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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

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Indisponível para antidoping no BBB, Paulo André fica sujeito a suspensão

Paulo André Camilo, atleta brasileiro  - Javier SORIANO / AFP
Paulo André Camilo, atleta brasileiro Imagem: Javier SORIANO / AFP
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

17/01/2022 04h01

Paulo André Camilo assumiu dois compromissos que o impedem, em tese, de entrar em um confinamento para participar do Big Brother Brasil. O primeiro, como atleta profissional que se submete a testes antidoping. O segundo, enquanto militar da ativa das Forças Armadas do país. Na prática, ele entra na casa hoje, apesar dos riscos.

O maior deles é ser suspenso do esporte por infração ao código antidoping. Todo atleta de ponta, do nível de Paulo André, semifinalista olímpico e campeão dos Jogos Pan-Americanos, precisa manter seu paradeiro atualizado em um sistema internacional chamado Adams. As agências antidoping precisam saber, todos os dias, onde encontrá-lo em dois horários pré-determinados, caso decidam aplicar nele um teste surpresa.

Informar onde estará semana a semana não deverá ser um problema (o endereço da casa do Big Brother, em Curicica, no Rio, é conhecido), mas a premissa do programa é manter os participantes confinados. Caso a Globo permita que um oficial se encontre com Paulo André para colher sangue ou urina dele, estará beneficiando um brother. Se não permitir, Paulo André receberá uma advertência.

Cada atleta pode receber apenas duas advertências por não ser encontrado em um prazo de 365 dias corridos. Na terceira, ele é suspenso. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Omar Craddock, campeão do Pan de Lima no salto triplo e que ficou fora dos Jogos de Tóquio ao receber uma suspensão de 18 meses. E ele tinha uma desculpa muito mais nobre: em um dos casos, estava em um protesto do Black Live Matters.

Na falta de informações públicas sobre essas falhas em ser encontrado para testes surpresa, não é possível dizer se Paulo André já tem uma, duas, ou nenhuma infração. No caso de já serem duas, por exemplo, bastaria uma tentativa de testá-lo por parte da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) ou da AIU, braço antidoping da federação internacional de atletismo, para o corredor ser suspenso.

Marinha também fica sob risco

No BBB, Paulo André também poderá ter problemas com a Marinha. Ele faz parte do Programa de Alto Rendimento (PAAR) das Forças Armadas e se comprometeu com regras que constam em uma Portaria Normativa de 2019 do Ministério da Defesa, a de número 71. Ali, fica claro que, uma vez convocado, independente do momento ou do local em que estiver, Paulo André precisa se apresentar à Marinha.

Consta nesta portaria que é obrigação do atleta militar "atender às convocações de suas respectivas Forças para participar de quaisquer atividades, esportivas ou não, mesmo que fora de seu local de residência" e também "informar à sua Comissão de Desportos e à sua organização militar de vinculação, semanalmente, por correio eletrônico ou por meio similar, sua agenda de trabalho desportiva, telefones de contato no período e outros dados de interesse da Comissão e da organização militar".

A portaria tem regras que evitam que atletas se exponham e exponham as Forças Armadas, exigindo, por exemplo, que os esportistas comuniquem imediatamente "quaisquer solicitações para a concessão de entrevistas ou para a participação em reportagens", deixando claro que o comando militar tem poder de veto.

"Caso autorizado, [o atleta deve] esmerar pela divulgação dos objetivos do PAAR e zelar pela boa imagem do Ministério da Defesa e das Forças Singulares", exige a portaria, que faz menção a entrevistas, mas não à participação em um reality show.

A coluna apurou que Paulo André não avisou a Marinha que iria participar do Big Brother Brasil, o que foi feito por sua equipe apenas após o anúncio por parte da Rede Globo. A reportagem procurou a Marinha para perguntar sobre a situação, ainda na quinta-feira (13), quando noticiou a participação de Paulo André, mas não obteve respostas.

Paulo André é também apoiado pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), por ser semifinalista olímpico, e recebe R$ 1.650 por mês da entidade, com recursos do patrocínio da Caixa Econômica Federal. Por esse apoio, ele precisa fazer postagens regulares citando a Caixa em suas redes sociais. Isso será feito pelos administradores das contas de Paulo André, em postagens programadas desde antes do confinamento.