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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como engenheiro brasileiro ajudou Hamilton a vencer na Espanha há um ano

Lewis Hamilton e Max Verstappen no pódio do GP da Espanha de Fórmula 1 em 2021 - REUTERS/Albert Gea
Lewis Hamilton e Max Verstappen no pódio do GP da Espanha de Fórmula 1 em 2021 Imagem: REUTERS/Albert Gea
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

18/05/2022 04h00

A Fórmula 1 se prepara para o GP da Espanha neste final de semana onde, há um ano, um engenheiro brasileiro foi peça importante na decisão estratégica que ajudou Lewis Hamilton a vencer pela sexta vez em Barcelona. Leonardo da Silva, que meses depois subiria ao pódio representando a Mercedes na vitória do GP de São Paulo, percebeu que Hamilton poderia vencer a corrida parando uma vez a mais que Max Verstappen, no que parecia uma estratégia arriscada durante a corrida, mas provou ser acertada.

Leonardo está na Mercedes desde o final de 2017, e faz parte do time de estratégia que é comandado por James Vowles. Cabe ao brasileiro consolidar os dados observados pelo restante do time de estratégia que acompanha as corridas na fábrica da Mercedes, em Brackley, na Inglaterra, e sugerir saídas apontadas por estes dados para Vowles. A decisão final cabe ao britânico, que então comunica aos engenheiros de pista o que deve ser passado aos pilotos.

Naquele GP da Espanha de 2021, Hamilton tinha feito a pole, mas foi superado por Verstappen logo nos primeiros metros. Como os dois tinham um ritmo muito semelhante e Hamilton se manteve próximo, a Red Bull antecipou a parada de seu piloto para evitar que o inglês trocasse primeiro os pneus e tomasse a liderança. Então coube à Mercedes deixar Hamilton na pista por mais quatro voltas. Assim, ele teria pneus melhores no final da prova.

Os modelos observados por Leonardo e os outros estrategistas na fábrica, no entanto, sugeriam uma saída diferente. Se Hamilton parasse com cerca de 20 voltas para o final, ele teria uma vantagem tão grande com os pneus que descontaria todo o tempo e ainda teria a chance de passar Verstappen na última volta. "Aquela decisão de fazer uma parada a mais foi nascida em e motivada pelos dados de Brackley. Nós começamos a perceber que o desgaste de pneus era muito maior [que o previsto] e começamos a passar, volta a volta, informações para o pitwall [onde estava Vowles] de que aquele cenário estava ficando cada vez mais atrativo."

A própria F1 fez um vídeo na época mostrando essa comunicação e como, em um primeiro momento, a sugestão de Leonardo foi recebida com certa resistência por parte de Vowles e da chefe de estratégia de corrida, Rosie Wait. Ela lembrava que Hamilton já tinha pneus mais novos que Verstappen de qualquer maneira, e talvez não fosse necessário criar uma diferença ainda maior.

Ouvindo a conversa, o chefe da equipe, Toto Wolff, pediu mais detalhes a Vowles, e afirmou que seria melhor esperar algumas voltas para observar como o cenário da prova se desenharia. Nesse meio tempo, com a previsão de que os pneus se desgastariam mais rápido que os modelos iniciais mostravam se confirmando, Leonardo voltou a alertar para importância de fazer uma parada a mais.

A decisão saiu apenas na volta 42, dois giros antes da 44, que Leonardo via como limite nos dados que observava. Se Hamilton parasse depois disso, provavelmente não teria tempo de chegar. Se parasse antes, os pneus poderiam acabar.

Quando a Mercedes deu essa cartada, a Red Bull sabia que eles estavam em maus lençóis. Se eles parassem Verstappen na volta seguinte, ele voltaria atrás com pneus tão novos quanto os de Hamilton, então o jeito era ficar na pista.

O próprio Hamilton ficou em dúvida inicialmente se a tática daria certo, mas fez a sua parte em termos de ritmo e descontou os 22s que tinha de desvantagem quando saiu dos boxes com 23 voltas para o fim. Enquanto Verstappen sofria com os pneus, passou o holandês com 6 voltas para o final e ainda abriu 15s de vantagem até a bandeirada.

"Para mim, foi uma corrida muito marcante", reconhece Leonardo. "Ela mostrou o poder da sala de controle de apoio em Brackley, o poder que a gente tem de influenciar nas decisões, e do time de estratégia, por mostrar que não é um exército de um homem só."

É difícil imaginar, contudo, que Hamilton possa repetir a dose neste final de semana, já que a Mercedes vem tendo dificuldades neste início de temporada. A sexta etapa do mundial de F1 tem treinos livres a partir da sexta-feira e largada às 10h da manhã do domingo, pelo horário de Brasília.