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Rodrigo Coutinho

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que Vojvoda trouxe ao Fortaleza

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

10/06/2021 04h00

As convincentes vitórias nas duas primeiras rodadas do Brasileirão chamaram a atenção para o Fortaleza dirigido por Juan Pablo Vojvoda. O argentino de 46 anos assumiu a equipe há menos de um mês, após a saída de Enderson Moreira, e basicamente com o mesmo elenco vem tirando dos atletas do Leão do Pici um desempenho bem melhor. Não é exagero pensar numa repetição de 2019, quando o clube acabou em 9º em uma campanha sem grandes sustos.

Obviamente que pelo investimento que é possível o Fortaleza fazer neste momento e consequentemente o nível do elenco, é difícil imaginar que o Tricolor vá manter a condição de líder até as últimas rodadas. O próprio Vojvoda já demonstrou, entre outras palavras, que a briga do clube é pela permanência de uma forma mais tranquila, e se possível beliscar uma vaga em competições sul-americanas.

Há também a possibilidade de uma oscilação natural nos próximos meses. O que se tem certeza, porém, é a estruturação sólida de um início bastante promissor. E o melhor! O time joga um futebol de coragem. Marca forte no campo de ataque a maior parte do tempo. E quando tem a bola apresenta apetite e organização para iludir os adversários. A média superior a três gols por jogo não é por acaso.

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Alguns números do Fortaleza com Vojvoda
Imagem: Rodrigo Coutinho

Linha de três ou de quatro na defesa?

Inicialmente Vojvoda não fez alterações profundas na maneira que o time vinha atuando. Primeiro entendeu o cenário que tinha nas mãos e aos poucos foi implementando sua proposta. A começar pelo esquema tático. Fixou três defensores na primeira linha, mas sempre utiliza um ou até dois laterais fazendo a função de zagueiro. Tinga vem jogando muito bem assim. Forma a zaga titular com Marcelo Benevenuto e Titi, mas Bruno Melo também já foi utilizado neste setor.

A ideia é nitidamente ter mais velocidade e qualidade no passe inicial. É importante para começar bem os ataques, seja com passes longos ou curtos, e auxiliar nas transições defensivas ou conduções de bola para abrir espaços a outro jogador. A presença de um lateral como zagueiro também gera a possibilidade de uma variação tática ao longo do jogo, o que inclusive já aconteceu.

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O time-base do Fortaleza com Vojvoda
Imagem: Rodrigo Coutinho

O ''goleiro-linha''

Desde o trabalho de Fernando Diniz no Audax, sabe-se da qualidade de Felipe Alves com a bola nos pés. Utilizado constantemente nas saídas com Rogério Ceni em 2019 e 2020, o camisa do Leão segue sendo fundamental neste momento. Como a proposta de Vojvoda é ter a bola e qualificar a construção já no primeiro momento, Felipe acrescenta com seus ótimos passes curtos, médios e longos.

É normal vermos entre dois dos três zagueiros para fazer uma ''saída a três'' quando o adversário adianta a marcação. Neste caso Tinga já se projeta mais a frente pelo lado direito e Yago Pikachu centraliza para ser uma linha de passe pelo meio.

O ''artilheiro'' Pikachu e o ''ala'' Crispim

Assim que apareceu no futebol nacional com a camisa do Paysandu, Yago Pikachu já demonstrava seu faro de gol, mesmo como lateral. Passou pelo Vasco e manteve a boa média de gols. Até aqui é o líder entre os goleadores do Brasileirão. Começou o campeonato no banco de reservas, mas ganhou espaço com a imprevisibilidade que gera e por encaixar perfeitamente naquilo que o argentino solicita.

Assim como acontece no lado esquerdo, que tem Lucas Crispim, um meia de origem, como ala na maioria dos jogos, o atleta desta função não fica preso, atacando o tempo inteiro pelo flanco do campo. Pikachu e Crispim flutuam dos lados para o centro constantemente. O primeiro inverte com um dos atacantes, geralmente Robson, e o segundo com um dos meias, geralmente Matheus Jussa.

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Lucas Crispim, destacado em amarelo, flutua da esquerda pro meio e Matheus Jussa, em vermelho, sai do meio para a esquerda
Imagem: Rodrigo Coutinho

Por ser um articulador, Crispim atua numa zona de construção das jogadas. Já Pikachu ''agride'' a última linha de defesa rival por dentro, como fez por exemplo no golaço que marcou contra o Internacional. Esses movimentos geram surpresa aos adversários e mantêm a ocupação de espaços equilibrada para atacar. Se Jussa abre ao Crispim centralizar, ainda haverá uma opção de passe mais aberta na esquerda. O mesmo fato se aplica ao lado direito.

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Na direita essa troca geralmente é feita por Robson e Pikachu
Imagem: Rodrigo Coutinho

Encaixa e persegue

Nos últimos anos houve um movimento de ''demonização'' da marcação por encaixes no futebol brasileiro. Este jeito de marcar consiste em cada jogador ''encaixar'' em um adversário que entrou no seu setor de origem e perseguí-lo por uma faixa de campo. No caso do Fortaleza, até este adversário entrar no setor de um companheiro, momento em que há a troca de alvo.

Se não estiver bem coordenado, há espaços surgindo e buracos na linha defensiva, mas o modelo em si não está errado. Há muitos times que marcam por zona, protegem o espaço em detrimento a perseguir adversários, mas marcam mal, dão espaço e não pressionam quem tem a bola. Ou são espaçados entre os setores, apresentam a última linha descoordenada. Definitivamente isso não tem ocorrido no Leão. Não é uma questão de forma de marcar, mas sim como se executa a proposta

Intensidade alta

A palavra da moda no futebol também é repetida insistentemente por Vojvoda em treinos e jogos. Os próprios jogadores a citam em entrevistas e apontado que este foi o principal ganho da equipe no último mês. Fazendo com que os atletas acreditem na proposta e estimulando tal comportamento através de métodos e exercícios de treinamento, o argentino tem tirado isso do Fortaleza.

Praticar o modelo de jogo desta forma é de suma importância para manter a marcação adiantada ajustada e os encaixes fortes, incômodos para os atletas adversários, além de proporcionar uma circulação de bola rápida e movimentos mais agressivos no momento ofensivo e nas transições. Não há time competitivo hoje sem essa característica.

Afirmação fora da Argentina

Se não tem um trabalho tão contundente em seu país na até aqui curta carreira, Juan Pablo Vojvoda parece começar a fazer no Brasil algo que o colocou nos holofotes continentais. Em 2020 foi vice-campeão chileno com o emergente Union La Calera, que jamais havia conquistado tal façanha. Repetir com o Fortaleza é improvável, mas o torcedor do Leão pode sonhar muito mais alto do que havia pensado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL