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Rafael Oliveira

M.A. Ramírez é o nome da moda. Mas quem está disposto a bancar o processo?

Miguel Ángel Ramírez, técnico do Independiente del Valle - Cristina Vega Rhor/AFP
Miguel Ángel Ramírez, técnico do Independiente del Valle Imagem: Cristina Vega Rhor/AFP
Rafael Oliveira

Comentarista de futebol com passagens por Esporte Interativo e ESPN. Atualmente no Dazn. Sempre interessado em informações e análises do jogo em qualquer parte do planeta.

Colunista do Uol

17/09/2020 23h17

O Independiente Del Valle goleou o Flamengo na Libertadores. O placar impressiona pelos 5x0 e a atuação só confirma a superioridade equatoriana em campo.

O trabalho de Miguel Ángel Ramírez é um dos melhores do continente há algum tempo. Já era excelente no título da Sul-Americana em 2019. O choque com o Flamengo de Jorge Jesus, na Recopa de 2020, produziu um dos grandes confrontos recentes da América do Sul em termos táticos.

Na ocasião, deu Flamengo. E talvez o resultado de agora seja importante para colocar aqueles dois jogos, lá de fevereiro, em perspectiva. Porque o Del Valle nem sempre é devidamente valorizado.

Miguel Ángel Ramírez é um nome cada vez mais lembrado e pedido por diferentes torcedores no Brasil. Um justo reconhecimento para quem chegou inicialmente para trabalhar a base e ajudou a montar uma estrutura que dá espaço para garotos, os potencializa pelo funcionamento coletivo e gera retorno com transferências. Uma referência na formação do Equador.

A dúvida que fica é: qual a chance de ter tempo para desenvolver um processo semelhante ao construído no Del Valle? Em quanto tempo seria massacrado por "inventar" ou "não saber nada"?

A dura realidade é que o futebol brasileiro é, de uma maneira geral, um péssimo ambiente para o desenvolvimento de ideias. Todos querem o trabalho pronto, o produto final de forma imediata. O nível coletivo do Del Valle dá gosto de ver, mas quantos estão dispostos a bancar o processo?

Aqui não há uma defesa do trabalho de Dome, é bom que se diga. Mas a reflexão é natural. A complexa transição de filosofias nunca é fácil, embora não haja regra para o tempo necessário para notar se a resposta será positiva ou não.

Para Miguel Ángel Ramírez, assumir um clube brasileiro, na maioria das vezes, representaria uma ruptura das ideias e um recomeço. Como o que o Flamengo escolheu fazer, ainda que em outro contexto (mais delicado pela pressão da imagem de um time fantástico, montado e vitorioso com Jorge Jesus).

É um dilema curioso para observar na gestão de carreira do treinador do Independiente Del Valle. Depois da goleada sobre o Flamengo, é inevitável que ganhe ainda mais prestígio por aqui.

Mas até que ponto vale a pena trocar a estabilidade pela realidade brasileira? É uma pergunta sem resposta exata. Só ele pode colocar na balança e tomar a decisão. Lamentavelmente, a sensação que passa é de que talvez o trabalho seja bom demais para se submeter a um país que só tolera as exceções e extermina treinadores com uma velocidade irracional.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.