PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Médicos questionam nova política para inclusão de atletas trans no esporte

Laurel Hubbard na tentativa de levantar 125kg - REUTERS/Edgard Garrido
Laurel Hubbard na tentativa de levantar 125kg Imagem: REUTERS/Edgard Garrido
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

18/01/2022 14h51

Um grupo de 38 especialistas em medicina esportiva, alguns deles com posições importantes em entidades internacionais, publicou um artigo esta semana defendendo que o Comitê Olímpico Internacional (COI) reveja as diretrizes recentemente divulgadas para a participação de atletas transgênero no gênero diferente daquele atribuído no nascimento.

Há dois meses, COI publicou um documento que dá diretrizes para as federações internacionais criem critérios para a inclusão de atletas trans. Um dos itens mais importantes desta cartilha é o que o COI chama de "não presunção de vantagem esportiva". "Nenhum atleta deve ser impedido de competir ou deve ser excluído da competição com base em uma vantagem competitiva injusta não verificada, alegada ou percebida devido a suas variações de sexo, aparência física e/ou status de transgênero", diz o documento.

Os autores desse novo artigo, que dizem ser associados à Federação Internacional de Medicina Esportiva e à Federação Europeia de Associações de Medicina Esportiva, contestam principalmente essa ideia. Segundo eles, a não presunção de vantagem esportiva é um "contraste gritante" com a postura anterior do COI, assumida em 2015, com evidências científicas e com descobertas de vários grupos.

Publicado no British Medical Journal Open Science & Exercise Medicine, um conceituado periódico acadêmico na área de medicina esportiva, o artigo é relevante à medida que reúne especialistas renomados de federações como as de ciclismo, remo, triatlo e atletismo. Eles não defendem que mulheres trans sejam proibidas de competir em provas femininas, mas que obrigatoriamente precisem diminuir seus níveis de testosterona.

"Precisamos estabelecer um limite que respeite o direito das mulheres de competir em igualdade de condições. Se você criar uma definição de gênero baseada em diferenças sociais e não biológicas, você destruirá efetivamente a categoria feminina", opinou, ao jornal britânico Daily Mail, o especialista Jurgen Steinacker, que comanda a comissão de medicina esportiva da Federação Internacional de Remo.

Para os autores, o COI ouviu mais o lobby de entidades de direitos humanos do que a comunidade científica para chegar à cartilha publicada em novembro. O comitê internacional nega e lembra que cabe a cada federação internacional estipular suas regras, a partir de estudos específicos para as particularidades daquelas modalidades.

O artigo rebate dizendo que as federações menores, que não têm o orçamento do atletismo ou do rúgbi (que já criaram diretrizes), não conseguirão fazer estudos adequados para propor seus critérios. Para os especialistas, o COI é que deveria fazer esse papel e recomendar critérios mais precisos.