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Rodolfo Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rodolfo Rodrigues: Dunga não era o brucutu que todo mundo achava em 1990

Dunga é marcado por Claudio Caniggia, durante as oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, entre Brasil x Argentina  - Peter Robinson - EMPICS/PA Images via Getty Images
Dunga é marcado por Claudio Caniggia, durante as oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, entre Brasil x Argentina Imagem: Peter Robinson - EMPICS/PA Images via Getty Images
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Rodolfo Rodrigues

Rodolfo Rodrigues é apaixonado por números e estatísticas no futebol. Foi repórter do Lance!, editor da Placar e do prêmio Bola de Prata ESPN e é autor de dez livros sobre futebol.

Colunista do UOL

05/12/2021 12h00

O UOL lançou um documentário sobre a Copa do Mundo de 1990, disponível no canal do UOL Esporte no YouTube. E um dos principais nomes daquela seleção brasileira era o volante Dunga, com tive o prazer de falar em 2020 para o UOL.

Jogador que simbolizou aquela seleção, da chamada 'Era Dunga', o volante foi duramente criticado pela imprensa, que, de certa forma, botou nele a culpa pelo estilo de jogo da equipe do técnico Sebastião Lazaroni. Depois de muitos mundiais jogando um futebol ofensivo e alegre, a seleção de 1990 entrou na Copa num atípico 3-5-2 e Dunga, então jogador de forte marcação e que dentro e fora de campo mostrava um estilo sisudo, acabou sendo taxado. Mas será que ele era esse brucutu em campo que todos achavam?

Não, não era. Dunga era, sim, um volante de muita pegada, forte marcação e de chegadas mais fortes. Mas tinha um ótimo passe, fazia bons lançamentos e ainda costuma chegar ao ataque e marcar seus gols com seus chutes potentes de fora da área. Não era um craque, com classe, mas tinha técnica, ótimo posicionamento e muita liderança.

Não à toa, começou cedo no Internacional, em 1983, ano em foi campeão sul-americano e mundial Sub-20 com a seleção brasileira. Em 1984, ano em que ganhou o bicampeonato gaúcho, foi ainda medalha de prata com a seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Ainda em 1984, foi contratado pelo Corinthians, Mas em 1985, junto com os companheiros de peso que chegaram ao clube, como Serginho Chulapa e De León, Dunga acabou também deixando o time, que foi aquém do esperado naquele ano. Assim, em 1986 acabou se transferindo para o Santos.

Depois de um ano na Vila, foi par ao Vasco, em 1987, e por lá recuperou o bom futebol e acabou conquistando o Campeonato Carioca no time comandado por Sebastião Lazaroni. No mesmo ano, foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira principal pelo técnico Carlos Alberto Silva.

Vendido ao pequeno PIsa, da Itália, em 1988, Dunga teve uma boa adaptação no futebol europeu e já na temporada seguinte se transferiu para a Fiorentina. Na temporada 1988/89, foi titular absoluto da equipe, disputou 39 jogos, marcou 4 gols e acabou sendo levado por Lazaroni para disputar a Copa América.

Único jogador de marcação no meio de campo daquela seleção, que tinha ainda Silas e Valdo, Dunga foi titular e peça fundamental na conquista da Copa América depois de 40 anos. Com moral, seguiu depois como titular indiscutível de Lazaroni até a Copa de 1990. Jogador de forte personalidade, Dunga defendia o 3-5-2 de Lazaroni e chegava a dar declarações de que a seleção deveria ser elogiada por não levar gols. Foi assim, por exemplo, no início da Copa, quando o Brasil venceu a Costa Rica pelo magro placar de 1 x 0.

Em ótima fase na Fiorentina, Dunga fez também uma boa Copa em 1990, sendo titular e jogando os 90 minutos sem ser substituído nos quatro jogos da seleção, onde vestia a inusitada camisa 4.

No jogo em que o Brasil foi eliminado, Dunga teve ainda uma chance de marcar um gol de cabeça no primeiro tempo — a bola acabou passando rente à trave de Goycoechea. Mas o jogador acabou sendo criticado por não ter dado uma botinada em Maradona no início da jogada que originou o gol da Argentina aos 39 minutos do segundo tempo.

Preterido por Falcão depois daquela Copa, Dunga só voltou a jogar pela seleção brasileira em 1993, quando foi convocado por Carlos Alberto Parreira. Já atuando pelo Stuttgart, da Alemanha, onde também fez duas boas temporadas, Dunga rapidamente reconquistou seu lugar na seleção e virou peça importantíssima no esquema da Parreira. Capitão do tetra, Dunga foi o jogador com mais desarmes na Copa de 1994.

Campeão da Copa América e da Copa das Confederações de 1997, já sob o comando de Zagallo, Dunga voltou à Copa do Mundo em 1998 e, aos 34 anos, foi novamente capitão da seleção que chegou à final daquele mundial. Jogador que fez parte da seleção ideal das Copas de 1994 e 1998, Dunga deu a volta por cima e marcou época como jogador pela seleção, provando que em 1990 ele não merecia ter sido execrado da maneira que foi. Quem dera tivéssemos volantes raçudos e líderes em campo pela seleção hoje e com a técnica que Dunga tinha.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL