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Rodrigo Coutinho

REPORTAGEM

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Conheça o técnico que não perdeu nas quatro divisões nacionais em 2021

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Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

26/09/2021 04h00

É do norte de Santa Catarina o único clube invicto nas quatro divisões do Brasileirão em 2021. Integrante da Série A pela última vez em 2015, o Joinville tem dado importantes passos em seu processo de reconstrução. Não perdeu nos 16 jogos que disputou na Série D e está nas oitavas de final da competição, a quatro partidas do acesso. O comandante da equipe é o jovem campineiro Leandro Zago, que após passagens de sucesso pelas divisões de base de Atlético Mineiro, Ponte Preta, Corinthians e Palmeiras, tem se saído bem em seu primeiro trabalho no futebol profissional.

Aos 40 anos, ele dedicou uma década e meia à formação de jogadores, venceu uma Taça BH Sub-17, um dos maiores torneios da categoria, e dois Campeonatos Mineiros. Foi contratado a partir de uma observação do diretor de futebol do JEC, Leonardo Roesler, e teve quatro semanas de intertemporada antes do início da Série D. Pôde implementar sua proposta. Grande parte dela é baseada no desenvolvimento individual dos atletas, como ele conta nessa entrevista.

''Me preocupo muito com a comunicação, neurolinguística, oratória. É preciso ser bem assertivo. Saber o tom de voz certo e linguagem corporal na hora de falar. Nunca ser prolixo. Tentar ser efetivo no discurso com os jogadores'', afirma Leandro. Confira a entrevista completa abaixo:

O Joinville é o único time invicto nas quatro divisões nacionais do Brasil. O que explica isso e como vem desenvolvendo o trabalho?

01 - Pedro Souza/Atlético-MG - Pedro Souza/Atlético-MG
Leandro Zago dirigiu o Atlético-MG como interino em três jogos, com uma vitória, um empate e uma derrota
Imagem: Pedro Souza/Atlético-MG

LZ: O clube teve uma ascensão rápida, chegou na Série A, e depois caiu de divisões muito rapidamente também. Nos últimos dois anos não passou da 1ª fase na Série D, então senti a torcida e a imprensa carentes e desconfiados quando cheguei. A ideia sempre foi ter uma equipe sólida, cascuda, competitiva, e intensa para resgatar a mentalidade vencedora. O Joinville tem 45 anos, mas já tem 12 títulos estaduais e dois nacionais. Há clubes centenários que não possuem essas conquistas. Então desde o início houve uma integração muito boa entre a minha comissão e a comissão ''da casa'' no sentido de não perdermos. Era importante começar assim para reconquistar a confiança de todos. Vender muito caro qualquer placar adverso. Conseguimos implementar junto aos jogadores. Passa por um perfil de treinos e cobranças. Não pude montar o elenco, fiz alguns ajustes em cima da base do Estadual. Faltam quatro jogos para o nosso grande objetivo.

E a estrutura do clube para trabalhar? Você passou por divisões de base de equipes grandes. Qual é a principal diferença?

LZ: Quando vim para a entrevista, procurei saber disso. Temos uma estrutura bem enxuta e funcional. Temos dois campos de treino e um CT com refeitório, academia, alojamento para os jogadores jovens do elenco, sala de vídeo e salas de reunião. Pensando em Série D, certamente é uma das melhores estruturas. O clube sabe que precisa dar um salto pensando em coisas maiores, mas antes é necessário melhorar a receita. Precisamos ter pelo menos mais um campo, de preferência sintético, para que não tenhamos problemas com a questão climática da cidade. Temos muito cuidado com isso. Mandamos os jogos na Arena Joinville, que tem um bom campo, então não podemos ter gramados ruins no centro de treinamento.

Qual é a principal diferença entre base e profissional na gestão de vestiário?

