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Paulo Anshowinhas

REPORTAGEM

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Prata olímpico, Kelvin fala sobre projetos digitais, manobras e polêmicas

O skatista Kelvin Hoefler primeiro medalhista olímpico em Tóquio 2021 - Divulgação
O skatista Kelvin Hoefler primeiro medalhista olímpico em Tóquio 2021 Imagem: Divulgação
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Paulo Anshowinhas

Paulo Anshowinhas é skatista pioneiro, jornalista, radialista e comunicador. Foi juiz do Mundial de skate da Alemanha, chefe da delegação no Mundial do Canadá, comentarista do X Games e fundador da revista Yeah! Skate is my life.

Colunista do UOL

01/01/2022 04h00

O skatista paulista Kelvin Hoefler fez história e deu orgulho ao país e ao skate, ao se tornar o primeiro medalhista brasileiro nas Olimpíadas de Tóquio desse ano, conquistando a prata no street skate, modalidade estreante nos Jogos.

Nascido no Guarujá, litoral sul de São Paulo, Kelvin, filho de dona Roberta e do Sr. Enéas, policial militar, começou a andar de skate aos 8 anos dentro de casa. Para desespero da mãe e dos vizinhos, o garoto construía rampas improvisadas para treinar.

Kelvin Hoefler aos 9 anos de idade em inicio de carreira - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Kelvin Hoefler aos 9 anos de idade em inicio de carreira
Imagem: Arquivo Pessoal

Casado com a fotógrafa e skatista Ana Paula Negrão, Kelvin alterna residência entre Los Angeles e Guarujá e diz que "sem o skate, ele não seria ninguém", pois foi onde ele encontrou a paz de espírito.

Em sua bagagem pré-olímpica, Kelvin garantiu em sua estante espaço para seis mundiais de street pela World Cup Skateboarding, foi campeão da Street League, campeão do Tampa Pro e do Dew Tour, e conquistou duas medalhas de ouro no X Games.

Kelvin gosta de MMA e tem amigos que são grandes feras dos ringues como Jose Aldo, Minotauro, Werdum e Charles Oliveira, o Charles Do Bronx, que conquistou o cinturão dos leves no UFC recentemente.

É também amigo do apresentador do Masterchef Henrique Fogaça, chef de cozinha renomado que nas horas vagas também anda de skate.

Com a conquista da prata no Japão, Kelvin foi homenageado com um personagem de Maurício de Souza. Ao retornar do país asiático conheceu Gil do Vigor —durante um belo café da manhã com Ana Maria Braga—, que comentou em sua conta no Instagram "Café bom da p###".

Hoje aos 28 anos, continua firme na disputa de importantes títulos internacionais, até mesmo com crianças, e tem projetos para encarar o ciclo olímpico até os 35 anos.

Patrocinado por marcas nacionais e estrangeiras como Banco BV, Monster, Cariuma, G-Shock e Powell Peralta, Kelvin tem mais de 900 mil seguidores no Instagram e concedeu essa entrevista ao UOL Esporte mostrando seu lado determinado, e ao mesmo tempo humilde e moderno. O medalhista olímpico falou de forma leve sobre novos talentos, Olimpíadas, NFTs, games, surfe e sobre algumas polêmicas como as discussões com a skatista Letícia Bufoni e com a Confederação Brasileira de Skate.

UOL Esporte - Quem é o Kelvin Hoefler?

Kelvin Hoefler - Eu sou um mero skatista do litoral paulista do Guarujá. Eu ando de skate faz 20 anos, comecei com meus 8 anos de idade, gosto muito de andar de skate, sem o skate eu não seria ninguém, porque foi onde eu encontrei minha paz de espírito.

UOL Esporte - Depois de seis meses da conquista da medalha de prata, o que mudou na sua vida? O que mudou no skate?

