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Rodrigo Coutinho

Maleável taticamente, Ceni pode agora esbanjar seu conteúdo no Flamengo

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

11/11/2020 04h00Atualizada em 11/11/2020 12h12

Foram três temporadas no Fortaleza e, uma avaliação mais atenta do trabalho de Rogério Ceni no Leão, indica o caráter ''adaptável'' do novo treinador do Flamengo. O ex-goleiro do São Paulo montou literalmente três equipes com diferenças importantes desde 2018. O que pesou nisso? Elenco, realidade financeira do clube e objetivos principais. Agora, com o plantel mais badalado do país nas mãos, pode colocar em prática todo o seu conteúdo de forma plena.

A ''sombra'' de Jorge Jesus segue pairando sobre o cargo de treinador do Flamengo. Pudera, o português é ídolo da torcida pelo excelente e histórico trabalho feito em 2019. Além disso, houve uma identificação imediata com o comportamento do europeu e aquilo que a Nação espera de um técnico. Rogério tem um pouco disso. Possui um perfil mais centralizador e ''hard work'' em comparação a Domènec Torrent. É também mais enérgico na beira do campo, o que muitas vezes não quer dizer nada na prática, mas serve para reforçar a empatia entre o profissional e a torcida.

No que tange o ''campo e bola'', Rogério pode acrescentar pontos de cada um de seus times montados no Fortaleza ao Flamengo. Confira:

Esquema Tático e Formação Titular

Nos últimos dois anos o Fortaleza vinha jogando no 4-4-2 na maioria das vezes. Como utilizava constantemente dois atacantes na função de meias, falava-se num 4-2-4, mas na prática sempre foi um 4-4-2 com liberdade de movimentação a esses quatro homens mais avançados. Os meias flutuavam dos lados para o centro e atacavam a última linha de defesa adversária para receber em profundidade ou finalizar.

Os atacantes também podiam mudar de posição, recuar alguns metros, sair da área e cair para os lados. Neste ponto especificamente uma estrutura ofensiva mais parecida com a que Jorge Jesus implementou no clube. Já em 2018, montava o time quase sempre no 4-3-3, e os jogadores respeitando mais os seus setores de origem. Não era um ''ataque posicional'', mas havia mais racionalidade na disposição das peças no campo de ataque.

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Possível time do Flamengo com Rogério Ceni
Imagem: Rodrigo Coutinho

Creio que a chance de implementar um 4-4-2 no Flamengo seja grande. Pensando nas características que Everton Ribeiro e Arrascaeta podem oferecer como meias, e Gabigol e Bruno Henrique como atacantes, haveria um encaixe muito parecido com o que buscava recentemente no Fortaleza.

Mas e Pedro? Com a temporada que o camisa 21 vem fazendo é difícil pensar no centroavante fora do time. Rogério escalou o Fortaleza diversas vezes com um homem mais voltado à área. Primeiro Gustagol e depois Wellington Paulista. No time de 2018, inclusive, a principal fonte de terminação das jogadas após as constantes triangulações pelos lados era o cruzamento para Gustagol finalizar. Previsão de briga muito boa no ataque. Não acredito que Gabigol, Bruno Henrique e Pedro sejam escalados ao mesmo tempo. A não ser em situações pontuais e em caso de desfalque de Everton Ribeiro ou Arrascaeta.

Momento Ofensivo

Uma característica em comum dos times montados por Ceni desde 2018 é a preferência por uma saída de bola envolvendo três jogadores na primeira linha de passes. Vinha utilizando o goleiro Felipe Alves no Fortaleza. Diego Alves e Hugo possuem qualidade no passe, mas não tanto quanto Felipe. É muito provável que Rogério exija mais dos arqueiros rubro-negros neste aspecto. Assim consegue projetar os laterais em amplitude ataque e colocar os dois volantes numa faixa mais avançada do campo.

