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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Você sabia que a F1 vai correr com uma categoria 100% feminina em 2021?

Bruna Tomaselli em carro da W Series - @brunatomaselli/Twitter
Bruna Tomaselli em carro da W Series Imagem: @brunatomaselli/Twitter
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

08/03/2021 04h00

A temporada de 2021 será um marco importante para a participação feminina na Fórmula 1: logo em seu segundo ano de existência, a W Series, exclusiva para mulheres, será uma das três fórmulas que farão as corridas de abertura da categoria máxima do automobilismo.

Isso significa que 20 jovens mulheres, incluindo a brasileira Bruna Tomaselli, estreante na W Seria em 2021, terão a chance de correr na frente de pilotos como Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Max Verstappen e Charles Leclerc, e desfrutar de toda a visibilidade que as categorias de base da F1 —as outras são a Fórmula 2 e a Fórmula 3— têm.

Esse é um marco importante porque o automobilismo é um esporte misto, ou seja, nada impede que mulheres corram na Fórmula 1, o que aconteceu em algumas oportunidades no passado. Lella Lombardi foi a última mulher a disputar corridas, na década de 1970. Giovanna Amati foi a última a tentar se classificar, no início dos anos 1990, e, mais recentemente, Susie Wolff, que hoje é chefe de equipe na Fórmula E, disputou uma sessão de treinos livres em 2014.

No entanto, é uma modalidade em que o desequilíbrio entre o número de pilotos de ambos os sexos já começa muito grande no kart, e esse desequilíbrio acaba aumentando à medida que as categorias vão se afunilando. Historicamente, as pilotos mulheres, além de serem representadas em um número muito inferior, têm mais dificuldade de conseguir patrocínios e lutam contra o descrédito, principalmente no caminho dos carros de fórmula, até a Fórmula 1, haja vista que é mais comum ver mulheres correndo no endurance e no rally.

A W Series busca mudar isso de uma maneira que nunca foi tentada antes: fazendo uma categoria exclusivamente feminina como forma de treinamento e também para dar visibilidade às pilotos. E correr junto com a F1 não poderia ser uma forma melhor de conseguir isso.

''Nunca vi um F1 na vida'', revela piloto brasileira

bruna - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Bruna Tomaselli é a representante brasileira na W Series
Imagem: Reprodução/Instagram

''Antes de mais nada é muito legal estar no mundo da Fórmula 1. Eu nunca vi uma corrida de perto, nunca pude ir a Interlagos. Nunca vi um Fórmula 1 na minha frente, então para mim vai ser tudo muito novo e muito bacana'', contou à coluna Bruna Tomaselli, que é de Caibi, interior de Santa Catarina, e que conquistou a vaga para correr no campeonato do ano passado da W Series, que acabou sendo cancelado devido à covid-19.

''O pessoal da W Series pretende fazer várias atividades junto com a F1, colocando a gente para dar entrevistas junto com os pilotos, o que daria uma visibilidade muito legal'', diz a piloto de 23 anos, que fez kart no Brasil, depois pulou para a Fórmula Júnior, Fórmula Sul Americana e foi correr nos Estados Unidos, na F2000, uma das categorias de base da Indy e que usa carro compatível ao da Fórmula 4 na Europa.

Na W Series, Tomaselli correrá com um carro mais forte, o mesmo usado pela F3 Regional. Esse é um dos objetivos da categoria, que nasceu em 2019: dar a oportunidade de pilotos mulheres andarem com carros de F3, em um campeonato em que as preocupações com o orçamento não são tão presentes quanto em outros. Isso porque as pilotos são selecionadas de acordo com seu desempenho em uma série de testes, e mantêm suas vagas para o ano seguinte também de acordo com as performances. Além disso, todas as participantes ganham premiação em dinheiro para que possam dar continuidade a suas carreiras, abrindo as portas para que elas cheguem com mais experiências aos campeonatos mistos.

E esse é um objetivo a médio prazo para Tomaselli. ''Meu objetivo principal nesse primeiro ano é garantir minha presença no ano que vem, ou seja, ficar entre as 12 primeiras, mas é claro que eu vou atrás de pódios, de andar na frente sempre. Não conheço o carro tão bem quanto as meninas que fizeram a primeira temporada, mas estou treinando muito e vou tentar aprender tudo o que for possível no teste de pré-temporada para chegar bem já para a primeira corrida.''

O teste terá cinco dias, no final de abril, em Valência, na Espanha, e a temporada terá oito corridas, todas elas servindo como abertura da Fórmula 1. O campeonato começa com o GP da França, em Paul Ricard, e depois passa pela Áustria (Red Bull Ring), Grã-Bretanha (Silverstone), Hungria (Hungaroring), Holanda (Zandvoort), EUA (Austin) e México (Hermanos Rodríguez).

Todas as pistas serão novidade para Tomaselli. ''Estou animada para a primeira corrida em Paul Ricard e para andar em Austin também. Mas todo o calendário é muito legal, com traçados que fizeram história na F1 e no automobilismo. Não andei em nenhum deles, o que vai ser um obstáculo, mas eu estou me preparando muito no simulador.''

Com vários campeonatos afetados pela pandemia, a piloto aposta em um misto de testes com um carro de Fórmula 3 no Brasil, participações no Imperio Endurance Brasil (e tornando-se a primeira mulher a vencer na competição nacional), trabalho físico na academia e muito simulador, e já começou a sentir a diferença de fazer parte de uma categoria que corre junto com a F1. ''Com certeza já serviu para dar mais visibilidade para a gente, e isso só deve aumentar quando começar mesmo. As pessoas se surpreendem pela W Series ter conseguido, já no segundo ano, fazer oito etapas abrindo para a F1'', conta Tomaselli.

Mulheres estão ganhando espaço no automobilismo

jamie - Williams/Divulgação - Williams/Divulgação
Jamie Chadwick foi campeã da primeira edição da W Series e é piloto de desenvolvimento da Williams
Imagem: Williams/Divulgação

De fato, isso é um sinal dos tempos para a categoria máxima do automobilismo, que vem buscando ampliar seu público principalmente desde que os direitos comerciais passaram para as mãos da Liberty Media. Uma das primeiras medidas para deixar o esporte mais alinhado com a sociedade foi substituir as chamadas grid girls, modelos que seguravam as bandeiras e números dos pilotos no grid, por crianças (na maioria dos países, kartistas), com a ideia de mudar a percepção das mulheres em relação a sua participação no esporte.

A Federação Internacional de Automobilismo também vem atuando diretamente para fomentar a participação feminina no esporte, com a comissão Women in Motorsport (Mulheres no Automobilismo), além da criação do FIA Girls On Track (Garotas na Pista), focado em promover campos de treinamento para pilotos mulheres, em parcerias com equipes de Fórmula 1. No primeiro ano desse tipo de ação, a Ferrari acabou contratando a piloto Maya Weug para fazer parte de sua academia de pilotos. Quando passou pela avaliação do programa ferrarista, entre o final do ano passado e o começo de 2021, Maya obteve o melhor desempenho já visto no conjunto de testes aplicados pela Ferrari a pilotos de sua academia, que formou Jules Bianchi, Charles Leclerc e Mick Schumacher para a F1.

A W Series também tem um nome que já chama a atenção: Jamie Chadwick, campeã da primeira edição do campeonato, em 2019, é piloto de desenvolvimento da Williams e vai correr na Extreme E, categoria de SUV elétricos que estreia em abril deste ano e que conta com duplas mistas de pilotos. O campeonato da W Series começa dia 26 de junho.