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Vitória de Senna com problema de câmbio no Brasil não impressionou Alonso

Ayrton Senna no topo do pódio do GP Brasil em 1991 - Divulgação
Ayrton Senna no topo do pódio do GP Brasil em 1991 Imagem: Divulgação
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

10/05/2020 04h00

Enquanto a Fórmula 1 não inicia sua temporada, uma das corridas mais marcantes da carreira de Ayrton Senna foi reprisada hoje (10) pela Rede Globo: a primeira vitória do brasileiro no GP Brasil, em 1991. A conquista tomou ares de heroísmo depois que Senna teve problemas de câmbio que foram se agravando até que, com oito voltas para o final, ele só podia usar a sexta marcha. Um feito considerado impressionante para muitos, mas não necessariamente para Fernando Alonso.

Perguntado se seria possível pilotar só com a sexta marcha como fez Senna na pista de Interlagos, Fernando Alonso minimizou. "Depende. Se seu carro é dois segundos mais rápido que os demais por volta, dá para ganhar só com a sexta marcha", disse o espanhol, em entrevista concedida em 2018, ano de sua última corrida no circuito paulistano.

Se estava se referindo ao carro guiado pelo brasileiro em 1991, Alonso exagerou. A McLaren de Senna já não tinha o domínio de 1988 e 1989. Naquela temporada, foi a maior consistência e confiabilidade do conjunto McLaren-Senna que permitiu o tricampeonato frente a uma Williams que começava a despontar como o monoposto dominante que seria nos anos seguintes. A pole do brasileiro para aquela prova foi conquistada com uma vantagem de menos de meio segundo para as duas Williams, e menos de 1s5 para as Ferrari.

A reprise foi uma oportunidade de relembrar também como a tecnologia mudou a Fórmula 1, desde as diferenças muito mais marcantes entre os carros até os pit stops, bem mais lentos. Será a chance também de ver pilotos que entraram para a história do esporte, como Alain Prost, Nelson Piquet, Nigel Mansell e Mika Hakkinen em ação.

O que Senna teve de enfrentar?

O problema do câmbio da McLaren de Senna foi aparecendo aos poucos, quando ele já tinha uma boa vantagem na liderança. Com cerca de 35 voltas para o fim, a quarta marcha começou a falhar. Depois, o piloto perdeu a terceira e a quinta e decidiu manter-se na sexta até o fim. Para controlar o carro em um circuito com curvas de baixa e média velocidades como Interlagos, a solução era entrar nas curvas com a maior velocidade possível, mesmo sabendo que a saída da curva seria prejudicada pelo carro não estar na marcha correta para retomar a potência.

"Foi uma corrida memorável para mim. É um dia que vai ficar na minha memória por toda a minha vida", disse Senna, logo após sua primeira vitória no GP Brasil.

"Na metade da corrida, a quarta marcha começou a pular, e, com 20 voltas para o fim, eu perdi totalmente a quarta. Complicou muito, porque para pular da terceira para a quinta tinha que fazer um esforço tremendo no braço. Comecei a ter dores no pescoço, nos ombros e nos braços. Aí, de repente, fiquei sem a quinta e a terceira faltando sete ou oito voltas para o final. Tentava colocar as outras e ia para o ponto morto. Só a sexta funcionou. Aí fui em sexta nas últimas sete voltas", completou.

Há quem duvide do feito, mas uma câmera mostra que Senna não tira a mão do volante nas últimas voltas para acionar o câmbio e, quando desacelera para pegar a bandeira brasileira e comemorar a vitória, como de costume, as rotações caem demais, e o motor acaba morrendo.

O próprio Senna chegou a pensar que seria impossível completar a prova. "Nas retas, tudo bem, mas nas curvas meu esforço para segurar o carro era maior ainda porque o motor jogava o carro para fora no meio das curvas e as rotações caíam demais na saída das curvas", afirmou, na ocasião.

"Eu vi que o Patrese estava chegando e tentei mudar o estilo de guiar, mas, para isso, eu tinha que entrar mais forte ainda nas curvas, segurar mais ainda, literalmente, nos braços. E no final, começou a garoar e eu quase fui reto na primeira curva depois da reta dos boxes. Achei que não ia ganhar nas últimas três, duas voltas. Pensei: 'Se der, vai ser no grito'. Demorei tantos anos para chegar a isso e escutei tanto que agora vai ter que dar porque Ele é maior do que tudo e Ele vai me dar essa corrida. E foi isso. Deus me deu essa corrida", continuou.

A vitória em casa de forma tão heroica teve também uma pitada de sorte, já que aquele que viria a ser o grande rival na disputa pelo campeonato de 91, Nigel Mansell, viu seu carro quebrar a 11 voltas do fim, quando estava a 18s de Senna. Levando em consideração que o companheiro Mansell, Riccardo Patrese, descontou, nas mesmas 11 voltas, mais de 37s da vantagem do brasileiro mesmo também tendo sofrido com o câmbio, seria muito difícil para Ayrton defender-se do inglês.

Não foi algo único na Fórmula 1. Três anos depois, por exemplo, Michael Schumacher fez dois terços do GP da Espanha apenas com a quinta marcha e chegou em segundo. Mas um feito não tira o brilho do outro. O próprio Alonso mudou de tom quando perguntado pelo UOL Esporte sobre o GP da Malásia de 2010, quando também teve problemas de câmbio.

"Sim, aconteceu comigo. Não foi exatamente a mesma coisa, mas perdemos a segunda e a quarta marchas. Eu passei a corrida toda pulando da primeira para a terceira e para a quinta. Ainda assim, consegui me manter em quinto na corrida e brigando acho que com o [Jenson] Button [a luta era mesmo com o inglês, mas pelo oitavo lugar, e o que Alonso relatou na época é que tinha perdido a embreagem] até o motor parar no final. Mas depende de quão competitivo é o carro e do tamanho da vantagem que você tem em comparação com os carros que estão ao seu redor", declarou.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que informado anteriormente, o piloto se chama Jenson Button e não Jason. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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