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OPINIÃO

Resposta ao racismo de Piquet mostra o quanto que a F1 tem pela frente

Piquet usou termo considerado racista para se referir a Lewis Hamilton Imagem: Fotos: Divulgação/Mercedes
Julianne Cerasoli

Colunista do UOL

29/06/2022 04h00

Foi apenas nos últimos anos que a Fórmula 1 passou a combater o racismo, encurralada pela opinião pública cada vez mais atenta a violências que, por tanto tempo, foram cotidianas, e principalmente por sua maior estrela. Não deixa de ser irônico que o maior vencedor da história de uma categoria que sempre foi (e continua sendo) predominantemente branca tenha origem caribenha. E a resposta à fala racista de outro campeão, Nelson Piquet, usando a palavra "neguinho" ao invés de dizer o nome dele, Lewis Hamilton, mostrou o tanto que o esporte ainda tem pela frente nesta caminhada.

Os primeiros ruídos de uma história que foi publicada no Brasil já com o atraso de quase um ano em relação ao vídeo original apareceram na noite de segunda-feira. Os colegas e até a própria Mercedes queriam checar comigo o que o termo queria dizer exatamente. Seria algo tão forte quanto referir-se a alguém como "negro" em inglês?

Não importava. O episódio foi como uma aula de semântica grátis para deixar de relativizar uma diferenciação à qual não se dá outro nome senão racismo. Por que Max Verstappen tinha nome na fala de Piquet e a Lewis Hamilton coube somente um termo, no diminutivo, que o diferencia pela cor da sua pele?

Era uma questão de tempo até Hamilton, a Mercedes e a própria Fórmula 1 se pronunciarem. Afinal, o heptacampeão tem tido não só o respaldo da equipe, que inclusive iniciou o programa Accelerate 25 há dois anos como parte da negociação de sua extensão de contrato a fim de encontrar maneiras de promover uma maior diversidade em seu quadro de funcionários, como também da Liberty Media, que controla os direitos comerciais da Fórmula 1.

Diversidade ainda gatinha no paddock

É inegável para quem trabalha na categoria que tem havido uma preocupação em contratar profissionais de minorias, lembrando que 7 das 10 equipes e a própria F1 são baseados na Inglaterra, então estamos falando de minorias por lá. Mas ao mesmo tempo não é incomum ouvir nos bastidores o questionamento acerca da real motivação para estas contratações. Nenhuma mudança acontece de uma hora para a outra, e é a turma do "esse mundo tá chato" que ainda sente que, na F1, está em um ambiente amigável a este tipo de visão de mundo.

É por isso que as respostas não são em uníssono e soam até um pouco desengonçadas. Não citar o nome de Piquet nas "notas de repúdio" foi uma opção feita até pelo próprio Hamilton, ainda que ele tenha dado uma intenção mais real do que realmente gostaria de fazer ao responder com um "imagine" a um seguidor que perguntava "imagine se Lewis Hamilton respondesse simplesmente com um 'quem é esse Nelson Piquet?'". E não estou usando as palavras exatas do tweet.

Mas ele tocou em um ponto importante quando pediu para focar na mudança da mentalidade, e não no termo A ou B. Mais um passo na educação que ele acaba tendo de fazer praticamente sozinho em uma categoria que nem sempre quer ouvir.

Que o diga a FIA, entidade que cuida das regras da categoria e que tem como presidente um homem que critica os pilotos justamente pelo ativismo em diversas áreas. Nas mídias sociais, a federação se declarou, até porque não poderia ficar calada, mas até onde eles iriam?

Nem mesmo todas as equipes estiveram juntas na resposta. Não ouvimos nada, por exemplo, na Williams, time pelo qual Piquet foi campeão em 1987. Nada, também, da Red Bull, que optou por divulgar justamente nesta terça-feira que encerrou o contrato com o estoniano Juri Vips, da F2, após investigá-lo por também ter usado termos racistas enquanto fazia uma transmissão online.

A resposta não só da Red Bull, como de seu piloto Max Verstappen, se tornou, agora, a grande fonte de curiosidade do paddock pela óbvia relação entre o piloto e seu sogro. Vale lembrar que, quando Max disse que sua namorada tinha sido sua melhor compra, a declaração foi recebida como uma brincadeira engraçada entre os Piquet.

Mas a grande questão é até onde vai o discurso de que "linguagem discriminatória e racista não tem lugar no esporte"? Até porque temos ouvido algumas opiniões pra lá de descartáveis de outros nomes que, inclusive ao contrário de Piquet, ainda circulam pelo paddock, sendo o também tricampeão Jackie Stewart o mais famoso e "ativo" deles. Só se cumprir o que diz à risca a F1 vai deixar, realmente, de ser o ambiente seguro que ainda é para o preconceito em todas as suas formas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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