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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que a decisão histórica da Fórmula 1 ainda pode acabar nos tribunais?

Lewis Hamilton passou Max Verstappen na largada do GP de Abu Dhabi da Fórmula 1 - REUTERS/Hamad I Mohammed
Lewis Hamilton passou Max Verstappen na largada do GP de Abu Dhabi da Fórmula 1 Imagem: REUTERS/Hamad I Mohammed
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

13/12/2021 04h00

Quem assistiu à decisão do campeonato mais apertado da história da Fórmula 1 viu um final apoteótico, com Max Verstappen ultrapassando Lewis Hamilton na última volta para ser campeão. As brigas dos dois na pista foram uma das marcas desta temporada, sempre recheadas de controvérsia. Mas esse não era o único ingrediente de 2021 daqueles últimos metros.

Tão logo o holandês desceu do pódio, foi outra marca desta temporada, a direção de prova confusa de Michael Masi, que tomou os holofotes.

Isso porque Lewis Hamilton sequer foi para a zona de entrevistas, instruído pela Mercedes a só falar depois que os comissários julgassem os dois pedidos de protesto do time relacionados ao procedimento de relargada que permitiu a tal ultrapassagem de Verstappen.

No paddock, membros de outras equipes, ex-pilotos que hoje trabalham como comentaristas e jornalistas tentavam entender como a FIA, Federação Internacional de Automobilismo, que rege a parte regulatória da Fórmula 1, iria sair dessa.

A primeira queixa era discutível e já foi encerrada: Verstappen chegou a estar ligeiramente à frente de Hamilton antes da relargada, o que é ilegal, mas os dois estavam quase parados e a Red Bull provou que isso já aconteceu outras vezes, sem punição.

A segunda reclamação era mais contundente: a bandeira verde tinha sido dada menos de uma volta depois de que os retardatários recuperaram a volta perdida, ao contrário do que diz o regulamento. E nem todos tinham ultrapassado o Safety Car.

A confusão começou antes. Pensando que o carro de Latifi, que bateu, demoraria a ser retirado, Masi informou às equipes que não iria ordenar que os retardatários passassem o SC para acelerar o processo. Naquele momento, Verstappen tinha trocado seus pneus e Hamilton, não. E havia cinco carros entre os dois.

Três minutos depois, percebendo que o carro de Latifi seria retirado mais rapidamente, Masi mudou de ideia, os retardatários foram liberados, Max e Lewis ficaram no mano a mano. O holandês passou e foi campeão.

Alegando que a corrida não poderia ter sido reiniciada desta maneira, a Mercedes entrou com protesto, que foi negado já perto das 23h locais do domingo em Abu Dhabi, com base em outro artigo que diz caber ao diretor de prova decidir quando o SC entra nos boxes. Este artigo estaria acima daquele que determina que o Safety Car entre uma volta depois de os retardatários o ultrapassarem.

A equipe confirmou a intenção de apelar da decisão, o que eles precisam confirmar nesta semana. Se eles decidirem seguir em frente, o caso vai para a Corte Internacional de Apelação, um órgão independente. É provável que a Mercedes questione justamente essa explicação de que uma regra está acima da outra e pode cancelá-la, já que a definição deste mecanismo não existe nas regras. E uma batalha histórica na pista agora fica nas mãos dos 'juridiquês'.

A equipe explicou que as informações dadas pela direção de prova afetaram o processo decisório da Mercedes em não chamar Hamilton aos boxes, por entender que, havendo carros entre os dois, o inglês estaria protegido na relargada e não precisaria trocar pneus. Ele tinha dominado a prova em que chegou empatado em número de pontos com Verstappen.

Esse não foi o único lance polêmico da prova. Hamilton passou Verstappen na largada e, quando o holandês tentou revidar, o piloto da Mercedes saiu da pista e manteve sua posição. Na ocasião, Masi afirmou que ele tinha levado vantagem, mas a cedeu de volta ao diminuir a velocidade.

As decisões confusas e polêmicas da direção de prova marcaram tanto o campeonato quanto as batalhas de Verstappen e Hamilton na pista. Com o equilíbrio dos carros, eles se encontraram diversas vezes na pista, em disputas que começaram o ano mais limpas e foram ficando cada vez mais acirradas, passando dos limites em duas batidas (Hamilton foi punido pela de Silverstone e Verstappen, pelo acidente de Monza). E o campeonato vinha de outro GP, na Arábia Saudita, em que Masi tinha sido um personagem central, punindo Verstappen em três ocasiões.

Não são apenas Mercedes e Red Bull que tiveram problemas com as decisões de Masi durante a temporada. Os pilotos chegaram a ter uma reunião cobrando mais consistência da direção de prova mês passado, no Catar, e Fernando Alonso deixou bastante claro seu descontentamento, dizendo que os pilotos precisavam de um juiz para lutar por eles, e Masi era muito "brando". Após a decisão, Lando Norris disse que a maneira como a prova reiniciada foi um show "para a TV" e Daniel Ricciardo, que era retardatário, estava logo atrás de Verstappen, e não foi instruído a ultrapassar o holandês, se disse "sem palavras, não sei o que pensar do que aconteceu, preciso ver de novo".