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Rodrigo Coutinho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não podemos nos orgulhar da maior mentira do Brasileirão

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

12/05/2021 04h00

Nos últimos anos, há o costume de repetirmos constantemente que o Campeonato Brasileiro é o ''mais difícil'' do mundo. Há quem bata no peito e exalte isso, mas antes de compreender o efeito, é necessário que abordemos a causa. Será que essa dificuldade se dá exatamente pelo nível do futebol jogado ou pela quantidade de fatores externos que influenciam no desempenho das equipes e torna quase tudo mediano?

O Brasileirão poderia ser muito melhor do que de fato é, gerando mais receita e interesse do público, além de um espetáculo agradável dentro de campo. O problema é que quem organiza o campeonato é a CBF, que tem total interesse em manter a estrutura de poder atual. Essa mecânica consiste em clubes reféns de federações e da própria Confederação.

A equação é muito simples. Na eleição que define o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, os presidentes das 27 federações têm peso 3 em seus votos. Ou seja, se todos votarem em um único candidato, a somatória chega a 81 votos, algo que ocorreu na eleição de Rogério Caboclo em 2018. Os clubes da Série A têm peso 2, e os da Série B peso 1.

Numa hipotética situação de um candidato apoiado por todos os clubes enfrentar um outro apoiado pelas federações, este primeiro nunca venceria a eleição. Somaria no máximo 60 votos, contra 81 da outra opção. A explicação deixa nítido que o caminho para que o Brasileirão e, consequentemente o calendário do futebol nacional, sejam mais bem tratados, passa pela ruptura total com esse modelo.

Ela poderia partir da iniciativa dos clubes, mas, em grande parte, seus dirigentes são subservientes aos presidentes de federações e da própria CBF, como lamentavelmente assistimos na reunião em vídeo vazada há cerca de um mês. A criação de uma liga profissional com um gestor independente passa justamente por isso. Não há maturidade, noção de mercado e capacidade administrativa a nove entre dez dirigentes brasileiros.

Aos presidentes de federações é muito interessante que a atual estrutura seja mantida. Com muitas datas destinadas aos falidos Estaduais, é necessário justificar os R$ 950 mil fixos depositados pela CBF a cada uma delas. Isso sem contar a receita variável para organização de campeonatos locais. Em alguns casos, essa ajuda ultrapassa os R$ 2 milhões. Uma mina de ouro, que mesmo com a publicação dos balanços nos sites oficiais, não deixa muito claro a quem beneficia em cada uma das entidades.

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Rogério Caboclo, presidente da CBF
Imagem: Reprodução

Enquanto isso, muitos clubes fecham o ano no vermelho. Fruto de sua própria incompetência, mas, também, da ausência de uma organização maior em todos os aspectos estruturais. Do calendário ao registro de jogadores. Das regras gerais das competições, passando pelo ''fair play financeiro'' e chegando na total ausência de preocupação com o ''produto'' que é vendido em campo.

No próximo dia 29 de maio começa a Série A do Campeonato Brasileiro. Pelo menos dois meses depois do que de fato deveria começar. A principal competição do país espremida, como em outros anos, num intervalo de tempo que obriga as equipes a jogarem em meio a ''Datas-Fifa'', perdendo jogadores importantes, acumulando lesões por desgaste, e não dando o período necessário de descanso para quem faz a coisa acontecer nos gramados.

O resultado será o mesmo dos anos anteriores. Nível abaixo na média da maioria dos jogos. Não somente ou necessariamente por limitação técnica de jogadores e treinadores, mas porque a entidade que organiza o Brasileirão não permite o crescimento dele.

De que adianta o Flamengo manter a base do grande time que tem? O Palmeiras ser ainda mais competitivo e se aperfeiçoar com Abel Ferreira? O Galo montar o elenco mais completo do país? O Grêmio trazer Rafinha e tentar melhorar? O Inter se preparar com uma nova ideia de jogo? O São Paulo se desenvolver com Crespo? O Fluminense manter-se no pelotão de cima? O Ceará mudar de patamar e o Red Bull Bragantino seguir incomodando os grandes?

Tudo isso, além da preparação das demais equipes, seria lindo caso tivéssemos um calendário mais bem elaborado e preocupado em fazer o futebol evoluir. Vender peças publicitárias, direitos de TV e trabalhar o marketing em paralelo, mas possibilitando uma marca mais forte. O Brasileirão é um gigante em potencial, mas profundamente afetado por quem deveria fomentar o seu crescimento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL