ponto, apostadores na beira da quadra têm a chance de apostar na modalidade "próximo ponto" durante o pequeno intervalo entre o fim do ponto e o momento em que o placar é atualizado nos sistemas das casas de apostas.

Os casos mais recentes de tenistas punidos incluem o francês Jonathan Kanar (#427 do mundo em janeiro de 2019), que pegou quatro anos e seis meses e multa de US$ 2 mil por manipular resultados e não relatar fraudes; a tenista Ksenia Palkina, do Quirguistão, que está suspensa provisoriamente durante uma investigação; e a uzbeque Albina Khabibulina, que também pegou suspensão provisória em novembro do ano passado.

Entre os brasileiros, Feijão não foi o primeiro a ser condenado. O ex-tenista Diego Matos, que na época era #373 em duplas, foi banido pelo resto da vida em setembro de 2019. Ele foi considerado culpado de manipular o resultado de dez partidas disputadas em 2018 em torneio no Brasil, no Sri Lanka, no Equador, em Portugal e na Espanha.

Casas de apostas: parceiros ou inimigos?

O relatório independente encomendado de 2018 considera que o crescimento do mercado de apostas online é um dos grandes vilões do tênis. Segundo o estudo, quanto mais jogos foram disponibilizados para apostadores, mais fértil é o terreno para quem está disposto a trapacear.

Ao mesmo tempo, muitas casas online assinaram memorandos de entendimento (MoUs, na sigla em inglês) com a TIU e atuam em parceria com órgão, gerando alertas e avisando sobre padrões incomuns de apostas. Sem esses comunicados, o órgão anticorrupção tem uma tarefa muito mais difícil.

De 2019 a 2017, a TIU recebeu 1.391 alertas relacionados a partidas suspeitas. Desse total, 1.046 (75%) foram alertas ligados a padrões de apostas. Logo, nota-se a importância das casas online no trabalho do órgão anticorrupção do tênis

O que as autoridades vêm fazendo para combater a corrupção

A medida mais importante tomada recentemente em parceria pela TIU e a ITF é a exclusão do placar em tempo real, o chamado "live score", nos torneios com premiação de US$ 15 mil. A decisão vai afetar mais de mil torneios disputados em mais de 500 clubes, em 80 países.

A sugestão foi dada no relatório independente de 2018. O estudo, formulado após entrevistas com jogadores, representantes de federações, organizadores de torneios, árbitros, funcionários da TIU, casas de apostas, agências reguladoras de apostas e empresas que coletam e vendem dados a casas de apostas (Sportradar, IMG e Perform), considera que hoje em dia há apostas em "partidas disputadas em níveis que não podem ser descritas como profissionais, e nas quais o risco de quebra de integridade por jogadores, oficiais e outros é maior."

A lógica é a seguinte: menos live score significa menos oportunidades para quebra de integridade e manipulação de resultado. E os torneios que distribuem US$ 15 mil em prêmios são "o nível em que os jogadores estão entre os mais tentados a quebrar a integridade devido aos desafios da estrutura de incentivo ao jogador." Em outras palavras, é onde existe o maior desequilíbrio financeiro entre ganhos dentro de quadra e a quantidade de dinheiro oferecida por apostadores interessados em fraudar o esporte.

O anúncio da medida, porém, não informou quando o live score vai terminar oficialmente. A ITF publicou apenas que menos partidas estarão disponíveis para os mercados de apostas em 2020 e 2021. Até lá, segue o jogo - em todos os significados possíveis.

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