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Chefe revela como Mercedes o ajudou a "sair do buraco" após morte da mulher

James Allison é diretor-técnico da Mercedes desde 2017 - LAT Images
James Allison é diretor-técnico da Mercedes desde 2017 Imagem: LAT Images
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

30/04/2020 04h00

Os engenheiros da Fórmula 1 passam a imagem de frieza e controle, trabalhando em um universo de enorme competitividade e precisão. Talvez por isso seja tão raro ouvi-los falar de momentos em que pensaram em desistir de tudo. O diretor-técnico James Allison, um dos homens mais poderosos da Mercedes, time que venceu seis campeonatos de pilotos e construtores nos últimos seis anos, revelou como ter sido contratado pelo time logo depois de passar pelo pior momento da vida foi fundamental para a volta por cima.

Allison era diretor-técnico da Ferrari quando sua mulher, Rebecca, morreu repentinamente com meningite, aos 47 anos, em 2016. O casal estava junto desde a época de escola, e tinha três filhos, ainda crianças. O engenheiro, então com 48 anos, decidiu deixar o time italiano e voltar para a Inglaterra para cuidar dos filhos. E não sabia se retornaria ao grid.

james allison ferrari - Mark Thompson/Getty Images - Mark Thompson/Getty Images
Allison foi contratado pela Ferrari em 2013 e saiu em 2016
Imagem: Mark Thompson/Getty Images

Não demorou para que ele recebesse o telefonema de Toto Wolff, chefe da Mercedes, oferecendo o posto máximo do parte técnica do time que estava caminhando para seu terceiro título. E, seis meses depois da morte da esposa, resolveu aceitar, mesmo não sabendo ao certo se teria condições de assumir o cargo.

"Não sabia o que era a coisa certa a fazer naquele momento. Grande parte de mim só queria se enterrar em um buraco e nunca sair de lá novamente. Foi Toto quem me deu essa oportunidade e eu esperava que, com o passar do tempo, começaria a sentir vontade de interagir com o mundo novamente. E, no momento em que entrei na fábrica em Brackley, me senti um pouco mais forte e, percebendo que, mesmo com toda a dor de ter perdido a Becky, ainda seria útil. Anos depois, espero ter feito com que aquela aposta de Toto em mim tenha sido boa."

Mesmo que ter voltado ao trabalho tenha dado uma injeção de ânimo a Allison, o engenheiro revelou ter sido importante o fato da Mercedes ter lhe colocado em uma posição confortável para viver seu luto enquanto comandava o corpo técnico de uma equipe de quase mil membros. E, no final das contas, o ritmo e as pressões da temporada acabaram ajudando-o a reencontrar seu norte.

"Eu estava um caco - na verdade, ainda hoje, quatro anos depois, estou de luto - mas, na época, eu chorava no carro na ida e na volta do trabalho. Eu esperava ser útil novamente no trabalho, esperava que me encontraria novamente e que poderia encontrar um mundo que fizesse sentido para mim depois da morte da Rebecca. Mas era mais uma esperança do que uma certeza", revelou em entrevista ao canal oficial da Mercedes.

"O que faz com que eu me sinta particularmente grato à Mercedes é que, em um momento da minha vida em que tudo tinha sido virado do avesso e nada parecia ser normal, a parte mais familiar da minha vida se tornou meu trabalho. O ritmo da temporada, a pressão para que o carro renda bem e esteja sendo bem desenvolvido, isso deu uma sensação de normalidade para minha vida naquele momento. E eu tive muita sorte de entrar em uma equipe cheia de pessoas de bom coração e que não precisavam de mim naquele momento, mas me receberam de braços abertos. Eles fizeram com que eu me sentisse bem-vindo, criaram um ambiente em que eu pudesse me encaixar e ser útil. Então eu pude passar pela fase de luto e me recuperava ao mesmo tempo em que trabalhava com as pessoas mais brilhantes do grid."

Sob o comando de Allison, a Mercedes venceu os campeonatos de pilotos de 2017, 2018 e 2019, com Lewis Hamilton, e também o de construtores; todos por antecipação.

A equipe demonstrou na pré-temporada deste ano que novamente possui um ótimo carro, mas o campeonato da F-1 está em compasso de espera devido ao coronavírus. O plano com o qual a categoria trabalha no momento é de fazer os primeiros GPs em julho, com portões fechados, na Áustria.

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