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Grosjean: "O que me faz chorar é saber que pensaram que eu estava morto"

Grosjean conversa com o médico Ian Roberts (dir) e o piloto do carro médico Alan van der Merwe -  Andy Hone / LAT Images
Grosjean conversa com o médico Ian Roberts (dir) e o piloto do carro médico Alan van der Merwe Imagem: Andy Hone / LAT Images
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

04/12/2020 09h22

Dois minutos e 42 segundos. Romain Grosjean repetiu esse número algumas vezes durante a meia hora de entrevista coletiva que concedeu nesta sexta-feira no Bahrein. Esse, claro, não é o período que ele ficou no carro em chamas no acidente do último domingo. Mas, sim, o que tem sido mais difícil para ele: foi o tempo decorrido entre a batida e a primeira imagem dele saindo do carro. "O mais difícil, para mim, não é o que eu vivi. Esta é a minha vida, meu trabalho, e o risco que assumimos. Mas, sim, o que eu fiz as pessoas passarem. Minha família, meus pais, minha esposa, meus filhos, meus amigos. Por dois minutos e 42 segundos eles acharam que seu pai, seu marido, seu filho, seu amigo, estava morto. E é nisso que eu estou trabalhando porque é o que me faz chorar: que eu fiz com que pessoas que eu amo sofressem tanto."

Perguntado pelo UOL Esporte sobre como tem trabalhado a questão psicológica após um acidente que ele mesmo disse ter sido o mais forte que já viu na vida, Grosjean destacou o trabalho do grupo de profissionais que o acompanha há oito anos e que já o ajudou muito na carreira. "Tivemos uma sessão na terça-feira e temos outra hoje. Eles me disseram que terei estresse pós-traumático, então precisamos tratar disso rapidamente. Até o momento, não tive nenhum pesadelo, nenhum flashback e posso descrever tudo o que eu passei de maneira calma. Mas preciso trabalhar essa questão de ter feito as pessoas que eu amo sofrerem."

Grosjean também tem agido como uma espécie de psicólogo para os pilotos. Ele disse que Sebastian Vettel, Louis Deletráz (piloto suíço da F2 e reserva da Haas) e Kevin Magnussen foram ao hospital vê-lo ainda no domingo, e Esteban Ocon e Alex Albon foram outros que estiveram por lá. "Senti que deveria tranquilizá-los e me certificar que eles estejam prontos para correr de novo neste final de semana. É isso que eu senti que eu tinha de fazer. Eles estavam muito contentes em me ver, e me coloquei à disposição de todos para que perguntassem o que quisessem. Falei o mesmo para os pais de alguns pilotos, disse que eles poderiam me ligar a qualquer momento, e os filhos também."

grosjean -  Andy Hone / LAT Images -  Andy Hone / LAT Images
Grosjean conversa com o chefe Guenther Steiner ao lado da mulher, Marion, no paddock no Bahrein
Imagem: Andy Hone / LAT Images

Falando nos filhos, Grosjean contou que sua primeira reação foi pensar que o pai voltaria desfigurado, por conta do fogo, para casa. O francês tem três filhos: Sacha, de 7 anos, ficou meia hora na frente de sua sala de aula respondendo a todas as dúvidas das outras crianças. Simon, de 5 anos, está convencido que uma "redoma de amor" protegeu o pai no fogo e tem certeza de que seu pai saiu do carro voando. E a mais nova, Camille, de 3 anos, não fala muito sobre o acidente, mas manda desenhos todo dia para o pai, acreditando que eles estão ajudando as queimaduras nas mãos a melhorarem. "Mas ontem [quarta-feira] eu liguei para casa, eles estavam brincando e nem quiseram me ver. Acho que foi a primeira vez que fiquei feliz por eles não ligarem para mim. Isso quer dizer que estão de volta a suas vidas normais."

"O mais difícil foi quando meu corpo relaxou"

Nos primeiros seis minutos de entrevista, Grosjean explicou, com detalhes, tudo o que viveu no acidente do último domingo, quando ele tirou seu carro para o lado direito sem ver que Daniil Kvyat estava ao seu lado, tocou na AlphaTauri do russo e indo reto para o guard rail a 222km/h. O ângulo da batida fez com que o cockpit perfurasse a proteção e dividiu o carro em dois, expondo o tanque de combustível e as baterias do carro, e causando um incêndio que não se via há décadas em acidentes na F1.

"Vou trazê-los de volta àqueles 28s [em que ficou dentro do carro em chamas]: primeiramente, para mim, a impressão é de que tudo demorou mais ou menos 1min30. Quando o carro parou, eu abri meus olhos e bati no cinto. Eu não lembrava depois o que tinha feito com o volante, mas me falaram que ele tinha caído, assim como a barra de direção, no meio das minhas pernas. Eu tentei sair e senti que tinha algo tocando a minha cabeça. Então resolvi esperar. Meu primeiro pensamento foi 'estou perto do muro, de cabeça para baixo, vou esperar alguém me ajudar a sair.' Não tinha noção de que havia fogo, não estava estressado. Aí eu olhei para os lados e vi que havia fogo e pensei 'não tenho tempo para esperar'."

Grosjean, então, tentou sair, novamente, pelo lado direito e pelo lado esquerdo, sem conseguir. Foi quando ele pensou no acidente de Niki Lauda, que ficou preso em um carro em chamas em acidente em 1976, e sobreviveu. "Pensei que não poderia acabar assim e tentei de novo. Foi aí que veio o momento mais difícil, quando meu corpo relaxou, eu fiquei em paz comigo mesmo, achando que ia morrer. Começo a pensar 'vai queimar meu pé? Minha mão? Vai ser dolorido? Como vai começar?` e então penso nos meus filhos. 'Eles não podem perder seu pai hoje'. E não sei por que tive a ideia de tentar pela esquerda virando meu ombro. Isso meio que funcionou, mas percebi que meu pé estava preso. Então voltei a sentar, puxei o mais forte que eu podia e o pé saiu da sapatilha."

Grosjean, então, tentou sair novamente pelo lado esquerdo e teve de colocar as duas mãos no fogo. "Minha luva é vermelha, e estava vendo que ela estava mudando de cor e senti a dor, e ao mesmo tempo a alívio de estar saindo do carro. Foi quando eu senti alguém puxar meu macacão, então eu sabia que não estava mais sozinho", contou, referindo-se ao momento em que o Dr. Ian Roberts o puxa para fora do fogo. "Eles começam a bater nas minhas costas, então achei que era uma bola de fogo ambulante, como nas cenas que a FIA mostra para a gente para provar que o macacão é forte. Minhas mãos estavam doendo, então eu tiro as luvas rapidamente para evitar que a pele saísse junto porque veio na minha cabeça a imagem de que a pele estava borbulhando, derretendo, e grudando na luva."

Quando Dr. Roberts começou a dar palavras de ordem para ele e Grosjean reclamou, pedindo que o médico "fale normalmente, por favor", o piloto imagina que "foi quando o Dr. Ian entendeu que eu estava normal", brincou.

Grosjean contou ainda que primeiramente sentia muita dor no pé esquerdo, que achou que estivesse quebrado. "As mãos ainda não incomodavam tanto." Mas, ainda assim, fez questão de ir andando para a ambulância, mesmo indo contra a determinação do Dr. Roberts. "Acho que não foi o mais indicado a fazer do ponto de vista médico, mas eu fiz questão de sair andando porque eu tinha que passar essa imagem de que eu estava bem."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.