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Ocon torcia contra, e agora vai dividir time com Alonso: "Estou preparado"

Esteban Ocon ficou de fora do grid em 2019, mas voltou em 2020 com a Renault - XPB / James Moy Photography Ltd.
Esteban Ocon ficou de fora do grid em 2019, mas voltou em 2020 com a Renault Imagem: XPB / James Moy Photography Ltd.
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

21/11/2020 04h00

Sua família vendeu a casa e foi viver em um motorhome, uma espécie de lar sobre rodas, indo de circuito a circuito, para que ele não parasse de correr. Não sobrava dinheiro em uma carreira inteira baseada em ir bem em uma competição para buscar patrocínio para o ano seguinte. Isso criou uma casca que Esteban Ocon está colocando à prova, enquanto já começa a trabalhar com o novo contratado da Renault (e ex-rival de seu ídolo), Fernando Alonso, um notável "destruidor" de companheiros.

O UOL Esporte falou com exclusividade com o francês de 24 anos, que retornou ao grid neste ano com a Renault, e acredita que as dificuldades por que passou na carreira no passado só o tornaram mais forte.

UOL Esporte: Noto que você é sempre muito educado quando lida com os jornalistas, sempre chamando-os pelo nome, o que é bastante incomum entre os pilotos. É algo que você presta atenção também em sua relação dentro da equipe e houve um momento em que percebeu o quanto era importante na F1 ter boas relações interpessoais?

Esteban Ocon: É a maneira como eu fui educado. Acho que é importante respeitar e ser educado com todo mundo e foi isso que minha família me ensinou desde cedo. Tentei manter isso e continuar o mesmo, ainda que no nosso esporte a gente encontre muitas pessoas o tempo todo, gente nova o tempo todo, mas acho que lembrar os nomes é importante por uma questão de respeito. E, dentro da equipe, é normal que, se o clima não é bom e o cara não é bacana, não dê para trabalhar tão bem porque passamos muito tempo fora de casa e, se for difícil trabalhar com determinada pessoa, é difícil também que ela continue. Ter uma boa relação com a equipe e com os outros pilotos é crucial.

UOL Esporte: Falando em criação, você vem de uma família que não era rica. Você acredita que, se estivesse começando hoje, teria chegado à F1?

Esteban Ocon: É uma boa pergunta. Acho que a situação está indo para uma direção em que é cada vez mais difícil. Claro que já era muito caro na minha época e não acho os valores em si tenham aumentado muito. Mas o que sinto que é diferente é que o apoio que você tem das equipes já não é o mesmo. Minha carreira inteira foi bancada por equipes e por pessoas que acreditavam em mim, caso contrário, não teria conseguido seguir adiante. Pelo que ouço por aí, não é mais tão simples e acho isso triste. Espero que sejam encontradas soluções e bons pilotos possam continuar chegando na F1 por merecimento.

UOL Esporte: Mas o que você acha que poderia ser feito para garantir isso? Lewis Hamilton fala muito em criar um teto de gastos para as categorias de base e também um sistema para garantir que as crianças continuem na escola?

Esteban Ocon: Os preços estão muito altos. É muito caro chegar à F1. Criar um teto seria o melhor mas, na realidade, ainda assim seria uma quantia enorme de dinheiro à qual as pessoas normais, com empregos normais, não teriam acesso. O que se gasta atualmente é, em um ano, todo o dinheiro que as pessoas normais ganhariam na vida. Isso, só para começar nas categorias de fórmula. Não sei o que poderia ser feito, mas tenho certeza que a FIA está vendo o que é possível fazer.

UOL Esporte: Você disse que o apoio que teve na base foi fundamental para a sua carreira. Você foi subindo cada degrau com muita dificuldade devido a essa questão financeira, ao contrário de outros pilotos da sua geração, como Charles Leclerc, por exemplo, que teve o apoio de empresário e marcas fortes desde o kart, o que foi fazendo com que ele sempre estivesse nas melhores equipes e tendo as melhores condições para se desenvolver. Você sente que isso ainda é uma desvantagem para você hoje?

Esteban Ocon: Acho que não, porque, olhando por outro lado, minha carreira sempre foi decidida pelo que estava fazendo na pista, pelos meus resultados. Se eu não merecesse um lugar no ano seguinte, e foi assim desde o kart, eu estava fora. E isso foi algo que eu compreendi desde cedo. Não tinha margem para erro o tempo todo. Tinha que vencer em qualquer oportunidade que tinha, e consegui fazer isso com o que tinha em mãos. Consegui a oportunidade na F1, o que foi um alívio, e agora cabe a mim fazer um bom trabalho. Tenho um grande contrato multianual e um grande desafio com a Renault. Então não acho que carrego, hoje, essa desvantagem.

UOL Esporte: Isso apenas o tornou mais forte agora.

Esteban Ocon: Exatamente.

ocon alonso - XPB / James Moy Photography Ltd. - XPB / James Moy Photography Ltd.
Fernando Alonso (terceiro da esq à dir) faz reconhecimento da pista de Imola com Ocon (segundo da dir à esq)
Imagem: XPB / James Moy Photography Ltd.

UOL Esporte: Você está no time de Vettel, Albon, entre aqueles que gostavam muito do Schumacher na infância, certo?

Esteban Ocon: Sim, muito!

UOL Esporte: Então você torceu contra seu futuro companheiro de equipe?

Esteban Ocon: (ri e olha para trás) Sim? ele está aqui atrás, inclusive! Mas, sim!

UOL Esporte: Então não vamos falar mais disso...

Esteban Ocon: Exatamente (rindo)! Eu torcia para o Michael, com certeza. Mas é uma grande honra trabalhar com o Fernando agora. Ele é uma lenda, já venceu com essa equipe, o que é algo de que todo mundo aqui tem muito orgulho. Ele está de volta à equipe que o fez vencer seus dois títulos. É incrível ver como todo mundo está feliz e como o clima da equipe está no momento. É muito bom.

UOL Esporte: Mas Fernando tem a reputação de acabar com seus companheiros de equipe, ir lentamente colocando as equipes por que corre do seu lado. Lembro da diferença na postura e na confiança do Felipe Massa quando ele estava na Ferrari ao lado dele, e depois quando foi para a Williams. E ele dizia que não era fácil lidar com a consistência do Fernando: toda vez que eles iam para a pista, ele conseguia tirar aquele algo a mais e isso ia minando a confiança dele. Como você pode se preparar para isso?

Esteban Ocon: Estou preparado. Ter dois companheiros de equipe como tenho no momento é fantástico [referindo-se a Daniel Ricciardo e ao próprio Alonso, que já trabalha no simulador e no dia a dia da equipe] porque, quando você está na F1, quer correr contra os melhores, e ter dois dos melhores pilotos do grid como companheiros seus em anos consecutivos só pode fazer com que você evolua. Ainda sou jovem, estou vindo de um ano fora da F1, e estou vendo que estou melhorando e chegando lá aos poucos e ainda penso que posso entregar mais do que tenho feito.

Não sei como você pode se preparar, mas isso não tem mudado como eu me sinto e o quão pronto estou para atacar a próxima temporada. Eu sempre senti que a segunda temporada em uma mesma equipe é bem mais fácil. Foi assim na Force India e deve ser assim também na Renault ano que vem. Estou confiante. Contando que você tenha confiança em si mesmo, não há nada que possa te parar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.