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Rodrigo Coutinho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Entenda como Dorival fez o Flamengo defender melhor

Colunista do UOL

09/08/2022 04h00

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O Flamengo é um time que costuma chamar a atenção ofensivamente. Possui o elenco mais farto de opções neste sentido do futebol brasileiro, e tem na sua história um DNA voltado a dominar os adversários desta forma. Algo que o excelente trabalho de Dorival Junior fez, além da melhora na criação das jogadas, foi aumentar o nível de segurança da equipe. Alguns pontos explicam o fenômeno.

Com Paulo Sousa, o Flamengo tinha um time vulnerável defensivamente. Seja pelo comportamento letárgico dos jogadores ou por problemas táticos de posicionamento e modelo, sofria até diante de adversários muito inferiores tecnicamente. Levou dois gols do Resende. Foi vazado pelo Altos, na Copa do Brasil. Sofreu diante de Madureira, Audax Rio e Portuguesa no Estadual.

Dorival detectou o problema assim que chegou. Derrapou em algumas escolhas nos primeiros jogos, mas com a sequência, a equipe passou a entender a postura ideal para deixar de sofrer tantos gols.

O primeiro ponto é comportamental. Em diversos períodos, depois de 2019, o Rubro-Negro apresentou pouca competitividade defensiva. Ação individual abaixo dos padrões aceitáveis de intensidade para marcar. Isso pode acontecer por vários fatores. Desde desgaste físico, passando por desorganização tática, que leva à debilidade mental, ou até a relaxamentos e desconcentrações.

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A comparação defensiva do Flamengo antes e depois de Dorival
Imagem: Fonte: Opta

A atitude dos atletas em campo hoje é diferente. O recorte ainda é curto. São dois meses de trabalho e 17 jogos. Algo consistente se faz por um período maior, mas em comparação à postura anterior houve grande melhora. A partir da resposta anímica se cria a condição de evolução tática e técnica.

Com isso, Dorival entendeu que não adianta querer um time ''mordedor'' o tempo inteiro. Não é a característica dos jogadores do Flamengo. Quando há a ''marcação alta'', no campo de ataque, é mais fácil despertar esse comportamento. Mas quando o bloco recua, é natural a queda na ''pegada'' de quem não traz isso em suas valências. A solução encontrada foi proteger os espaços centrais e bloquear a área.

O Rubro-Negro marca por zona na maior parte dos jogos. Cada jogador protege o seu espaço, o homem mais próximo da bola tem a incumbência de pressionar o adversário, e os demais atletas flutuam nesta direção, vigiando as coberturas, mantendo a compactação do time. Fazer isso com o foco voltado a preencher o setor onde costuma sair os gols faz a diferença.

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Vejam como a última linha protege a área e tem seus integrantes bem próximos
Imagem: Rodrigo Coutinho
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Última linha bem proxima, preenchendo a área, e a trinca defendendo o ''funil'', o espaço entre a meia-lua e a marca do pênalti, local de onde saem as finalização na maior parte das vezes
Imagem: Rodrigo Coutinho

Grandes espaços entre os integrantes da última linha defensiva eram rotina. Por ali entravam bolas em profundidade e adversários infiltravam. Hoje o quarteto à frente de Santos atua junto, facilitando o bloqueio de passes, cruzamentos, finalizações, e a cobertura caso algum companheiro seja batido. Todos os defensores do Flamengo cresceram individualmente. Não obra do acaso.

Importante citar também a flutuação feita por Thiago Maia, João Gomes e Everton Ribeiro na frente da última linha de defesa. É fundamental que ''andem juntos'', seja ao pressionar a bola, ou para compensar as coberturas de um dos meio-campistas. Como a contribuição de Arrascaeta, Gabigol e Pedro no terço defensivo é basicamente nula, eles não podem se distanciar tanto entre si.

Não há nenhuma chance de uma equipe tornar-se vencedora no futebol atual sem conscientização sem a bola por parte dos atletas e organização defensiva. Mesmo que a natureza seja ofensiva e o talento imenso. O Flamengo parece ter entendido isso outra vez, e se coloca como candidato novamente a qualquer título nesta temporada.