LZ: Tenho mais facilidade em trabalhar com atletas mais velhos. Foi acontecendo comigo de forma natural. Na base eu tive um desafio recente em que percebi isso. Saí do Sub-20 da Ponte Preta para o Sub-17 do Atlético Mineiro. Muito em função do tamanho do clube e a oportunidade, mas já vi que estava voltado para jogadores mais velhos. Meu nível de cobrança é alto, gosto de falar bem objetivamente, não tenho mais tanta paciência para buscar entender comportamentos de imaturidade naturais em meninos mais jovens. Não sou de ter conversas longas em preleções. Sou dinâmico e direto. Então isso me ajudou nos profissionais. Trabalho estabelecendo metas. Antes do início da competição eu as mostro aos jogadores e falo quais são os comportamentos necessários para alcançar aquilo. Crio logo os ''acordos'' e não fico negociando depois. Se cumprir o acordo, continua tendo espaço. Deixou de cumprir, vai perder espaço. Estamos em um ambiente profissional. Meu trabalho é voltado do indivíduo para o coletivo, e não o contrário. Vou proporcionar ao jogador boas informações para que ele melhore tecnicamente, taticamente, fisicamente e emocionalmente. Subo o sarrafo! Quem não se prepara fica pra trás. Dedico dez horas do meu dia aos jogadores. Em troca eu quero o melhor deles

Como busca montar suas equipes, é possível definir qual é o seu modelo de jogo?

LZ: Acredito que algumas coisas são vantagens permanentes dentro do jogo. E aí preciso fazer ajustes estratégicos para essas vantagens acontecerem. Para o jogador é necessário manipular bem a bola e dominar o tempo e o espaço. Se ele fizer sempre, vai controlar o adversário. Invisto muito no desenvolvimento técnico do jogador. Ambidestria, orientação corporal, jogo aéreo, jogo por baixo, percepção de espaço. O primeiro passo é ensinar o jogador a captar a informação do ambiente em campo. Então é necessário estar sempre com o corpo bem orientado para a jogada e fazendo o movimento com o pescoço para não ser surpreendido pelo adversário. A partir daí ele tomará boas decisões. A decisão em campo é dele. Não consigo te falar de que forma é especificamente o meu modelo de jogo. Na parte coletiva eu tento resolver os problemas que o adversário vai nos impondo de maneiras diferentes. A equipe ideal tem que saber resolver as questões que surgem. Pode ser marcar mais dentro do próprio campo ou no campo adversário. Pode ser definir rápido as jogadas ou trocar passes de forma mais longa. Tem gramados em que ficar com a bola mais tempo não vai me gerar vantagem em função da qualidade dele por exemplo. Quero enriquecer o repertório de jogo dos meus atletas para enfrentar diferentes situações.

Você é bem ativo nas redes sociais, principalmente no Twitter, acha que isso faz falta no meio do futebol? Ter profissionais que troquem mais ideias neste universo. Ou acha que isso pode atrapalhar de alguma forma?

LZ: Até hoje pesou muito mais a favor do que contra. Quando estou no meio de um trabalho eu evito me manifestar. Quando estou de férias ou fora de competição eu faço mais. Foi um caminho de entrada no futebol. Não fui jogador. Entrei em 1999 na graduação em educação física e em 2007 criei um blog para escrever. A partir disso fui convidado pela Universidade do Futebol para levar meus textos pra lá. O meu primeiro trabalho de fato com o futebol foi através do meu blog. Fui convidado para fazer uma apresentação no Desportivo Brasil, em Porto Feliz, e aí comecei a trabalhar. Sou filho de uma professora e fui professor de pós-graduação em futebol pela Estácio de Sá quando ainda era Gama Filho. Dei aula em cursos pelo Brasil. Isso faz parte da minha formação. Sempre escrevo para propor uma reflexão. Não busco colocar a minha opinião como algo certo. Tento explicar o motivo das coisas acontecerem. Gera interações e muita gente entra em contato comigo. Isso aproxima o profissional das pessoas. Poucas vezes se ouve o treinador de forma aprofundada, e muitas vezes se vai por um caminho muito distante da observação correta. Minha ideia é propor uma reflexão a partir de alguém que vive o futebol na prática.