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Acidente grave e espera marcam caminhada diferente de Fittipaldi até a F1

Pietro Fittipaldi, piloto reserva da Haas - James Bearne/Getty Images
Pietro Fittipaldi, piloto reserva da Haas Imagem: James Bearne/Getty Images
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

01/12/2020 04h00

Seria difícil de imaginar que a primeira oportunidade de Pietro Fittipaldi na Fórmula 1 seria em condições normais, estreando na primeira corrida do ano depois de uma pré-temporada toda planejada. Afinal, sua carreira não tem muitos paralelos com as dos pilotos com os quais vai dividir o grid neste domingo, no GP de Sakhir, como substituto de Romain Grosjean, que se recupera de um acidente impressionante sofrido no último domingo.

É uma história de perseverança, que começa como curiosidade lá aos 4 anos, quando ele começou a andar de kart mais para brincar de copiar os tios Christian e Max Papis, mas que teve um momento marcante em 4 de maio de 2018, que mudaria sua trajetória. Pietro vinha numa crescente na carreira. Depois de começar a correr com carros em 2011, aos 14 anos, vencendo um campeonato da Nascar nos EUA e se mudar para a Europa, ele tinha tido resultados mais regulares até dominar a temporada de 2017 da World Series. E, para o ano seguinte, tinha montado um calendário ousado, disputando etapas na Indy, Mundial de Endurance, turismo alemão e Super Fórmula Japonesa. Basicamente não haveria carro rápido no mundo com que ele não correria naquele ano. A não ser seu grande objetivo: a F1.

Mas os planos tiveram de ser interrompidos quando ele teve fraturas sérias nas duas pernas depois que uma pane no carro o fez ir reto na Eau Rouge, no circuito de Spa-Francorchamps, na Bélgica, uma das curvas mais famosas do mundo. "Chegamos a pensar que era o fim", contou seu pai Gugu da Cruz, durante live nesta segunda-feira. "Esse menino nunca chorou, nunca pediu ajuda para nada. Ele se arrastava [apoiado] pelas mãos e não queria ajuda [...] a determinação desse menino é?", se emociona. Pietro não apenas se recuperou, mas muito mais rapidamente do que o esperado. Afinal, motivação não faltava.

Foi justamente nessa época que começaram os contatos com Guenther Steiner, chefe da Haas. Pietro estava de volta à Califórnia, nos Estados Unidos, perto de onde é a fábrica da Haas. Steiner procurava um piloto que topasse se dedicar ao projeto de desenvolver o simulador do time, e Pietro buscava uma relação com a F1. O chefe da Haas acompanhou a recuperação do brasileiro de perto, o viu voltar a pilotar, na Indy, antes mesmo que pudesse andar normalmente. Contente com o que viu nas pistas, decidiu assinar com o brasileiro em novembro. Poucas semanas depois, ele andava de Fórmula 1 pela primeira vez, em teste realizado em Abu Dhabi.

pietro pernas machucadas - Reprodução - Reprodução
Pietro Fittipaldi em recuperação após acidente em maio de 2018
Imagem: Reprodução

Curiosamente, na época, Pietro nem estava liberado pelos médicos para correr. Isso só viria no início de 2019. "O que importa é que, no carro, estou 100%. É o mais importante para mim", contou ao UOL Esporte na época.

Mas virar piloto de testes de Fórmula 1 tinha um ônus importante: o calendário atribulado significava que Pietro teria de abdicar de competir. Essa determinação quase cega de chegar na F1 impressionou Steiner, e tem muito a ver com sua resposta no último domingo, quando perguntado pelo UOL Esporte qual seria o plano B caso Grosjean não pudesse correr. "Já sabemos o que vamos fazer." Ele sempre deixou claro que retribuiria o esforço do brasileiro.

"Ele realmente quer fazer isso", disse Steiner ao UOL Esportepouco antes do segundo teste de Pietro, na pré-temporada de 2019. "Há muitos pilotos jovens que não querem esse papel de piloto de testes porque você não fica sob os holofotes. Eles preferem fazer a F2 ou a F3, querem correr, enquanto ele quer realmente experimentar a F1 de maneira que some algo à equipe. É difícil encontrar pessoas nessa idade que queiram fazer isso. Eles falam ?eu quero correr para mostrar que sou bom?. Acho que ele é bem confiante em relação a sua capacidade e quer aprender mais sobre a F1. É difícil conseguir uma vaga, então acho que é uma maneira genuína de tentar."

pietro teste - Andy Hone/Haas F1 Team - Andy Hone/Haas F1 Team
Pietro Fittipaldi, aqui com Guenther Steiner, testou na pista com a Haas em 2019
Imagem: Andy Hone/Haas F1 Team

Pietro até chegou a sonhar com uma vaga de titular quando Grosjean e Kevin Magnussen tiveram uma temporada ruim em 2019, mas a equipe decidiu optar por manter dois pilotos experientes e que traziam investimentos para o time em 2020, buscando sair das últimas posições. Porém, o brasileiro teve a chance de conseguir competir na F3 Asia no início de 2020 e somar os últimos pontos que faltavam para sua superlicença, uma espécie de CNH para a F1. Com isso, conseguiu uma "promoção" importante: de piloto de testes se tornou piloto reserva, estando apto a substituir um dos titulares. E a chance chegou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.