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Rodrigo Coutinho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sport sofre com o dilema da carreira de Jair Ventura

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Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

26/03/2021 04h00

O ano era 2016 e o Botafogo amargava a 17ª colocação do Brasileirão. Na 20ª rodada, Jair Ventura recebeu oportunidade como técnico interino, teve sequência positiva, levou o time para a Libertadores e se lançou no mercado de treinadores brasileiros. De lá pra cá, porém, uma característica de suas equipes chama a atenção, e o Sport é a mais nova ''vítima''.

Aquele time do Botafogo era organizado defensivamente e jogava em contra-ataques ou ligações diretas. Jair conseguiu convencer os atletas que desta forma, a base de muita transpiração ao longo dos jogos, iriam diminuir a distância técnica e tática existentes naquele momento da competição em comparação aos demais times. E conseguiram! Mas e quando foi preciso mostrar mais do que isso?

A palavra ''repertório'' ganhou mais ênfase na crítica esportiva nos últimos anos. Por mais que tenha sua interpretação deturpada muitas vezes, é salutar debatermos, quando há capacidade de análise, o que cada treinador tem a oferecer no trabalho que desempenha. Repertório, neste caso, nada mais é que as soluções encontradas em diferentes cenários e momentos para que determinada equipe se imponha em campo, e consequentemente consiga resultados.

img - Fernando Moreno/AGIF - Fernando Moreno/AGIF
Jair Ventura dirigindo o Sport no último Brasileirão
Imagem: Fernando Moreno/AGIF

Pois é, e isso tem faltado aos times treinados por Ventura quando alcançam determinados estágios. No caso do Botafogo, o prazo de validade foi um pouco mais extenso. Até pelo histórico que possui no clube, Jair ficou um ano e quatro meses no comando do Glorioso. Teve méritos no período, alcançou as quartas de finais da Libertadores com o clube, foi semifinalista da Copa do Brasil e 5º colocado no Brasileirão de 2016.

Em 17, acabou em 10º na competição nacional, e passou a ser cobrado pela falta de ideias quando era preciso ter mais a bola e gerar espaços nas defesas adversárias. Aparecia ali pela primeira vez o problema. Foi contratado pelo Santos para a temporada 2018. No Peixe, apesar da liderança do Grupo 6 daquela edição da Libertadores, não conseguiu agradar. Seu estilo era uma tremenda contracultura àquilo que costumar pregar o jogo do clube, e saiu após a 14ª rodada do Brasileirão, deixando o time na 13ª colocação.

Dois meses depois, assumiu o Corinthians para dar continuidade a um modelo consagrado, um pouco mais próximo daquilo que ofereceu nos melhores momentos de Botafogo. Mas apesar do vice da Copa do Brasil para o Cruzeiro, novamente a 13ª posição no Brasileirão e o futebol abaixo da crítica da equipe - com ainda menos padrão ofensivo do que vinha ocorrendo - pesaram para a sua saída em dezembro de 2018.

Um ano e oito meses depois, o Sport o recolocou no mercado buscando o mesmo que o Botafogo de 2016 fez. E estava certo! Pensando na realidade do Leão atualmente na Série A, com menos poder aquisitivo que a grande maioria dos times e naturalmente um elenco modesto, era inteligente se proteger para sofrer menos gols, perder menos jogos, e tentar a permanência. Conseguiu! Mesmo passando sufoco no fim, o Rubro-Negro fez o Brasileirão que parecia ser possível.

A probabilidade da próxima Série A ser idêntica para o Sport é grande. O clube segue sem poder de investimento, e pensar prioritariamente em se defender é a melhor solução diante de adversários melhores. O problema é que no meio do caminho tem o Estadual, a Copa do Nordeste e as primeiras fases da Copa do Brasil. Esta última, aliás, já era. O Leão foi eliminado pelo baiano Juazeirense, na 1ª fase, há duas semanas.

A questão é que neste momento da temporada o Rubro-Negro não é o ''patinho feio'' que é no Brasileirão. Enfrenta muitas vezes adversários inferiores em basicamente tudo, e quando é necessário tomar a iniciativa de atacar, falta o tal do repertório. O problema se repetiu não só diante do Juazeirense, mas contra Confiança, Bahia, 4 de Julho, Santa Cruz e Sampaio Corrêa.

Jair vem tendo problemas comuns a outros treinadores do futebol brasileiro neste início de ''temporada acumulada'' de 2020 para 2021. Jogadores importantes não estiveram à disposição, alguns saíram, outros chegaram, mas as soluções que outros técnicos encontraram não foram achadas pelo carioca de 42 anos. Nos seis jogos que dirigiu a equipe até aqui nesta jornada, acumula três derrotas e três empates, além de um desempenho péssimo.

arte - Rodrigo Coutinho - Rodrigo Coutinho
Jair Ventura como técnico do Sport
Imagem: Rodrigo Coutinho

Outro ponto chave é a não repetição do desempenho defensivo de muitos jogos da campanha do último Brasileirão, mesmo quando a postura reativa é adotada como estratégia. Talvez um sinal de desgaste mental dos atletas. Parecem desmotivados e sem a mesma energia empregada para pressionar a bola e fechar os espaços.

A diretoria do Sport tem um problemão para resolver e Jair Ventura precisa evoluir como técnico. É jovem e pode alcançar um outro nível, expandir sua capacidade e ele, o famoso repertório.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL