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Rodrigo Coutinho

As necessárias perguntas e respostas do Galo com Sampaoli

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

04/01/2021 04h00

São 49 anos sem conquistar um título nacional! Em busca de quebrar esse tabu o Atlético Mineiro literalmente não economizou na montagem do grupo e da comissão técnica. Mesmo tendo jogado o melhor futebol do Brasileirão durante boa parte dele e ser o atual vice-líder da competição, a sensação que fica é que o Galo não conseguiu engrenar de fato. O que é necessário ajustar?

Foram dez contratações para elevar o nível do plantel desde a chegada de Jorge Sampaoli em março de 2020. Sem contar as sete que já haviam sido feitas nos dois primeiros meses do ano. Ao todo 17 atletas de diferentes posições e características desembarcaram na Cidade do Galo. No banco de reservas um treinador que, como raras exceções, entrega um ótimo nível. Então o que tem faltado para ser mais contundente?

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Atlético gastou mais de 100 milhões a pedido de Sampaoli
Imagem: Rodrigo Coutinho

A bola tem que entrar na casinha

Uma parte da explicação precisa vir da incapacidade demonstrada muitas vezes pelo Atlético na conversão de domínio, volume ofensivo, e chances claras criadas, em gols marcados. O alvinegro tem o segundo melhor ataque do Brasileirão ao lado do Flamengo, com 46 gols, mas criou para fazer mais do que isso. São sete chances claras de gol em média por jogo. Lidera o ranking, novamente empatado com o rubro-negro.

Creio que não se trata só de incapacidade técnica dos atacantes, mas assim como no Santos em 2019, falta alguém com mais faro de gol. Eduardo Vargas foi contratado recentemente para auxiliar no aprimoramento das finalizações. Fez cinco jogos pelo clube e marcou um gol. Passa pelo período de adaptação e pode render mais em breve.

Eduardo Sasha ocupou a função de camisa 9 em diversos jogos. Entende o que Sampaoli quer e tem até uma média razoável. Sete gols em 25 jogos na temporada. Keno é o principal jogador do time. São 11 gols em 31 jogos, mas a finalização não é a sua maior virtude. Savarino tem bom desempenho nesse aspecto e Marrony até aqui decepciona.

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Ao lado do Flamengo o Atlético é o time que mais cria chances claras de gol, mas é apenas o oitavo em conversão dessas chances
Imagem: Fonte: Opta

Outro detalhe que pode ser considerado é a inviabilidade de utilizar Diego Tardelli. Com ruptura ligamentar no tornozelo desde julho, não atuou com Sampaoli. No único jogo em que esteve disponível comandado pelo argentino, ficou no banco, ainda no Campeonato Mineiro. Não se sabe como e se seria de fato muito utilizado.

Não foram poucas as vezes que o time produziu, teve supremacia, criou um volume considerável de chances, mas não marcou, e aí se desestabilizou. Passou a errar tomadas de decisão perto da área e consequentemente perder eficiência. Reflexo mental bem nítido.

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Falta ao elenco do Atlético um jogador com mais potencial de definição.
Imagem: Fonte: Opta

Visitante modesto

Outro ponto que pode ser explicado também pela parte anímica é a diferença dentro e fora de casa. Se é o líder do Brasileirão entre os mandantes, com apenas uma derrota e 33 dos 49 pontos conquistados dentro do Mineirão. Quando vai jogar em domínios rivais, o Galo vira um time comum. É apenas o oitavo colocado no ranking de pontos obtidos fora de casa. Atrás até mesmo do Atlético Goianiense, 12º colocado na classificação geral.

Falta se impor com e sem a bola como costuma fazer em Belo Horizonte. Esse padrão de comportamento pode ser mais bem trabalhado pelo treinador, mas também encampado de forma mais forte pelos atletas. Colocar em prática a conscientização de que não se vence um campeonato por pontos corridos indo mal fora de casa.

Irregularidade defensiva

Conseguir vencer um campeonato tendo a 11ª pior defesa entre 20 clubes é uma tarefa basicamente possível. O número geral é pouco minucioso, mas explica o desempenho defensivo do Galo no Brasileirão 2020. A intensidade vista com a bola não é repetida sem ela na maior parte do tempo.

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Imenso espaço entre a meia-lua e a marca do pênalti. Erro bobo, mas repetido constantemente
Imagem: Rodrigo Coutinho

Sampaoli tem dois conceitos bem nítidos sem a posse. O primeiro, em fase defensiva, é na maioria das vezes avançar o bloco de marcação para pressionar a saída de bola adversária. O segundo, em transições, é reagir rápido ao perder a posse. Pressionar com velocidade e envolver o maior número de atletas possível no setor da jogada. Quando dá certo é uma maravilha, mas isso não tão frequente assim.

E aí é que reside o principal problema atleticano. O time não consegue se reposicionar ou criar algum mecanismo para inibir o avanço rival quando este acontece. Espaçamento entre os setores, coberturas tardias, descoordenação da última linha de defesa, e espaço grande entre o último defensor e o goleiro acabam sendo mais frequentes do que o técnico argentino gostaria.

De uma certa forma esses problemas são recorrentes e já aparecerem em outros times treinados por Sampaoli. Um problema de execução de uma ideia que pode ser sufocante e eficiente quando bem feita, mas que compromete todo o restante como vimos em algumas partidas do time.

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Liberdade ao homem da bola e última linha exposta. Uma frequente no Galo
Imagem: Rodrigo Coutinho

Vale a pena ter Sampaoli?

A pergunta parece absurda se considerarmos a pobreza de ideias ofensivas que infelizmente ainda reina no Brasil. O argentino vai no sentido contrário. Seus times são organizados para atacar, intensos com a bola, ocupam os espaços com perfeição e se movimentam bem dentro de uma ideia mais posicional.

Todo o pacote, porém, precisa ser observado. Dar continuidade ao argentino requer saúde financeira para atender aos pedidos e os gastos elevados e, principalmente, jogo de cintura para lidar com o temperamento dele junto aos atletas e demais funcionários. Uma pergunta que o Atlético precisa se fazer e responder com convicção ao final da temporada.