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Olhar Olímpico

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Tenistas são expulsos pela Prefeitura de SP de quadras construídas por eles

Atletas abraçam quadras de tênis que terão que abandonar em SP - Divulgação
Atletas abraçam quadras de tênis que terão que abandonar em SP Imagem: Divulgação

07/12/2021 04h00

Um grupo de tenistas, a maioria deles idosos, reclama de ter sido expulso pela Prefeitura de São Paulo de um conjunto de quadras construído e mantido por eles há mais de 40 anos dentro do terreno onde fica a Secretaria Municipal de Esportes (SEME), no bairro do Ibirapuera, na zona sul.

Após quatro décadas, eles foram informados na semana retrasada, por meio de um recado dado verbalmente a um funcionário, que têm até hoje (7) para deixar o local. De acordo com essa informação, a área será entregue pela prefeitura paulistana ao Instituto Tênis, idealizado pelo bilionário Jorge Paulo Lemann e um dos campeões de captação de recursos pela Lei de Incentivo ao Esporte, federal.

A Sociedade Amigos do Tênis Ibirapuera (SATI), formada principalmente por descendentes de japoneses, existe desde 1980 e construiu inicialmente duas quadras ao lado do Ginásio Mané Garrincha, dentro da estrutura conhecida como Centro Olímpico. Quando as obras da estação de metrô vizinha começaram e o espaço foi transformado em canteiro de obra, o SATI firmou um acordo com a Prefeitura para ocupar uma nova área.

A partir de um termo de recebimento de serviço, a SATI construiu três quadras de saibro e uma de cimento e, por esse documento, o doou à Prefeitura, mas continuou administrando o espaço, em um modelo de concessão informal. Durante os últimos 10 anos, manteve as quadras em boas condições de uso com a contratação de três funcionários com carteira registrada, sem manter o caráter público das quadras, que viraram seis quando o canteiro de obra foi desmontado.

"O que você imaginar de um clube lá tem. Funcionário com carteira assinada, uma pessoa para manutenção das quadras... A gente que compra redes, saibro, tudo. É tudo feito na base da colaboração voluntária dos associados da SATI. Se você quiser jogar, é só ter carteirinha da SEME, fazer exame médico da SEME, e se associar à SATI. Não precisa pagar nada, só agendar horário pelo aplicativo", explica Jérson Bufarat, porta-voz do grupo que tem 521 associados ativos, sendo 340 deles idosos.

Segundo ele, no passado foram disponibilizados horários de quadra para um projeto social, o Instituto Patrícia Medrado, da ex-jogadora profissional de mesmo nome, mas o trabalho teria sido descontinuado por falta de crianças interessadas.

A entidade reclama que não foi informada pela Prefeitura da abertura de um chamamento público, em agosto, no qual a Rede Tênis Brasil, uma ramificação do Instituto Tênis, foi escolhida para ocupar o espaço e oferecer aulas de tênis para crianças. "Nosso funcionário estava almoçando, uma sexta-feira, quando chegou um funcionário da SEME e avisou que 'dia 7 vocês saem daí'", relata Bufarat.

Em busca de sensibilizar a Prefeitura, o grupo chegou a fazer um abraço coletivo na quadra e tentou abrir um canal de diálogo com o secretário Thiago Milhim (Podemos), sem sucesso. A reportagem procurou a Prefeitura e o Instituto Tênis na quinta-feira da semana passada, pedindo comentários sobre a situação. A prefeitura respondeu após somente a publicação desta matéria, afirmando que escolheu o Instituto do Tênis por meio de um chamamento público e que a entidade investirá mais de R$ 12 milhões em cinco anos.

"O local [as quadras citadas na matéria] vinha sendo ocupado de forma irregular pela Sociedade Amigos do Tênis do Ibirapuera (SATI), inclusive com a SEME recebendo em sua Ouvidoria denúncias de cobrança pelo uso de um espaço público", continuou a prefeitura, sem explicar se investigou as denúncias e encontrou irregularidades.