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Rodolfo Rodrigues

Por Pelé, Santos questiona recorde de Messi e ignora conta de gols oficiais

Lionel Messi em primeiro jogo do Barcelona na temporada 20/21 do Campeonato Espanhol - David Ramos/Getty Images
Lionel Messi em primeiro jogo do Barcelona na temporada 20/21 do Campeonato Espanhol Imagem: David Ramos/Getty Images
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Rodolfo Rodrigues

Rodolfo Rodrigues é apaixonado por números e estatísticas no futebol. Foi repórter do Lance!, editor da Placar e do prêmio Bola de Prata ESPN e é autor de dez livros sobre futebol.

Colunista do Uol

27/12/2020 12h05

O Santos divulgou em seu site oficial uma nota nesse sábado (26), assinada por Fernando Ribeiro, da Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos FC (Assophis), questionando o recorde de gols de Messi em jogos oficiais. Para ele e para o Santos, essa conta não deveria existir e os gols em partidas amistosas não deveriam ser ignorados. Assim, Pelé, com 1091 gols pelo clube, seguiria como o maior recordista de todos os tempos.

Na nota, Fernando Ribeiro coloca alguns argumentos como a importância dos adversários e o modo como os clubes dividiam o calendário na época (anos 1950, 1960 e 1970). Isso quer dizer algo como "gol é gol, não importa a competição ou o adversário". O pensamento é tradicional no Brasil, abrindo margens para contas exageradas por muitas vezes, como nos gols de Romário, que tem quase 100 gols contabilizados em jogos das categorias de base, ou de Túlio, que "inventou" mais de 200 gols segundo seus próprios critérios.

Na Europa, no entanto, gols e jogos em partidas amistosas sempre foram ignoradas. Qualquer lista traz apenas jogos e gols em partidas oficiais de competição (como Liga dos Campeões ou Liga Europa e campeonatos e copas nacionais). Com isso, os números são mais precisos e mais justos.

A Fifa usa o mesmo critério em jogos de seleções. Para a entidade, um jogo de uma seleção contra um clube não pode ser considerado oficial (como um Brasil x Atlético-MG, Brasil contra Seleção Pernambucana).

Outra explicação para o uso desse critério de jogos oficiais é a falta de padrão nos amistosos. Em muitos deles, temos substituições de todos os jogadores. Ou ainda a participação de jogadores sem registro oficial ou condição de jogo regular (sem ter contrato registrado nas federações, por exemplo). Isso pode acontecer em jogos festivos (amigos do Zico x amigos do Neymar). Ou ainda o caso de jogo-treino, com a possibilidade de nem usar a camisa de jogo.

Enfim, fica praticamente impossível controlar tudo isso. Ainda mais no século passado, quando não tínhamos registro de todos os jogos com vídeo, foto ou até súmulas.

E o Messi com isso?

Outra situação é a de gols e jogos de campeonatos nacionais que não são de primeira divisão, ignorados pelos europeus nessas contas oficiais. Messi, por exemplo, fez sua estreia oficial no dia 29 de novembro de 2003, pelo Barcelona C, na 3ª divisão do Campeonato Espanhol, 13 dias depois de vestir a camisa do clube pela primeira vez no amistoso contra o Porto. Nas contas oficiais, porém, a estreia oficial do argentino pelo Barça foi no dia 16 de outubro de 2004, na 1ª divisão do Campeonato Espanhol.

Contando jogos e gols pelo Barcelona C (10 jogos e 5 gols) e pelo Barcelona B (21 jogos e 6 gols), que foram em campeonato oficiais, mas não de 1ª divisão, Messi teria mais 31 jogos e 11 gols em suas contas. Em amistosos, são mais 55 jogos e 36 gols, incluindo aí partidas do Torneio Ramón de Carranza, Troféu Juan Gamper (onde Messi marcou um no 8 x 0 sobre o Santos, inclusive) e a recém-criada Copa dos Campeões, disputada nos Estados Unidos na pré-temporada contra os maiores clubes da Europa.