Kelvin Hoefler - A mídia hoje em dia está bem voltada ao skate, antes a gente não tinha isso. Mas eu também não tinha essa ideia de onde o skate iria chegar. Sendo o primeiro medalhista em Tóquio, depois da pandemia, três anos de classificatória, muita coisa rolando, eu fui muito focado, graças a Deus, eu consegui representar muito bem o Brasil e o skate em geral.

Kelvin Hoefler em seus primeiros vôos no litoral de São Paulo - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Kelvin Hoefler em seus primeiros vôos no litoral de São Paulo
Imagem: Arquivo Pessoal

UOL Esporte - Você estava esperando o ouro ou a prata estava de bom tamanho?

Kelvin Hoefler - Eu queria pegar uma medalha, isso era fato. Eu gostaria muito de subir no pódio e levantar a bandeira, eu fui com essa expectativa. Eu tenho aquele lema, degrau após degrau, sabe? Eu queria ir pra final, depois da final, eu queria estar no pódio, no pódio, eu queria o ouro, e fiquei naquele intermediário, em segundo.

UOL Esporte - Você pretende estar nas Olimpíadas de 2024, na França?

Kelvin Hoefler - Sim, eu quero, e é uma meta minha também. Eu estou me preparando desde já. Depois dos Jogos, tirei um tempo para descansar, pois foram aqueles três anos intensos, então, eu fiquei tranquilo, não quis saber muito daquelas coisas de competição. Eu queria mais descansar a mente. Eu nunca tinha passado por isso antes, então, eu tirei esse tempo mas depois disso, uns dois três meses, eu voltei à ativa pensando em Paris 24.

UOL Esporte - Como você vê a concorrência com crianças, como, por exemplo, o pequeno Ginwoo Onodera, skatista japonês de apenas 11 anos de idade?

Kelvin Hoefler - Cara, eu conheci (o Ginwoo) e fui jurado do Tampa Amador, onde eu o julguei um mês atrás. O moleque é muito bom, se ele tem capacidade por ter 11 anos, 8 anos, 60 anos... se tiver capacidade e mostrar o seu skate, for uma pessoa respeitosa e mostrar o skate de uma forma boa, eu acho que idade não importa. Mas eu acredito que os japoneses vão chegar muito forte de agora em diante.

Kelvin Hoefler e um dos seus primeiros troféus de skate - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Kelvin Hoefler e um dos seus primeiros troféus de skate
Imagem: Arquivo Pessoal

UOL Esporte - E como está a história com a Letícia Bufoni? Está tudo em paz?

Kelvin Hoefler - Cara, eu não tenho nada contra a Letícia. Ela que falou as coisas, então, eu não tenho de falar nada. Ela que falou as coisas, então, eu estou tranquilo. Eu fiz o meu trabalho, e ela tem de fazer o dela. Não tenho nada contra ela.

UOL Esporte - E com a CBSK, que também houve um atrito, como está isso hoje?

Kelvin Hoefler - Com a CBSK foi uma coisa bem chata, porque nós tínhamos um acordo e eles não cumpriram. Depois que eu ganhei a medalha, a gente entrou em um acordo. A gente se acertou, estava tudo em paz, e aí depois, eles sumiram. Eles não falaram mais nada, então, eu fui jogado para escanteio. Eu vou continuar andando de skate, agora eu não sei eles...

UOL Esporte - Você faz parte da equipe Los Grandes GG, junto com a Pamela Rosa, você gosta de jogar Free Fire, é isso?

Kelvin Hoefler - Eu jogo vários jogos, inclusive o Free Fire. No Free Fire, eu tenho vários amigos que jogam, o que faz com que isso torne mais fácil a comunicação e a diversão. Mas eu jogo muito. Como o skate é muito intenso, muito impacto, muita concentração mental, o vídeo game dá uma refrescada na mente, é uma válvula de escape, para gente poder se divertir com os amigos fora das pistas.

UOL Esporte - Você acabou de lançar seus shapes em NFT, você vai entrar no metaverso, como estão estes planos?

