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Desculpa, Luxa, mas Jorge Jesus fez muito mais que ganhar uma Libertadores

Jogadores do Flamengo celebram título do Carioca com o técnico Jorge Jesus - Alexandre Vidal / Flamengo
Jogadores do Flamengo celebram título do Carioca com o técnico Jorge Jesus Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo
Rodolfo Rodrigues

Rodolfo Rodrigues é apaixonado por números e estatísticas no futebol. Foi repórter do Lance!, editor da Placar e do prêmio Bola de Prata ESPN e é autor de dez livros sobre futebol.

09/08/2020 11h22

Vanderlei Luxemburgo está certamente entre os maiores treinadores do futebol brasileiro. Acabou de ganhar seu 9º título Paulista com o Palmeiras e de se consagrar como o maior campeão da competição. No Brasileirão, desde 1959, é o maior vencedor com 5 títulos, ao lado de Lula, ex-Santos.

Mas após o título sobre o Corinthians, nos pênaltis, acho que Luxa atacou, sem necessidade, o português Jorge Jesus ao tentar defender os treinadores brasileiros e se posicionar contra quem exalta os técnicos estrangeiros. "Temos de mudar agora porque o Jesus veio aqui e ganhou uma Libertadores?", questionou na entrevista coletiva pós-título paulista.

Sim, temos que mudar. Todos nós. Depois do 7 x 1 na Copa de 2014, a vinda do treinador português foi o que aconteceu de mais positivo no nosso futebol. Nos últimos anos, estamos vendo uma estratégia de pregar o futebol defensivo se espalhar por todos os clubes, como se essa fosse a única maneira de alcançar resultados. Jorge Jesus não só mostrou o oposto, com um futebol pra lá de ofensivo, como acabou com a ideia de poupar jogadores, outra praga no nosso futebol.

Recentemente, entrevistei o ex-técnico Dunga, que me disse algo muito interessante. "O Jesus poupa jogador no treino, que é onde o cara se desgasta demais e não no jogo. Ninguém tinha parado para pensar nisso", disse o capitão do tetra. Então, não foi só a Libertadores que Jorge Jesus deu ao Flamengo. O técnico português ganhou um Brasileirão com a melhor campanha, melhor ataque e a maior invencilibidade na era dos pontos corridos. Em 2020, ganhou ainda mais três títulos e sem perder um jogo. E mais ainda, ele nos deu a esperança de vermos um futebol alegre, ofensivo e prazeroso de se ver, ao contrário do que Luxemburgo e outros tantos ainda insistem em fazer por aqui.

E não é por falta de elenco que os treinadores não conseguem mudar esse estilo ruim de jogo. Abel Braga era o treinador antes de Jorge Jesus e pouco conseguiu extrair da equipe. Fábio Carille fez a torcida corintiana perder a paciência com o time mesmo após anos de conquistas. E Luxemburgo, mesmo com o segundo elenco mais caro do país (antes da saída de Dudu), não conseguiu fazer o time apresentar um bom futebol no Paulistão.

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Mesmo com tantos bons jogadores nas mãos, o Palmeiras não conseguiu ganhar um clássico (e foi campeão paulista pela primeira vez sem bater nos rivais). Além disso, levantou a taça com a pior campanha entre as 23 do Palmeiras em anos de título estadual (veja aqui a lista) e o pior ataque (média de 1,31 por partida). Em 16 jogos, ganhou apenas 8 e teve um aproveitamento de 62,5% dos pontos. Jorge Jesus foi campeão brasileiro, num torneio muito mais difícil, com 83,9% de aproveitamento em 29 jogos disputados. Além disso, deixou o Flamengo com média de 2,28 gols por jogo (123 em 58 partidas).

Na final contra o Corinthians, o Palmeiras de Luxemburgo deu apenas um chute a gol certo na primeira final, em Itaquera. Um mísero chute em 90 minutos. E nesse sábado (8), ganhou o título nos pênaltis, com um futebol ruim. O Brasil todo reclamou do que Corinthians e Palmeiras apresentaram nessa decisão. Com Jesus, o Brasil parou para ver a final da Libertadores e tinha na ponta da língua a escalação do Flamengo.

Jorge Jesus teve seu nome cantado com orgulho pelo torcedores rubro-negro no Maracanã (olê, olê, olê, olê, Mister, Mister!), relembrando algo parecido com o que Telê Santana viveu no São Paulo no início dos anos 90, com seu time ofensivo, vencedor e que enchia os olhos dos torcedores.

Luxembugo já montou times fantásticos, como o Palmeiras de 1993 e o de 1996 (que fez 102 gols em 30 jogos), o Corinthians campeão brasileiro em 1998, o Cruzeiro campeão de tudo em 2003 e a seleção brasileira campeã da Copa América de 1999. Mas que não me venha com essa de que na Europa o jogo é mais rápido e que aqui não pode ser assim. Nossa característica sempre foi a do futebol aberto, jogado para frente. Não isso que estamos vendo agora.

Mudar não é algo ruim, não, Luxa. Às vezes é necessário mesmo para o bem do nosso futebol.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado anteriormente, o aproveitamento do Palmeiras no Paulistão foi de 62,5%, não de 58,3%.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.