Além disso, estão fora das contas de jogos oficiais os gols pela seleção olímpica ou sub-23. Messi, campeão olímpico em 2008, tem mais 5 jogos e 2 gols pela Argentina. No total, tirando esses em jogos não-oficiais, Messi contabiliza mais 49 gols. Perto dos seus 644, isso representa menos de 10%. Bem diferente de Pelé, que marcou 642 oficiais e 449 não-oficiais, totalizando 1091 gols pelo Santos.

Ninguém questiona, porém, esses 49 gols não-oficias de Messi. Assim como os de Cristiano Ronaldo. Desde sempre essa conta nunca existiu para ambos ou para os jogadores dessa nova geração. Neymar, por exemplo, disputou um amistoso com o PSG com 4 tempos de 30 minutos contra o Waasland-Beveren, de Bélgica. Na vitória por 7 x 0, Neymar marcou 2 gols e muita gente botou na conta dele, dizendo inclusive que ele teria superado Raí. O que é errado.

Pelé, entre esses 449 gols, realmente marcou contra grandes clubes (como Real Madrid no Santiago Bernabéu), mas também contra times bem inexpressivos como o Itáu Esporte Clube-MG, Seleção de Ilhéus-BA, Seleção B do Congo ou União Tijucana-RJ. Mas o fato é que como padrão, são utilizados os jogos em competições oficiais. Tirando os jogos pelo Santos, Seleção Brasileira e Cosmos-EUA, Pelé tem ainda gols contabilizados pela 6ª Guarda Costeira e pela Seleção das Forças Armadas. Algo inimaginável hoje em dia.

Isso quer dizer que Messi é maior que Pelé?

Excluir os gols de Pelé em jogos não-oficiais não é um absurdo. É uma questão de critério. No futebol, isso vai sempre existir. Você pode fazer contas e comparações por diversos critérios. Basta saber utilizá-los.

Pelé foi o recordista de gols oficiais por um único clube por 50 anos. Ser superado por Messi não é nenhum demérito. Isso, na minha opinião, não faz com que Messi seja maior que Pelé.

Cristiano Ronaldo irá superar o Rei em breve em número de gols em jogos oficiais por clubes e seleções. Faltam apenas 6 gols. E quando isso acontecer, vão falar o mesmo. Mas no esporte não precisamos que torcer para que as marcas dos gênios não sejam quebradas.

Lewis Hamilton superou há pouco tempo o recorde de pole-positions de Ayrton Senna. E daí? O que isso muda? Nada. Senna continuará sendo incrível e impressionante com suas marcas. E Lewis Hamilton merece também todo respeito por conseguir alcançar essa e outras marcas.

Pelé aproveitou a data para parabenizar Messi no dia em que foi superado. O Santos poderia fazer o mesmo e não insistir em diminuir a façanha do argentino. Que bom que falamos de Pelé até hoje. Que bom que ele fez tanto pelo Santos. Que bom que ele é o maior de todos. Mas ele pode, sim, ser superado nos números.

Para quem quiser, aqui estão os 449 gols de Pelé nos jogos não-oficiais pelo Santos. Abaixo, a lista de gols por adversário:

9 gols
América-MEX
Colo-Colo-CHI
Universidad Católica-CHI

8 gols
Internazionale-ITA
Seleção de Hong-Kong

7 gols
Napoli-ITA
River Plate-ARG
Seleção do Congo

6 gols
Baltimore Bays-EUA
Chivas Guadalajara-MEX
Eintracht Frankfurt-ALE
Roma-ITA
Universidad de Chile-CHI

5 gols
Atlético-MG
Beerschot-BEL
Boca Juniors-ARG
Munique 1860-ALE
Olímpico-SC
Racing Paris-FRA
Remo

4 gols
Anderlecht-BEL
Barcelona-ESP
Benfica-POR
Boston Stars-EUA
Cruzeiro
Deportivo Galícia-VEN
Deportivo Municipal-PER
Fabril de Lavras-MG
Guarani
Racing-ARG
Santa Cruz
Saprissa-CRC
Sergipe
Universidad del México-MEX
Universitario-PER
Washington Darts-EUA

3 gols
Alianza Lima-PER
Atlanta Chiefs-EUA
Basel-SUI
Caroline Hill-HKG
Comercial-MS
Deportivo Cali-COL
Dom Bosco
Enschede-HOL
Karlsruhe-ALE
Lazio-ITA
LDU Quito-EQU
Lecce-ITA
Newcastle-ING
Seleção da Tchecoslováquia
Seleção de Niedersachen-ALE
Seleção do Irã
Seleção do Senegal
Sporting Cristal-PER
Standard Liège-BEL

