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Olhar Olímpico

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Presidente da CBSk vê skate olímpico 'patinando' e critica falta de eventos

Pedro Barros ganhou a medalha de prata no skate park nos Jogos Olímpicos de Tóquio - Loic Venance/AFP
Pedro Barros ganhou a medalha de prata no skate park nos Jogos Olímpicos de Tóquio Imagem: Loic Venance/AFP

18/11/2022 04h00

Quase 500 dias já se passaram desde que Pedro Barros ganhou a medalha de prata no skate park nos Jogos Olímpicos de Tóquio e, desde então, a World Skate, federação internacional, não organizou absolutamente nenhum evento oficial na modalidade. No street, disputado por Rayssa Leal, a situação é só um pouco menos pior: houve um torneio, em Roma.

"Acho que o mundo do skateboarding e do rollersports estão batendo a cabeça. E estamos patinando, com o perdão do trocadilho. O skate olímpico está patinando", avalia Duda Musa, presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSk), e voz mais proeminente nas críticas à World Skate, que já são quase unanimidade no meio.

A brincadeira com o termo patinar vem do fato de a federação internacional que cuida do skate ser, originalmente, do patins. Quando aquela modalidade virou olímpica, a do skate foi incorporada, mas o controle da renomeada World Skate está com os patinadores. "São 11 disciplinas administradas pela World Skate, só uma é olímpica, e o formato que eles dão para as outras, se servem ou não para o skate, pouco importa para eles. Não tenho calendário, patrocínio, não tenho competição", reclama Duda.

Em tese, os skatistas estão, desde junho, disputando vaga em Paris por um ranking pré-olímpico, que tem eventos com cinco pesos diferentes. Em tese. Em 2022 só foi realizado um evento em Roma, no street. Os Mundiais que seriam no Rio perderam a chancela oferecida pela World Skate, que agora anunciou que vai fazer os Mundiais (de 2022) em janeiro e fevereiro de 2023, nos Emirados Árabes Unidos.

"A gente não sabe o número de pontos que vão dar nos outros níveis de eventos. Não sabe se esses eventos vão acontecer, nem os critérios para isso. A gente está apreensivo. Que bom que vai ter esse Mundial, mas é fora de planejamento, inicio de temporada. Teve atleta que a gente falou: dá um gás nesse segundo semestre e prometo que em dezembro e janeiro você descansa. Mentimos, né? Porque não vai descansar", continua Duda.

Rayssa Leal se encaixa no exemplo citado por ele. Ela participou de diversas competições independentes da World Skate, incluindo a SLS, um circuito que teve final no Rio e ela se sagrou campeã, e tinha o plano de descansar entre dezembro e janeiro. Mas ela, como todas as outras, terá que disputar o Mundial, sem se dar ao luxo de abrir mão. E se não houver outro evento importante assim no tal ranking?

Para Duda, o skate está devendo um calendário para o público que se interessou por skate nos Jogos Olímpicos e para o próprio mercado interno. "É muito contraditório, porque a gente vê os campeonatos de skate tradicionais cada vez maiores e melhores, mas o skate olímpico patinou. E para piorar a gente soube recentemente, na semana passada, que aplicaram duas modalidades de patins para Los Angeles-2028, e nenhuma do skate, o que aumenta um pouco mais o nosso desgosto".

O skate queria que fossem apresentadas ao COI o vert, que é a "modalidade mãe" das de transição, o que inclui o park, e também o downhill, que basicamente é uma corrida de skate. Também desejava que o paraskate fosse apresentado ao Comitê Paralímpico Internacional (IPC), mas a World Skate perdeu os prazos.

As críticas não param por aí. Duda cita um episódio nos Jogos Sul-Americanos, em Assunção (Paraguai), no mês passado, evento organizado pela Federação Sul-Americana de Patinação, que é o braço regional da World Skate no continente. Segundo ele, os organizadores impediram que os skatistas dropassem entre uma apresentação e outra para "não bagunçar". "Tem que manter a cultura do skate", diz.

Para ele, a federação está perdendo uma chance de ouro. "A World Skate está perdendo a oportunidade de ter os skatistas como parceiros do circuito dela. Porque os caras vão acabar indo por obrigação, porque sabem que é o único jeito de classificar, mas não vão por tesão, como eles vão na Street League, por exemplo. No STU, que era para ser o Mundial, o feedback dos gringos foi: 'Foi divertido, obrigado pela semana'. Nada impediria de ser legal e ser classificatório para a Olimpíada. Acho que a World Skate está se apegando em um pedaço de papel que diz que ela é a federação internacional de skate. Espero que ela perceba a tempo."