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Caroline Wozniacki, a rainha do básico

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

24/01/2020 14h40

"Eu tenho uma nova teoria sobre nossa vida no tênis. É simples, de verdade. Você rebate a bola por cima da rede com o máximo de força e profundidade e com a maior frequência possível."

A frase acima, pronunciada por Nikolaj Coster-Waldau no filme Wimbledon - O Jogo do Amor, muito antes de o ator sonhar em dar vida a Jamie Lannister, é um resumo exageradamente simples do que é necessário fazer para ganhar uma partida de tênis. Obviamente, o esporte é mais complexo do que isso. Antes de cada batida na bola, o jogador precisa resolver na cabeça uma equação que inclui distância, velocidade, altura, efeito, potência, deslocamento, atrito, temperatura e um punhado de outras variáveis.

É um processo se torna instintivo com o passar do tempo, mas o resultado precisa ser o que Dieter Prohl resume para Peter-Peter Colt antes da final de Wimbledon. No fim das contas, quase sempre o vencedor é quem passa a bola para o outro lado da rede mais vezes. E, mesmo vivendo no tempo de uma geração SportsCenter que venera enterradas e ignora roubadas, adora touchdowns e despreza fumbles forçados, há a necessidade de, em algum momento, parar e reconhecer os reis do "fundamental".

Caroline Wozniacki, que colocou um ponto final em sua carreira nesta sexta-feira, foi um desses atletas. Nos últimos dez anos, ninguém fez o básico melhor do que Caroline Wozniacki. E foi assim, passando bolas para o outro lado com mais frequência do que as rivais, que a dinamarquesa passou 71 semanas como número 1 do mundo (mais do que Venus, Sharapova, Clijsters e Capriati somadas), conquistou 30 títulos e levantou um troféu durante 11 temporadas seguidas. Feitos para poucos.

Wozniacki, é bom lembrar, fez tudo isso sem um golpe dominante. Nunca teve o melhor saque do circuito, faltava peso a seu forehand e seus voleios nunca foram espetaculares. O que faltava em potencial técnico, contudo, a moça compensou em inteligência tenística. Wozniacki nunca foi aquela tenista que, empurrada para a lateral da quadra, tentava uma paralela suicida para terminar o ponto. Jamais. Carol chegava na bola, colocava spin, fazia a amarelinha passar com margem de segurança sobre a rede e desafiava a adversária a matar o ponto com um golpe ainda mais arriscado.

Wozniacki nunca desafiou as porcentagens. De qualquer lugar da quadra, ela sabia o que fazer para devolver a bola e, mesmo sem gerar tanta potência, colocar a oponente em uma posição de onde não seria tão simples atacar. Bola atrás de bola, equação após equação, Carol minava física, técnica e mentalmente as rivais. Simples? Longe disso. Ela "apenas" foi a melhor do mundo em nadar contra a maré do tênis-força e mostrar para a sociedade dos highlights que o basicão podia levá-la ao trono de ferro da WTA.

Ninguém vai esquecer as imagens de Boris Becker saltando para volear ou Gael Monfils decolando para seus smashes ou até mesmo os tweeners vencedores de Nick Kyrgios. No tênis, assim como na vida, sempre haverá lugar para jogadas de efeito, vencedoras ou não. Mas que se reconheça a importância dos fundamentos. No raro ofício de fincar alicerces, precisamos cada vez mais de Wozniackis - no tênis, assim como na vida.

Coisas que eu acho que acho:

- O jeito Wozniacki de jogar nunca foi muito vistoso e tinha como principal pecado capital a passividade. Não era raro vê-la terminar partidas com menos de cinco winners (e vencer assim mesmo). Se sua carreira chega ao fim com apenas um título de slam, a falta de agressividade é a culpada. Uma falha que a dinamarquesa consertou com muito trabalho (outro exemplo a ser seguido!) para finalmente conquistar o Australian Open de 2018.

- Elogiar os fundamentos de Wozniacki e seu tênis inteligente não é dizer que a dinamarquesa foi a atleta perfeita. Longe disso. Nunca esteve entre as minhas preferidas. Por muitas vezes, usou de catimba para ajudar a vencer jogos. Discutiu com árbitros sabendo estar sem razão e pediu tempos médicos sem necessidade. Sempre com o placar contra. Definitivamente, não foram momentos brilhantes.

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