Kelvin Hoefler - Eu estou estudando bastante sobre isso, metaverso, blockchain, NFT, bitcoin. Eu estou tentando entender mais e estudar mais porque eu não posso cair de paraquedas, estou estudando bastante. Tenho vários amigos que investem que estão me ajudando nessa questão, e eu me interessei e estou gostando desse novo mundo digital. Vai ser divertido também.

UOL Esporte - Aqui no Brasil, após as Olimpíadas, muita gente começou a falar skate street em vez de street skate, como é o correto na sua opinião?

Kelvin Hoefler - Eu acho que é street skate. É porque o skate nasceu na Califórnia, skate street não é certo, porque vem o street primeiro, assim como vert skate.

UOL Esporte - O skate feminino brasileiro tem obtido ótimos resultados, e pódios, este ano. Você acha que, de alguma forma, o skate feminino está à frente do skate masculino?

Kelvin Hoefler - Na minha opinião, o skate feminino está em ascensão muito grande por causa da mídia. Me parece mais fácil vender o feminino do que o masculino. Mas na questão técnica ainda tem de evoluir muito ainda. Existem muitas meninas que a (parte) técnica delas chega a ser bem superior do que das brasileiras, mas acho que tem de tomar muito cuidado nessa questão de glorificar antes da técnica. Beleza, ganhamos vários eventos, medalhas, mas na questão técnica tem de se preocupar um pouco mais. Eu sou muito crítico nessas coisas de skate.

Kelvin Hoefler durante etapa da SLS em São Paulo - Marcelo Zambrana/ Divulgação - Marcelo Zambrana/ Divulgação
Kelvin Hoefler durante etapa da SLS em São Paulo
Imagem: Marcelo Zambrana/ Divulgação

UOL Esporte - Tem alguma manobra que você nunca acertou, ou acha mais complexa, que você ainda está tentando acertar?

Kelvin Hoefler - Cara, eu sou meio chato com essas coisas de Switch (com a base trocada). Switch 360 entrando no corrimão e saindo de 360. Isso porque eu sei andar de Switch de 360 no corrimão, só que sair de 360 que é o chato. Então eu estou ainda com essa dificuldade de assimilar, de botar na cabeça, estudar como eu vou sair de 360. É muito complexo, estou, tipo assim, batendo cabeça até hoje.

UOL Esporte - Se você não fosse skatista, o que seria?

Kelvin Hoefler - Eu acho que seria surfista. Acho que eu ia surfar, eu sou do Guarujá, eu surfava bastante e gostava também. Só não sei se eu seria um bom surfista, mas mais ou menos, porque eu não gosto de água gelada, então, ia ter de aprender um pouco.

UOL Esporte - Nós estamos entrando em um ciclo olímpico, que vai ao menos até 2028, se não houver Brisbane (Austrália), o que também é bem provável. E o seu ciclo olímpico deve ir até quando?

Kelvin Hoefler - Cara, eu tenho 28 anos, em três anos eu estarei com 31 anos [nos Jogos da França, em 2024]. O Manny Santiago está com 35 anos, eu vou ter 35 anos em Los Angeles também, e o Manny, em Tóquio, era um dos favoritos naquela pista, porque ele estava andando muito. Todos os skatistas achavam que o Manny Santiago fosse ganhar as Olimpíadas, porque ele estava andando demais. Então com 35 anos, acho que mais dois ciclos olímpicos, eu vou conseguir competir e representar ao máximo o Brasil.

O skatista medalhista olímpico de prata Kelvin Hoefler - Joey Shigeo/ Divulgação - Joey Shigeo/ Divulgação
O skatista medalhista olímpico de prata Kelvin Hoefler
Imagem: Joey Shigeo/ Divulgação

UOL Esporte - E qual é o futuro do skate e o seu futuro?

Kelvin Hoefler - O futuro do skate não tem como saber. De agora em diante é como um foguete, vai subir cada vez mais. E o futuro do Kelvin é continuar andando de skate até ficar "véinho" mesmo e ser o técnico da galera que quer ser campeã. É isso.