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REPORTAGEM

Como Hamilton, Senna também custou a se 'reconciliar' com a F1 após derrota

GP do Japão de 1989: Após batida com Prost, Senna teve de ir aos boxes para arrumar carro e precisou fazer corrida de recuperação para vencer, mas acabou desclassificado Imagem: Getty Images
Julianne Cerasoli

Colunista do UOL

23/01/2022 04h00

Já estamos na segunda metade de janeiro e ainda não há notícias concretas sobre quais serão os próximos passos do heptacampeão da Fórmula 1, Lewis Hamilton, depois que o inglês e sua equipe, a Mercedes, saíram da decisão do título do ano passado decepcionados com a tomada de decisões que acabou deixando o piloto exposto ao ataque de Max Verstappen na última volta da última corrida. Não que essa seja uma situação totalmente desconhecida para a F1. Em 1990, nesta época do ano, ninguém sabia se Ayrton Senna correria naquela temporada.

Essa é uma história que guarda alguns paralelos com a situação atual, mas é completamente diferente ao mesmo tempo.

Senna disputava o título de 1989 com seu companheiro de McLaren, Alain Prost, que estava de saída para a Ferrari. Em uma tentativa de ultrapassagem do brasileiro, os dois se tocaram e foram parar na pista auxiliar, na área de escape. Prost saiu do carro e Senna pediu para que os fiscais de pista o ajudassem a se desvencilhar da outra McLaren, e acabou vencendo a corrida.

Mas o piloto foi desclassificado por ter "evitado a chicane e por ter usado um atalho" para voltar à pista. Com isso, o título ficou com Prost.

Piloto explica possibilidade de deixar a F-1 em 1989, após polêmica com Jean-Marie Balestre Imagem: Arquivo/Folha Imagem

Senna deixou bem clara sua opinião sobre o incidente, que ocorreu em outubro de 1989. "Ficou claro que a pressão política e econômica de certos grupos manipulou os bastidores para fazer com que Prost fosse campeão, seja por patriotismo, nacionalidade ou outros motivos que prefiro não mencionar."

O ataque era direto ao presidente da FISA (atualmente a FIA) Jean Marie Balestre, francês como Prost e desafeto de Senna. O brasileiro acreditava que o presidente tinha aproveitado o lance polêmico durante a prova para ajudar Prost, que na época estava de saída da McLaren justamente por acreditar que o brasileiro estava sendo beneficiado, em especial pela fornecedora de motores Honda.

Voltando ao caso de Hamilton, em entrevista dada ao Auto Motor und Sport nesta semana, o chefe do inglês, Toto Wolff, disse que o importante para seu piloto "é que ele tenha confiança de que a disputa seja justa" daqui em diante. Ou seja, ao mesmo tempo que o sentimento de ambos é de que eles foram injustiçados de certa forma, no caso de Hamilton não parece haver um alvo claro como Balestre era para Senna.

Assim como a Mercedes, a McLaren chegou a entrar com um pedido de revisão do resultado, e depois voltou atrás, e Senna foi chamado para uma reunião na FISA em dezembro para ouvir as explicações de todos os envolvidos, e depois se isolou no Brasil.

De um lado, Senna até flertou com a Indy e não mostrava grande entusiasmo em voltar à F1 e, de outro, Balestre dizia que a FIA não aceitaria a inscrição da McLaren se ela tivesse Ayrton como um dos pilotos caso o brasileiro não se retratasse. Isso chegou, inclusive, a acontecer, quando o time mandou sua primeira inscrição, no final de janeiro de 1990 e ela foi negada. Na época, Dennis disse: "É isso o que acontece quando Deus enfrenta outro Deus", referindo-se a Senna e Balestre, já que nenhum dos dois queria ceder.

A novela se estendeu: a McLaren inscreveu Jonathan Palmer, seu piloto reserva, para o lugar de Senna, e o caso só foi resolvido após a divulgação de um comunicado em que o brasileiro dizia que, na reunião de dezembro, ouviu as partes e "é possível concluir que não há provas de que houve pressão de algum grupo ou do presidente da FISA para influenciar as decisões relacionadas ao resultado do campeonato de 1989". Não foi exatamente um pedido de desculpas, mas, a menos de um mês do início da temporada de 1990, foi o suficiente para Balestre recuar. Senna não só correu em 1990, como venceu o campeonato, com outro lance polêmico com Prost decidindo o título, agora a seu favor.

Lewis Hamilton não deu declarações públicas desde a final do campeonato, em dezembro Imagem: Fórmula 1

A história de Hamilton acabou se invertendo: ao invés de o piloto ser cobrado por uma retratação, é o heptacampeão quem aguarda, em silêncio, respostas por parte da FIA. Na semana seguinte à decisão, em dezembro, a entidade divulgou que faria uma análise das decisões tomadas em Abu Dhabi, focando mais em fechar brechas dadas no regulamento do que em fazer qualquer alteração no resultado. Há também a necessidade de obter maior clareza sobre a sequência de eventos que levaram o diretor de prova, Michael Masi, a mudar de ideia a respeito de como seria a relargada da prova.

Essa análise passou pela primeira fase nesta semana, com a reunião da consultoria esportiva na quarta-feira, e agora será discutida por pilotos e equipes. No início de fevereiro, o resultado destas consultas será revelado ao Conselho de F1 e só dia 18 de março, na reunião do Conselho Mundial, às vésperas da primeira etapa do mundial, as decisões finais serão tomadas.

Não há um prazo para Hamilton se decidir. Tecnicamente, uma equipe pode inscrever um piloto na sexta-feira antes de um GP. Mas, para a Mercedes, o ideal é ter sua estrela confirmada para o lançamento do carro, dia 18 de fevereiro.

Curiosamente, é o segundo ano seguido em que Hamilton deixa em aberto seu futuro: seu contrato para a temporada de 2021 só foi anunciado no início de fevereiro, em um processo que acabou gerando mudanças importantes na administração da carreira do piloto. Na época, ele renovou apenas por um ano, e meses depois assinou um novo acordo até o final de 2023.

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