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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

COB triunfante em Tóquio dá lugar a projeto de poder de Paulo Wanderley

Kenji Saito e Ney Wilson, novos diretores da área de Esportes do COB - Divulgação
Kenji Saito e Ney Wilson, novos diretores da área de Esportes do COB Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

Colunista do UOL

28/03/2022 13h00

Esta é a versão online da edição desta segunda-feira (28/3) da newsletter Olhar Olímpico, seu resumo sobre o que de mais importante aconteceu e vai acontecer nos esportes olímpicos durante a semana. Para assinar o boletim e recebê-lo no seu e-mail, clique aqui.

Há sete meses o esporte olímpico do Brasil vivia o melhor momento de sua história, com recorde de medalhas nos Jogos de Tóquio e uma conexão sem igual com o público brasileiro.

O Comitê Olímpico do Brasil que triunfou em Tóquio, porém, não existe mais. Hoje, no seu lugar, há um remendo de entidade, que o presidente Paulo Wanderley administra como se fosse o quintal de sua casa. O foco não é mais vencer competições, mas seu projeto pessoal de poder.

Eleito em 2016 como vice e promovido a presidente no fim de 2017, com o afastamento seguido de renúncia de Carlos Arthur Nuzman, Paulo Wanderley foi reeleito em 2020. Achou-se que para um último mandato, mas ele vai se basear em uma interpretação da Lei Pelé, na qual o mandato-tampão de três anos não entra na conta. Por isso, tentará uma segunda reeleição em 2024.

Mas, ao se lançar candidato, Paulo Wanderley rompeu o acordo que tinha com Marco La Porta, que é seu vice, e pretendia ser seu sucessor em 2024. De aliados, presidente e vice do COB passaram a adversários depois dos Jogos de Tóquio.

La Porta foi o chefe de missão em Tóquio, e seu trabalho foi muito elogiado. Tudo deu certo na complicada logística de uma Olimpíada na pandemia e La Porta, então porta-voz do COB no Japão, foi visto como o responsável. Mas, após a vitrine do ano passado, o vice foi escanteado, tirado das decisões e de qualquer visibilidade. Virou um figurante.

Paralelamente, La Porta perdeu a aliada Manoela Penna, diretora de comunicação e marketing, que pediu demissão para morar na França, por questões familiares. Manoela foi responsável pelo sucesso de comunicação do COB antes e durante as Olimpíadas de Tóquio, com a criação do Canal Olímpico, a explosão dos perfis do Comitê nas redes sociais e bons acordos com patrocinadores.

Mas, na contramão do discurso de austeridade, Paulo Wanderley botou na cabeça que comunicação e marketing precisam ser duas diretorias separadas — Manoela era contra. E também decidiu que Jorge Bichara, diretor de Esporte e com afinidade com La Porta, estava grande demais dentro dentro da entidade. E decidiu que, para podar suas asas, também dividiria essa diretoria. Bichara foi contra, e acabou demitido.

É verdade que existiam algumas lacunas no trabalho de Bichara, especialmente pelo enorme foco na elite da elite, sobrando pouco dinheiro para quem não briga por medalha. Mas o modelo inegavelmente vinha dando resultado. Exemplo: eu critiquei mais de uma vez a falta de atenção à renovação na ginástica artística, com todos os olhos para Rebeca Andrade. Mas foi isso que fez a atleta ganhar ouro e prata em Tóquio.

Essa lacuna poderia ser resolvida com uma nova política de distribuição de recursos, com um equilíbrio maior entre o modelo implementado por Bichara e as reivindicações das confederações menores. Mas Paulo Wanderley deixou falar mais alto a vontade de dar mais poder a duas pessoas que, de tão próximas, são quase da família: Kenji Saito e Christian Trajano.

É até constrangedor escrever isso, mas Kenji, que é afilhado do presidente do COB, é descrito por muita gente que trabalha ou já trabalhou com ele como um profissional ruim. Um exemplo: ele era o responsável por renovar a seleção de judô, algo que não conseguiu executar. Mas agora Kenji é diretor de desenvolvimento esportivo da entidade por duas únicas razões: porque Paulo Wanderley quer e porque Paulo Wanderley pode. Nenhuma mais.

A Comissão de Atletas divulgou uma nota reclamando que queria ser consultada sobre uma decisão desse porte. Não foi e não será durante a gestão Paulo Wanderley, conhecido por ser centralizador. A caneta é dele, e ele faz com ela o que quiser. Ingênuos foram os atletas que acreditaram. É assim que a banda toca. Sempre foi e continuará a ser.

Em meio à crise, o COB foi atrás correndo de Ney Wilson, então gestor da Confederação Brasileira de Judô. Era preciso apresentar um nome de peso à comunidade olímpica, que não deixou de demonstrar toda sua insatisfação com a demissão de Bichara. Na apresentação do ex-dirigente do judô como diretor de alto rendimento, ao justificar a demissão do antecessor depois de um excelente trabalho, Rogério Sampaio, CEO da entidade, alegou que "é natural que haja alternância das pessoas que ocupam cargos na entidade". Ney Wilson estava há 21 anos na sua antiga função. E Paulo Wanderley, que ficou 16 anos como presidente da CBJ, quer ficar outros 11 no COB.

