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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

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Pai treinador foi contra Paulo André trocar treinos por BBB

Paulo André costuma comemorar resultados rolando na pista com o pai e treinador, Carlos Camilo - Ricardo Bufolin/ECP
Paulo André costuma comemorar resultados rolando na pista com o pai e treinador, Carlos Camilo Imagem: Ricardo Bufolin/ECP
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

15/01/2022 04h00

Quem acompanha atletismo de perto sabe que o velocista Paulo André Camilo e seu pai, Carlos Camilo, são unha e carne. Não à toa, sempre que têm a oportunidade, pai e filho rolam abraçados na pista para comemorar uma grande vitória. O Big Brother Brasil (BBB), porém, colocou de lados opostos os interesses de treinador e atleta, criador e criatura.

Técnico de Paulo André desde sempre, Camilo, como é conhecido o patriarca, que também era velocista, foi contra a decisão do filho de parar de treinar no auge da carreira para ficar, sabe-se lá por quanto tempo, dentro de uma casa onde não poderá fazer mais do que se exercitar em uma esteira. Faltando apenas dois anos e meio até as Olimpíadas de Paris, Paulo André pode perder um ano inteiro do ponto de vista esportivo, caso vá longe no programa.

Eliminado na semifinal dos 100m nas Olimpíadas de Tóquio, Paulo André chorou e disse que não pouparia esforços para um dia ser medalhista. "Eu tenho 22 anos e nem que eu faça isso até os 80 eu vou conseguir essa medalha nos 100m um dia", prometeu. Mas, convidado para participar do BBB22, o corredor, que em setembro se tornou pai de um menino que recebeu o nome de Paulo André (mas não Junior, porque leva também o sobrenome da mãe), ficou entre a cruz e a espada.

De um lado, a chance de se estabelecer financeiramente, ganhar em poucos meses mais dinheiro do que já ganhou na vida como atleta. De outro, manter a rotina de treinamentos em Vila Velha (ES), onde corre sob as orientações do pai, para se firmar como o melhor de sua geração e se tornar o brasileiro mais rápido da história. Faltam dois centésimos para isso, afinal (sua melhor marca pessoal é 10s02).

Camilo defendia a segunda opção, mas foi voto vencido. Falou mais alto a proposta levada pelo empresário do corredor, o também ex-velocista Basílio de Moraes, olímpico em 2004. Aos 23 anos, Paulo André tem vida própria e decidiu pelo BBB, pela chance de fazer um pé de meia. Risco por risco, o BBB ainda pode deixá-lo rico. No atletismo, poderia se machucar e perder a temporada do mesmo jeito.

O pai lavou as mãos, mas deu um conselho, do ponto de vista esportivo: "pelo menos avisa o COB, a confederação e a Marinha", o que não foi feito. COB, CBAt, Marinha e o Pinheiros, clube com o qual Paulo André tem contrato, só foram comunicados da ida ao BBB depois que a Globo anunciou a presença de Paulo André na casa mais vigiada do país.

A postura pegou mal para um atleta que já estava em rota de colisão com a CBAt desde o ano passado, quando seu pai não foi convocado para as Olimpíadas. Paulo André ficou muito chateado, chegou a fazer um post duro de desabafo nas redes sociais, e se emocionou ao lamentar a ausência de Camilo quando falou com jornalistas ao final de sua participação.

Naquele dia, no Estádio Olímpico de Tóquio, prometeu "trabalhar bastante e calar a boca de todos eles que cortaram meu pai". Os que cortaram (ou não convocaram) o pai dele, porém, foram pegos de surpresa com a notícia de que Paulo André havia decidido comprometer seu treinamento em um ano importante do ciclo olímpico, quando, excepcionalmente, serão disputados dois Mundiais. Um Indoor, outro Outdoor. Os que o corredor calaria pelo trabalho agora vão refazer a lista do Sul-Americano Indoor porque Paulo André não está disponível.

No COB, a notícia também não pegou bem. Em setembro, Erik Cardoso correu os 100m em 10s00 no Brasileiro Sub-23, entrou na briga com Paulo André e Felipe Bardi, principalmente, pelo posto de melhor do país, e mostrou que o revezamento 4x100m do Brasil poderia ficar mais forte ainda para este novo ciclo. Perder Paulo André para o entretenimento, por um mês ou um ano, é uma ducha de água fria.

Como personagem de reality show, Paulo André tem tudo para se dar bem. É jovem, bonito, carismático, tem o corpo sarado, sabe se comunicar. A ver se não será cancelado e se terá disposição para deixar de lado os holofotes para voltar aos treinos e entregar o que dele se espera dentro das pistas.