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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Natação tem bons resultados no Mundial, mas precisa ajustar algumas rotas

Guilherme Costa, o Cachorrão, conquistou o bronze nos 400 m livre do Mundial de Budapeste - Tom Pennington/Getty Images
Guilherme Costa, o Cachorrão, conquistou o bronze nos 400 m livre do Mundial de Budapeste Imagem: Tom Pennington/Getty Images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

Colunista do UOL

27/06/2022 13h00

Esta é a versão online da edição desta segunda-feira (27/6) da newsletter Olhar Olímpico, que trata do desempenho da natação brasileira no Mundial, e ainda traz os resultados do basquete 3x3, triatlo, tiro com arco e hipismo. Para assinar o boletim e recebê-lo no seu e-mail, clique aqui. Para receber outros boletins exclusivos, assine o UOL.

Olhando os números gerais, o Brasil fez um bom Mundial na natação, em Budapeste. Chegou a 14 finais, superando as campanhas de 2017 e 2019, quando fez 12. O mais importante é que, dessas finais, 10 foram em provas olímpicas, ante 7 e 8, respectivamente, em cada uma das últimas edições. O número de medalhas em provas olímpicas se manteve: uma em cada Mundial. Neste, conquistou o bronze com Guilherme Costa, o Cachorrão, nos 400 m livre.

Mas a campanha, em parte ajudada pela ausência da Rússia e de diversos atletas com covid-19, coloca sob discussão parte significativa do trabalho que vem sendo feito nos últimos anos por treinadores, pelos grandes clubes que concentram os principais nadadores, pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Os atletas e as provas olímpicas em que historicamente o Brasil tem seus melhores resultados — e, portanto, onde se investia mais dedicação e dinheiro — quase não deram resultado. Nem mesmo Bruno Fratus, estrela da natação brasileira que vinha de três medalhas seguidas nos 50 m livre e foi bronze nos Jogos Olímpico de Tóquio, conseguiu se classificar à final.

O Brasil, como seleção, apresentou evolução nas provas olímpicas (único objeto desta análise). Mas não pelos caminhos esperados.

Na década passada, os melhores resultados do Brasil em provas olímpicas do Mundial se concentraram nas disputas masculinas e de maior velocidade (50 m, 100 m e 200 m livre, 100 m e 200 m borboleta, 100 m e 200 m costas, 100 m peito e 200 m medley), além dos 400 m medley. Deste grupo vieram todos os 10 melhores resultados nos Mundiais de 2011, 2013 e 2019, e oito dos 10 melhores em 2015 e 2017. O Brasil não esteve em nenhuma final que não fossem essas.

Agora, na Hungria, o desempenho brasileiro foi muito diferente. Nas provas olímpicas de velocidade, o Brasil não conseguiu chegar a finais — os dois medalhistas olímpicos, dos 50 m e 200 m livre, foram eliminados na semi, mesmo nadando rápido em outras etapas da competição. Enquanto isso, dos 10 melhores resultados, cinco foram com mulheres, e seis em provas de meio e meio fundo, algo inédito na história recente do país.

O fracasso dos homens nas provas de velocidade, de uma forma geral, é surpreendente, pensando na linha histórica da natação brasileira. Há quatro anos o Brasil festejava ter um grupo coeso, com pelo menos uma dúzia de atletas de até 22 anos especialistas nestas distâncias. Nomes como Gabriel Santos, Pedro Spajari, Vini Lanza, Brandonn Pierry....

Era uma geração para arrebentar em Tóquio e liderar a natação brasileira no ciclo até Paris. Mas só Fernando Scheffer e Guilherme Costa, o Cachorrão, atingiram em provas individuais o nível esperado para eles. O gaúcho foi bronze no Japão, enquanto o carioca fez final nos 800 m livre, fechando raia. Neste primeiro Mundial do ciclo, Cachorrão voou em três finais, com três recordes sul-americanos e uma medalha, e Scheffer acabou fora da final dos 200 m livre por pouco.

Também é preciso destacar o desempenho de Vinicius Assunção, jovem de 20 anos do Fluminense. Ele não se classificou para competir em nenhuma prova individual, mas teve as melhores parciais do Brasil no 4x100 m livre (47s91 nas eliminatórias e 47s63 na final) e teve marca quase idêntica (1min46) a de seus colegas mais renomados no revezamento 4x200 m livre.

Até nos revezamentos houve uma mudança de paradigmas. Se no 4x100 m livre masculino o sétimo lugar foi o pior resultado desde 2013 e no 4x100 m medley o Brasil ficou fora da final depois de um quinto e um sexto lugares nas últimas duas edições, no 4x200 m o país por pouco não ganhou uma medalha (ficou em 4º), depois de ficar longe das finais entre 1982 até 2019. No feminino, em que o Brasil só havia disputado uma final, em 2009, desta vez foram duas participações de revezamentos em disputas por medalha.

