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Australian Open correu risco para não atrasar programação

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

14/01/2020 14h53

A cena protagonizada pela eslovena Dalila Jakupovic é triste. Dura de engolir. Uma tenista de 28 anos perto de derrotar uma favorita e avançar na busca por uma vaga na chave principal de um slam. Com o placar em 6/4 e 5/6, ela começa a tossir até o ponto em que não aguenta mais e se agacha no fundo de quadra. A condição era esportivamente irreversível, e Jakupovic deu adeus à chance, sem condições de continuar competindo.

A eslovena foi a única que abandonou um jogo, mas muitos outros sofreram com a qualidade do ar de Melbourne no primeiro dia do qualifying do Australian Open. Uma situação que poderia ter sido evitada porque desde o amanhecer cidade se encontrava sob uma névoa que não tinha nada de neblina - é fumaça causada pelos incêndios florestais na Austrália. Os relatos eram muitos, e todos os veículos da cidade noticiavam os números que davam a dimensão da péssima qualidade do ar.

A organização do torneio até suspendeu os treinos e fechou os tetos retráteis das três quadras cobertas. Divulgou um comunicado declarando que as condições estavam melhorando e que as decisões futuras seriam tomadas após consulta sua equipe médica, com o Bureau de Meteorologia e cientistas da Autoridade de Proteção Ambiental do estado de Victoria.

Na hora de decisão mais difícil, porém, o Australian Open preferiu manter a programação. Não quis atrasar os jogos e correr o risco de ser forçado a iniciar a chave principal depois do previsto - o que afetaria contratos com canais de TV do mundo inteiro. A direção mandou todo mundo para quadra, mesmo com o índice de qualidade do ar acima de 200, o que indica ameaça à saúde dos habitantes - e que deveria ser o bastante para evitar que atletas precisassem competir em um evento tão importante.

A canadense Eugenie Bouchard, que jogou e venceu no quali, precisou de um atendimento médico de dez minutos. Maria Sharapova e Laura Siegemund, que faziam uma partida de exibição no Kooyong Classic, também em Melbourne, interromperam o duelo no segundo set.

Do fora, integrantes da elite, já classificados para a chave principal, usaram o tweet para criticar. Elina Svitolina indagou: "Por que precisamos que algo aconteça para que se faça algo?" Gilles Simon atacou com ironia: "Quando temos médicos dizendo que jogar sob 45 graus (Celsius) não é perigoso no Australian Open e árbitros dizendo que grama molhada não é escorregadia em Wimbledon, devemos conseguir encontrar um um especialista que pode garantir que a qualidade do ar é suficiente, não?"

Após o fim do quali, a organização do Australian Open não se manifestou mais. O mundo do tênis segue aguardando uma satisfação e, obviamente, uma política mais transparente caso a qualidade do ar siga assim. Será que a postura será a mesma na semana que vem, com a elite toda na chave principal? Será?

Coisas que eu acho que acho:

- É fácil dizer que os tenistas poderiam ter se reunidos e não entrar em quadra nessas condições. Seria um cenário provável se os protagonistas fossem Nadal, Federer, Serena, Sharapova, etc. Atletas que disputam o quali não têm nome nem força nos bastidores. Tampouco são unidos, já que passam a maior parte do ano em torneios diferentes. Além disso, todo mundo ali precisa do prêmio em dinheiro, e uma vaga na chave principal pode mudar a temporada de alguém. É muito diferente da elite.

- Quem poderia ter tomado a dianteira na situação (representantes de ATP e WTA) não o fez. O show continuou e acabou do jeito que acabou. Triste.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.