2 gols
All Stars-EUA
Bahia
Bolívar-BOL
Bologna-ITA
Botafogo
Botafogo-SP
Cagliari-ITA
Catanzaro-ITA
Club Naval-CHI
Combinado Genoa/Sampadoria-ITA
Communicaciones-GUA
Coritiba
CRB
Emelec-EQU
Fortaleza
Goiás
Grêmio Maringá-PR
Hamburgo-ALE
Independiente-ARG
Juventus-ITA
La Gantoise-BEL
Londrina-PR
Lyon-FRA
Millonarios-COL
Nacional-AM
Nacional-URU
Oakland Clippers-EUA
Palmeiras
Panathinaikos-GRE
Prudentina-SP
Sampaio Corrêa
SC-Abdjan-CDM
Seleção "B" da Bulgária
Seleção da Colômbia
Seleção da Guatemala
Seleção da Nigéria
Seleção da Polônia
Seleção da Tailândia
Seleção de Alagoas
Seleção do Barein
Seleção do Japão
Seleção Juvenil Arábia Saudita
Seleção Paulista
Seleção Sergipana
Sport Boys (Peru)
Sport Boys-PER
SS National-EGI
Stade de Reims-FRA
Stoke City-ING
Toulouse-FRA
Vasas-HUN
West Ham United FC-ING
Wolfsburg-ALE
Zaragoza-ESP

1 gol
AEK-GRE
Al Nasser-EAU
Alexandria-EGI
Alianza-ELS
América-RN
Arminia Bielefeld-ALE
Atlante-MEX
Atlas-MEX
Atlético Nacional-COL
Betis-ESP
Bordeaux-FRA
Botafogo-PB
Bragantino
Colón-ARG
Combinado de Doha-CAT
Combinado Hertha-Berlin-ALE
Conventry City-ING
Corinthians
Corinthians de Santo André-SP
Deportivo Medellín-COL
Estrela Vermelha-SER
Fast Clube-AM
FC Zurique-SUI
Fenerbahçe-TUR
Feyenoord-HOL
Flamengo
Fortuna-ALE
Fulham-ING
Galícia-BA
Grêmio
Herediano-CRC
Huracán-ARG
Itau E.C.-MG
Jabaquara-SP
Kansas City Spurs-EUA
Leopardos-COM
Mantova-ITA
Miami Toros-EUA
Necaxa-MEX
Newell's Old Boys-ARG
Nitro-Química-SP
Olimpia-PAR
Oriente Petrolero-BOL
Palestra de São Bernardo-SP
Paysandu
Plymouth Argyll-ING
Portuguesa
Portuguesa Santista
Quadisya Club-KUW
Radnicki-SER
Real Madrid-ESP
Rochester Lancers-EUA
Saint Loius Stars-EUA
San Martin-ARG
Santo Antônio-ESP
Schalke 04-ALE
Seleção Accra (Hearts of Oak) - Gana
Seleção Bagé/Guarani de Bagé-RS
Seleção Brasileira de Acesso
Seleção da Bulgária
Seleção da Coreia do Sul
Seleção da Costa do Marfim
Seleção da Indonésia
Seleção da Rússia
Seleção de Brasília
Seleção de Cochabamba (Bolívia)
Seleção de Fortaleza
Seleção de Guadalupe
Seleção de Hamburgo-ALE
Seleção de Hannover-ALE
Seleção de Ilhéus
Seleção de Israel
Seleção de Martinica
Seleção de Point-Noire (Congo)
Seleção de Saarland-ALE
Seleção de Trinidad e Tobago
Seleção do Gabão
Seleção Flamengo/Juventude Caxias-RS
Seleção Olímpica da Colômbia
Servette-SUI
Sheffield Wednesday-ING
Sport
Sporting-POR
Stuttgart-ALE
The Strongest-BOL
Toronto Metros-CAN
Transvaal-SUR
Uberlândia-MG
Valencia-ESP
Vélez Sarsfield-ARG
Zeleznicar-BOS

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