Bichara foi mais que um dirigente

08.08.2021 - Jogos Olímpicos Tóquio 2020 - Coletiva final do Time Brasil. Na foto o sub-Chefe de Missão, Jorge Bichara. Foto: Wander Roberto/COB - Wander Roberto/COB/ - Wander Roberto/COB/
Imagem: Wander Roberto/COB/

Um medalhista olímpico conta que, na manhã do dia em que foi ao pódio dos Jogos de Tóquio, Jorge Bichara estava na porta do prédio da Vila Olímpica, à sua espera, para dizer que aquele seria um ótimo dia. "Ele ia muito, mas muito além do papel de dirigente", afirmou Thiago Braz. Campeão do salto com vara na Rio-2016 e bronze no Japão, o saltador compartilhou o vídeo do agora ex-diretor mostrando otimismo por uma segunda medalha olímpica, na qual ninguém acreditava.

Aliás, a demissão de Jorge Bichara causou comoção entre os principais atletas olímpicos do país, que usaram as redes sociais para demonstrar apoio e gratidão ao ex-dirigente.

Antes tarde...

Com muito atraso, a prefeitura do Rio anunciou que vai executar o projeto original e transformar a Arena do Futuro (onde foram disputadas as competições de handebol em 2016) em quatro escolas. Por contrato, é o governo federal que deve pagar pela obra. Mas o prefeito Eduardo Paes (PSD) decidiu bancar o projeto e, depois, cobrar a União. Talvez esteja contando que Jair Bolsonaro (PL) não esteja mais no Planalto ano que vem.

No novo modelo de administração do Parque Olímpico, o governo federal cedeu a administração do Velódromo para a prefeitura, que vai levar para lá as estruturas para treinamento que hoje estão na Arena Carioca 3. Esta, por sua vez, vai virar o Ginásio Experimental Olímpico (GEO), com 24 salas de aula. As Arenas Cariocas 1 (hoje um ginásio) e 2 (um galpão pouco utilizado) e o Centro Olímpico de Tênis seguem com o governo federal.

A despedida da minha conterrânea

Duas vezes finalista olímpica no arremesso de peso, Geisa Arcanjo anunciou aposentadoria na semana passada, aos 30 anos. "Há algum tempo não tenho performado de uma maneira satisfatória. Estar na média, viajar por status e por carimbos no passaporte nunca fizeram parte das minhas características como atleta e, diante disso, não posso continuar não fazendo jus a tamanha dedicação e sacrifício", disse a atleta de São Roque (SP), sete meses após disputar a Olimpíada de Tóquio, a terceira da carreira.

Douglas e Natália, aposentados da seleção

Douglas Souza anunciou aposentadoria da seleção de vôlei para cuidar da saúde mental. Torço de verdade para ele ficar bem, mas a decisão do atleta veio a calhar. Antes do anúncio, eu já havia noticiado que Douglas não mais seria convocado. Sem clube e fora da seleção, o campeão olímpico vai participar da Dança dos Famosos, na TV Globo. Natália também não joga mais pelo time feminino, do qual é capitã. Aos 32 anos e com uma longa e vitoriosa contribuição ao time de José Roberto Guimarães, justificou que não estava mais com cabeça para defender a seleção.

Candidata mais uma vez

Rebeca Gusmão, que foi uma das melhores e mais polêmicas nadadoras do país, será novamente candidata a deputada distrital em Brasília. Ela ainda não se filiou a nenhum partido, mas deverá acompanhar o senador Reguffe, que trocou o Podemos pelo União Brasil. Ela trabalhou como assessora parlamentar do deputado Delegado Pablo (PSL-AM, hoje União Brasil). Em 2010, logo após ser banida do esporte por doping, Rebeca foi candidata pelo PC do B, mas não conseguiu se eleger.

Liga de Natação naufragou

Completamente desinteressante como competição esportiva, mas em tese uma boa oportunidade de ganho financeiro para os nadadores, a Liga Internacional de Natação (ISL, na sigla em inglês) anunciou que não vai realizar sua temporada em 2022, argumentando que boa parte do seu financiamento vem da Ucrânia, sob ataque da Rússia. A ISL, porém, ainda não pagou a temporada passada para boa parte dos atletas que competiram.

De volta às piscinas

Atleta olímpica em Londres-2012 e na Rio-2016 nos 50 m livre, Graciele Herrmann está de volta à natação brasileira. A gaúcha de 30 anos, que se aposentou em 2019 e depois retornou às piscinas para tentar defender a seleção do Paraguai, vai competir o Troféu Brasil pelo Itamirim/Novos Cielos, equipe de Santa Catarina. A competição é na semana que vem (4 a 9 de abril), no Rio, e será a única seletiva da natação para o Mundial de Esportes Aquáticos de Budapeste, em junho.

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