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Rodrigo Coutinho

Precisamos falar de Guto e do Ceará

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

21/12/2020 12h36Atualizada em 21/12/2020 12h36

A frase ''pouca mídia e muito futebol'' ficou famosa entre os torcedores para se referir a jogadores que a imprensa não dá relevância, mas apresentam a resposta dentro de campo. O Brasileirão 2020 vem sendo o cenário para que um dos treinadores também ganhe esse ''status''. Já há algum tempo na Série A com trabalhos regulares, Guto Ferreira mostra novamente com o Ceará que merece mais atenção.

Chamado carinhosamente de ''Gordiola'' pela sua forma física, o técnico do Vozão é tratado muitas vezes até de forma folclórica. Sem muito estudo ou profundidade sobre o que costuma apresentar em suas equipes. Ele não é só um ''gordinho simpático''. Guto merece mais respeito e cuidado na análise. Atualmente oferece mais do que alguns técnicos badaladíssimos em território nacional.

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Guto Ferreira vem conquistando títulos e emplacando alguns bons trabalhos há cinco anos
Imagem: Rodrigo Coutinho

O Ceará apresenta características muito próximas daquilo que fez ao longo dos 18 anos em que é treinador profissional. É um time com propensão maior a jogar em contra-ataque. Possui um sistema defensivo organizado. Marcando por encaixes dentro do setor, sem perseguições longas, o que faz com que os atletas estejam sempre bem posicionados, e compactação entre defesa, meio e ataque. Ao retomar a bola, busca acelerar e resolver rápido as jogadas.

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Os números mostram bem a característica de jogo da equipe do Ceará. Fonte: Footstats
Imagem: Rodrigo Coutinho

O estilo reativo é seguido por muitos treinadores no futebol brasileiro, mas o que vem chamando a atenção também no Ceará é o desenvolvimento de ideias coletivas quando o time está em fase ofensiva. Mesmo possuindo Cleber no ataque, um centroavante de 1,95m, o Ceará não é refém da ligação direta para ele ganhar pelo alto. Faz essa jogada quando o adversário adianta a marcação, mas também tem evoluído para trocar passes curtos e se estabelecer no ataque.

Nesta proposta, Vina, um dos melhores jogadores do campeonato, é determinante. Ele tem total liberdade de movimentação, encosta nos dois lados para triangular, e flutua nas costas dos volantes adversários. Acrescenta qualidade na construção e no último passe do Ceará, além de entrar na área para finalizar. Mesmo não sendo tão rápido, ajuda nos contra-ataques com velocidade de raciocínio.

A escalação de Fernando Sobral como volante nos últimos jogos também tem qualificado a circulação de bola do alvinegro. Isso abriu espaço para Lima na linha de meias, mais um jogador de articulação e refino técnico.

Samuel Xavier e Bruno Pacheco também são importantes nesse contexto. Ajudam a rodar a bola e atacam buscando associação com os pontas, quase sempre bem abertos. São bastante ofensivos, mas atacam alternadamente na maioria das vezes.

Léo Chu, que pertence ao Grêmio, é o jogador mais rápido do time. Alvo constante nos contra-ataques pela esquerda e agudo quando a equipe precisa de mais mobilidade. Na zaga, Luiz Otávio segue sendo garantia de segurança ao proteger a área. Tiago e Fabinho são bons coadjuvantes.

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Como o time do Ceará vem jogando nas últimas rodadas
Imagem: Rodrigo Coutinho

Outro ponto relevante para citar na campanha que dá a nona colocação ao Ceará até aqui é o equilíbrio do elenco. Recentemente trouxe jogadores que elevaram o nível do plantel e minimizaram as diferenças técnicas entre titulares e reservas. Felipe Vizeu, Saulo Mineiro e Pedro Naressi são bons exemplos.

16º em 2019, 15º em 2018, o Ceará caminha a passos largos para um término de Brasileirão mais tranquilo que nos últimos anos. Deve jogar a Copa Sulamericana de 2021. Acreditar em algo maior para o clube neste ano parece improvável, mas dentro da realidade do Vozão, Guto oferece, mais uma vez na carreira, resultado e desempenho.