De forma geral, a campanha feminina do Brasil foi muito acima do usual. Mesmo priorizando as águas abertas, Vivi Jungblut fez duas finais nas piscinais (800 m e 1.500 m). Bia Dizotti bateu o recorde brasileiro e ficou em sexto nos 1.500 m. Stephanie Balduccini, de 17 anos, participou de duas semifinais, sempre melhorando seus recordes pessoais, algo que, entre os homens, só Cachorrão conseguiu (cinco vezes, em três provas). Com a participação de Giovanna Diamante nos 100 m borboleta e de Lorrane Ferreira nos 50 m livre, foram sete semifinais no feminino em provas olímpicas (contando as provas de fundo, que têm final direta), contra seis dos homens.

É verdade que o topo da pirâmide, o grupo que briga por medalhas, é formado só por homens. Mas o miolo dela, antes composto quase que exclusivamente por homens, agora tem predominância das mulheres, mesmo sem que elas antes tenham sido maioria na base. O natural é que, em um futuro breve, talvez já em Paris, elas também brilhem no topo.

Verão na Europa é sinônimo de Mundiais

Verão na Europa é sinônimo de muitos Mundiais acontecendo. Em algumas modalidades, como os saltos ornamentais (escrevi disso duas semanas atrás), o Brasil está em notável evolução; em outras, os resultados que já não eram bons agora estão regredindo.

No nado artístico, também disputado no Mundial de Esportes Aquáticos de Budapeste, o Brasil até se classificou para cinco finais, mas quatro vezes em provas que não são olímpicas e têm menos competitividade. Na rotina técnica do conjunto, ficou em 12º.

Muito longe dos melhores do mundo, o Brasil tem como objetivo mais tangível brigar por medalha nos Jogos Pan-Americanos (o próximo será ano que vem, em Santiago). Mas até isso está cada vez mais distante. No dueto, a distância para os EUA, terceira força do continente, foi de 8,4 pontos no Pan de 2019 para 14,9. No conjunto, de 9,5 para 16,7.

No polo aquático, que chegou a ganhar um bronze na Liga Mundial Masculina quando naturalizou diversos estrangeiros, foram seis derrotas em seis jogos na primeira fase: três entre os homens (Hungria, Montenegro e Geórgia) e três entre as mulheres (Austrália, Nova Zelândia e Cazaquistão).

No basquete 3x3, desempenhos ruins do Brasil

No Mundial de 3x3, disputado na Bélgica, a seleção feminina, formada por atletas de basquete de quadra, venceu Nova Zelândia e Áustria na primeira fase, fez um jogo equilibrado com os EUA (18 a 14), mas caiu nas oitavas de final para as belgas, em apresentação muito ruim. O Brasil não jogava a competição desde 2012, quando também perdeu para a Bélgica neste estágio. Em 2020, o 3x3 virou esporte olímpico.

O problema é o masculino. O Brasil tem equipes profissionais, jogadores especializados, mas segue fazendo feio em Mundiais. Em quatro jogos só venceu a Nova Zelândia e acabou eliminado logo na primeira fase. Esta foi a terceira participação seguida da equipe na competição. Contando com 2018 e 2019, são 12 partidas e uma única vitória.

Triatlo britânico "estreia" a classificação olímpica

Saíram ontem, para a Grã-Bretanha, as primeiras vagas olímpicas para os Jogos de Paris (os franceses, como donos da casa, garantem classificação em várias modalidades). Foi no Mundial de Revezamentos de triatlo, vencido pela França, mas que acabou dando a vaga ao segundo colocado.

O Brasil chegou a brigar pelas primeiras colocações, mas Antônio Bravo sofreu uma queda na terceira perna e a equipe abandonou. Ele foi escalado de última hora, por um desconforto muscular de Miguel Hidalgo. Com o time titular (Hidalgo, Manoel Messias, Vittoria Lopes e Luisa Baptista), o Brasil tem nível para disputar medalha.

Em Paris, ótimos resultados para o tiro com arco e para o hipismo

Os ventos de Paris fizeram bem ao esporte brasileiro no fim de semana. Marcus Vinicius D'Almeida venceu três campeões olímpicos para ganhar a etapa francesa da Copa do Mundo de tiro com arco, na primeira conquista dele neste tipo de evento. Vice-campeão mundial no ano passado, ele é cada vez mais cotado a uma medalha olímpica inédita.

E, em pleno Campo de Marte, a poucos metros da Torre Eiffel, Marlon Zanotelli venceu a etapa de Paris do Global Champions Tour, principal circuito do hipismo saltos. O brasileiro empatou sem faltas com outro cinco atletas e foi o mais rápido na volta desempate, montando Like a Diamont Van Het Schaeck, cavalo que só começou a saltar neste nível no fim do ano passado e vem se mostrando promissor. Pela vitória, o conjunto levou 100 mil euros.