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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como a Inglaterra terá um GP com mais de 300 mil pessoas em plena pandemia?

Lewis Hamilton comemora vitória em Silverstone no meio dos torcedores em 2017 - Clive Mason/Getty Images
Lewis Hamilton comemora vitória em Silverstone no meio dos torcedores em 2017 Imagem: Clive Mason/Getty Images
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

14/07/2021 04h00

O GP da Grã-Bretanha, décima etapa do mundial da Fórmula 1, que será disputado neste final de semana, será o primeiro a ter arquibancadas completamente lotadas depois do início da pandemia. Os organizadores esperam entre 315 mil e 350 mil pessoas nos três dias de evento. A etapa anterior, disputada na Áustria, foi a primeira em que o número de ingressos disponíveis era ilimitado, mas como tudo foi decidido nas semanas anteriores ao evento, as arquibancadas não estavam totalmente cheias.

O mais impressionante sobre o caso britânico é que o Reino Unido foi um dos países que mais sofreram com a covid-19 e ainda apresenta um número diário de casos relativamente alto, e mesmo assim um evento deste porte será realizado. No total, 128 mil pessoas morreram em decorrência da covid-19 no Reino Unido desde o início da pandemia, e o número de novos casos está perto de 35 mil por dia, em um país de 68 milhões de pessoas. No Brasil, onde a população é mais de três vezes maior, o número diário de casos está abaixo dos 45 mil.

wembley - Catherine Ivill - UEFA/UEFA via Getty Images - Catherine Ivill - UEFA/UEFA via Getty Images
Final da Eurocopa foi um dos eventos-teste do governo britânico
Imagem: Catherine Ivill - UEFA/UEFA via Getty Images

O GP da Grã-Bretanha será um dos eventos-teste realizados pelo governo britânico e, até aqui, o maior deles no país, depois que 60 mil pessoas puderam ver ao vivo a final da Eurocopa no último domingo em Londres. O uso de máscaras não será obrigatório por se tratar de um evento ao ar livre, mas todos os presentes precisarão apresentar testes de covid negativo feitos pelo menos 48h antes do evento ou um certificado de que tomaram ambas as doses da vacina pelo menos 14 dias antes da prova. O GP acontece um dia da data em que a grande maioria das últimas restrições, que começaram a ser adotadas no Reino Unido, em abril de 2020, vão acabar. As pessoas que estavam trabalhando em casa por todo este período poderão voltar a seus postos, os bares e restaurantes voltarão a funcionar sem limite de clientes, britânicos poderão encontrar pessoas que moram em casas diferentes e cai a obrigatoriedade do uso de máscaras.

País tem quase 90% da população adulta vacinada

Tudo isso só foi possível no Reino Unido devido a uma das campanhas de vacinação de maior sucesso no mundo: até aqui, mais de 87% da população adulta tomou a primeira dose da vacina e mais de 66% está imunizada com ambas as doses. Além disso, testa-se muito no país - o recomendado é que quem está indo trabalhar teste duas ou três vezes por semana - e os testes são gratuitos e de fácil acesso. No caso de testes positivos (e isso continua valendo mesmo após o fim das restrições), a pessoa infectada e todos os seus contatos próximos têm de ficar em isolamento por 10 dias, mesmo se não tiverem sintomas.

É por conta desta combinação de fatores que, embora o número de casos diários esteja em franca ascensão há um mês, quando passou a superar os 10 mil, o número total de pacientes nos hospitais com covid no momento é de menos de 3.000 em todo o país e são registradas por volta de 20 mortes diárias. No Brasil, onde a vacinação começou mais tarde e vem sendo mais lenta, e onde nunca houve um lockdown nacional como o vivido pelo Reino Unido nos quatro primeiros meses deste ano, a média móvel de mortes está acima de 1.000 há mais de 170 dias, e o número de novos casos está acima dos 40 mil.

É este descolamento entre o número de casos e o de pessoas que ficam seriamente doentes por causa da covid-19, gerado pela vacinação em massa, que dá a confiança para o governo britânico liberar esse tipo de evento-teste. Eles começaram ainda em maio, com a liberação de cerca de 20 mil pessoas - limite que foi aumentando ao longo das semanas, com os resultados sendo avaliados pelo governo.

silverstone - Divulgação - Divulgação
Silverstone recebeu duas corridas em 2020, ambas sem público
Imagem: Divulgação

Além da vacinação em si, há outro dado que leva o Reino Unido a entender que é possível fazer eventos de grande porte: diferentemente do que ocorreu no Brasil, 99% das pessoas que morreram com covid-19 no país tinham mais de 50 anos, e esta população já está, em sua grande maioria, imunizada com ambas as doses da vacina.

Ainda assim, a estratégia do governo britânico é vista como de alto risco por parte da comunidade científica, que prevê que o país tenha até 100 mil novos casos por dia no pico do verão, no final de agosto. Muitos estudiosos afirmam que é cedo para acabar com todas as restrições e que o país corre o risco de ter de passar por outro lockdown porque, mesmo que agora uma porcentagem muito pequena fique seriamente doente, se o número total de casos for tão alto alto, é possível que o sistema de saúde não aguente.

Errata: o texto foi atualizado
A média móvel de novos casos oficiais de covid-19 no Brasil está acima dos 40 mil; não abaixo dos 20 mil. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL