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Rodrigo Coutinho

Abel Ferreira mostra o seu projeto em 30 dias de Palmeiras

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

04/12/2020 04h00

Nesta sexta-feira o técnico Abel Ferreira completa um mês como técnico do Palmeiras. De lá pra cá foram sete vitórias em nove jogos disputados. Um aproveitamento inicial superior até ao de Jorge Jesus no Flamengo em 2019, mesmo com menos tempo de treinamento entre uma partida e outra. Ainda faltam testes mais robustos, mas o início é muito promissor. Agora o Verdão começa a ter um time.

Muito se fala sobre o nível dos adversários ao longo do período. De fato, o Fluminense foi o rival que mais se aproxima da posição do Palmeiras na tabela do Brasileirão, mas outros oponentes como Ceará, Red Bull Bragantino e Athlético Paranaense fizeram partidas competitivas recentemente. E além do mais, o Palestra fez aquilo que dele se espera: ''amassou'' o oponente em quase todos os últimos jogos.

Escrevi aqui mesmo neste espaço, há um mês, que pouco poderia ser aproveitado por Abel Ferreira naquilo que Andrey Lopes, o interino ''Cebola'', havia feito. O português traz um modelo diferente. Mais pautado em ter a bola, com uma ocupação de espaços bem específica no campo de ataque e movimentação elaborada para criar espaços perto da área rival. Não busca um jogo mais voltado a contra-ataques.

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O retrospecto do Palmeiras no primejro mês de Abel Ferreira
Imagem: Rodrigo Coutinho

Time e Esquema-Base

Num mês tão conturbado por desfalques com a Covid-19, é até difícil dizer qual é o time-base do Palmeiras. Abel vem variando a montagem da equipe entre o 4-2-3-1 e o 4-1-4-1, e mesmo com os desfalques conseguiu manter suas ideias para o desenvolvimento do conjunto. A execução de tal proposta vem crescendo a cada jogo.

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O provável time-base do Palmeiras com Abel Ferreira
Imagem: Rodrigo Coutinho

Momento Ofensivo

Ter a bola é a busca constante do trabalho de Abel Ferreira no Palmeiras. Mas não é uma posse que tenha preocupação excessiva em trocar muitos passes. O time busca se aproximar como prioridade, mas se o adversário der espaço para passes em profundidade, a bola é constantemente lançada no espaço para os atacantes correrem. Ser vertical está acima de manter a posse numa escala de importância, mas o time elabora as jogadas com inteligência.

Abel gosta de utilizar três jogadores na primeira linha de construção. Como joga com quatro atrás, projeta um dos laterais em amplitude no campo rival. Viña e Gabriel Menino revezam nesse ponto de jogo para jogo. Geralmente as características do ponta do setor é que vai ditar o que farão. Se o companheiro for um jogador mais rápido, o lateral do setor faz a ''saída de três'' alinhado aos zagueiros. Mas se o ponta do mesmo lado for um atleta de perfil mais articulador, este flutua para o centro do campo e o lateral se projeta.

Mais a frente, dois jogadores alinhados dando opção de passe curto. Um deles ganha mais liberdade quando o time se estabelece no campo de ataque. Já o outro fica por trás da linha da bola para girar o jogo de lado quando necessário. Entre as linhas de defesa e meio do time adversário, Abel coloca dois jogadores. O ponta que flutuou do lado para o centro e um meia. Desta forma os espaços ficam ocupados e as linhas de passe são geradas automaticamente.

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A ocupação de espaços do Palmeiras em fase ofensiva. Um lateral mais preso e outro dando amplitude no ataque. Um ponta ''abrindo'' o campo e outro flutuando pro meio
Imagem: Rodrigo Coutinho

Perto da área rival, muitos movimentos de infiltração dos jogadores que vêm de trás. Amplitude com o ponta que fica mais aberto e com o lateral mais agressivo. O centroavante faz constantes diagonais em cima da última linha de defesa adversária. O intuito é abrir espaço para quem vem de trás, receber em profundidade e atrair a marcação. Muitos jogadas são terminadas pelos lados e o cruzamento rasteiro feito para uma área bem povoada.

Após participar da saída de bola alinhado aos zagueiros, o lateral ''mais preso'' também ganha liberdade para se somar ao campo de ataque. Ele geralmente se aproxima do ponta aberto no setor, vindo de dentro, e busca tabelas ou triangulações pelos flancos. Muitas vezes o ''balanço defensivo'' do Palmeiras, a quantidade de jogadores não envolvidos diretamente numa ação ofensiva, é feito apenas pelos zagueiros. Um time bem mais ofensivo.

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Profundidade sendo atacada a todo momento faz o time ganhar mais verticalidade com a bola
Imagem: Rodrigo Coutinho

Momento Defensivo

O Palmeiras segue marcando por encaixes dentro do setor com Abel Ferreira. Nesse sistema de marcação, o jogador ''encaixa'' em um adversário que entrou em seu setor e o acompanha até o limite desta zona do campo. Não se afasta de sua zona de atuação para que o time não fique descompactado. Destaque para os movimentos de subida de marcação. O time tem aprimorado isso, sobretudo nos jogos em casa, e já fez gols desta forma. Ainda pode melhorar a ''pegada'' quando marca mais recuado, mas não tem tido grandes problemas defensivos.

Coisas no devido lugar

O que vem chamando a atenção é a intensidade do time pra rodar a bola com velocidade e atacar os espaços com agressividade. Em pouco tempo de trabalho, Abel conseguiu algo que parecia impossível sob o comando de Luxemburgo e, de quebra, enterrou opiniões de que o elenco alviverde não era tão bom assim, ou que os atletas não tinham comprometimento com o clube. Faltava trabalho de maior qualidade!

Saber se o Palmeiras será campeão de algumas das três competições que ainda está vivo só o tempo vai dizer, mas em 30 dias de projeto, Abel Ferreira mostrou que pode capacitar o alviverde em todos os campeonatos. A torcida palestrina pode sonhar!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.