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Saída de três dos times de Rogério Ceni com o goleiro bem adiantado, posicionado entre os zagueiros
Imagem: Rodrigo Coutinho

Quando não há a possibilidade do passe curto, o time ''alonga'' a bola partir do goleiro com um passe destinado a um dos laterais. Importante frisar a forma com que esse passe é feito. Não se trata de um ''chutão''! É o chamado passe ''sem peso'', com o ''peito do pé'', visando facilitar o domínio do lateral ou a ''raspada'' de cabeça para um dos atacantes ou meias entrarem em profundidade.

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Laterais projetados em amplitude no campo de ataque sempre nos times de Ceni
Imagem: Rodrigo Coutinho

Outro detalhe que deveremos acompanhar é o acúmulo de jogadores pelo centro do gramado. Ceni costuma soltar bem os laterais no campo de ataque e gerar linhas de passe pelo meio com os dois volantes mais posicionados e alinhados, e os meias e atacantes transitando com liberdade pelo setor. Isla, Thiago Maia, Arrascaeta, Gabigol, Everton Ribeiro e Willian Arão podem ter seus estilos muito atendidos por isso. Outros como Filipe Luís, Gérson e Michael nem tanto.

Filipe tem dificuldade quando precisa realizar muitos movimentos de ocupação ao flanco do campo pela esquerda. Não tem exatamente a característica da velocidade e da ultrapassagem constante. É um construtor através dos seus passes, visão de jogo e drible curto. Rogério precisará fazer alguma adaptação para acomodá-lo em seu modelo preferido. Gerson sabe construir na primeira linha de meio-campo, mas parte importante do seu jogo passa pela capacidade de infiltração também. Rogério não proíbe seus volantes de infiltrarem, mas costuma cobrar um posicionamento mais fixo para girarem o jogo de lado e facilitar as transições defensivas.

Momento Defensivo

Morou aqui o grande problema do time do Flamengo sob o comando de Domènec. A falta de capacidade para pressionar a bola, a pouca intensidade e concentração na hora de defender, o espaçamento entre os setores, e a péssima fase de defensores como Gustavo Henrique e Léo Pereira geraram uma quantidade absurda de gols aos adversários. Esse foi o principal motivo da queda do catalão.

Foto gh - Thiago Ribeiro/AGIF - Thiago Ribeiro/AGIF
Recuperar o futebol de Gustavo Henrique é uma das missões de Ceni
Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF

Ceni chega com a missão de ajustar as coisas. Recentemente vinha montando um Fortaleza organizado defensivamente. Depois de problemas neste aspecto em 2019, deu preferência, na maioria dos jogos, a uma equipe mais ''reativa'', que apostava em contra-ataques para criar. Isso não quer dizer que não tinha organização para criar espaços em fase ofensiva, mas no Brasileirão 2020 não era exatamente a prioridade.

O torcedor rubro-negro pode ter esperanças de uma melhora defensiva com o novo treinador. Rogério conseguiu aprimorar as transições defensivas do Fortaleza em 2020. O time passou a reagir mais rápido e de forma mais organizada após a perda da bola. Adotava o sistema de marcação por encaixes com perseguições dentro do setor até 2019, mas nesta temporada começou a seguir um modelo de marcação por zona, o que fez o time proteger melhor os espaços e, de quebra, conseguir pressionar a bola de forma mais eficaz do que fazia.

Conclusão

A avaliação do trabalho de qualquer treinador precisa passar, antes de tudo, por compreender as ideias que ele busca implementar, a aceitação do elenco, e como lidará com os fatos que aparecem no dia a dia: calendário insano, lesões, problemas disciplinares, convocações para as seleções e falhas individuais dos atletas. Não há mágica! Não se coloca um time para jogar de determinada forma em questão de semanas e poucos jogos. Todas as partes envolvidas neste processo precisam ter o mínimo de entendimento. Potencial, Rogério já mostrou que tem!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.