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REPORTAGEM

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Enem discute marco da história do skate, mas com erros

Meninas competem na Liga Amadora de Bowl na Layback Park - Meninas competem na Liga Amadora de Bowl na Layback Park / Fotos: Fernando Moraes/UOL
Meninas competem na Liga Amadora de Bowl na Layback Park Imagem: Meninas competem na Liga Amadora de Bowl na Layback Park / Fotos: Fernando Moraes/UOL
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

25/11/2021 04h00

Popularizado depois de estrear nos Jogos Olímpicos, o skate vem atraindo cada vez mais atenção da imprensa, de novos praticantes, e também da área acadêmica. No último domingo (21), a história da modalidade chegou a mais de 3 milhões de brasileiros que se depararam com uma questão sobre o assunto no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Ela, porém, contém erros de informação e uma resposta que, se não chega a ser falsa, também não corresponde bem à verdade.

A questão apresentava, em seu enunciado, um texto do artigo "O skate e suas possibilidades educacionais": "No início foram utilizados eixos e rodinhas de patins pregados numa madeira qualquer, para sua composição, sendo as rodas de borracha ou ferro. O grande marco na história do skate ocorreu em 1974, quando o engenheiro químico chamado Frank Nasworthy descobriu o uretano, material mais flexível, que oferecia mais aderência às rodas", diz parte desse trecho.

É falso, porém, que Frank Nasworthy tenha "descoberto" o uretano, substância conhecida desde, pelo menos, 1937, quando o químico alemão Otto Bayer descobriu e patenteou a química do poliuretano — que, a grosso modo, é o conjunto de uretanos. Nasworthy, então um estudante norte-americano, é na verdade apontado como o responsável por inventar a rodinha de uretano, não o uretano em si.

O professor e historiador Leonardo Brandão, que fez suas pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado sobre o skate, aponta porém outras informações imprecisas na questão do Enem. Em post no site da revista Cemporcento Skate, publicou vídeo em que o próprio Nasworthy reconhece que seu mérito quanto às rodinhas, que de fato revolucionaram o skate, não foi inventá-las.

Nesse vídeo, Nasworthy conta que, aos 18 ou 19 anos, foi com um amigo visitar um colega deste, que estava na loja de produtos de poliuretano do pai. Lá, encontrou rodinhas de uretano que haviam sido desenvolvidas para patins, que comprou para revender. "Eu não inventei nada, eu inovei. Eu vi algo e apliquei isso em meio diferente", contou Nasworthy. Quando ele voltou à loja para comprar mais dessas rodinhas e não achou, decidiu desenvolver ele mesmo o produto.

E, diferente do que diz a questão do Enem, isso teria acontecido em 1972, não em 1974. A explicação para o erro, no entender de Brandão, está no fato de a historiografia do skate ainda estar sendo construída. "Eu tenho alguns livros que inclusive falam da questão do uretano e colocam 1973, mas não são tão confiáveis quanto o documentário Dogtown and Z-boys, que passou por uma curadoria alta e fala em 1972. Mas isso é normal, um vai corrigindo a pesquisa do outro, tapando lacunas, o campo vai avançando", diz ele, que identificou que o trecho citado pelo Enem faz referência ao livro A Onda Dura, de 2000.

O pesquisador também discute se a resposta tida como correta para a questão é fidedigna com os fatos. O gabarito oficial ainda não saiu, mas segundo diversas correções, a alternativa certa seria que: "De acordo com o texto, diversos fatores ao longo do tempo contribuíram para a democratização do skate".

Os fatores citados no texto — pontualmente a rodinha de uretano — seriam responsáveis, no entender de Brandão, por tornar o skate mais popular, não por sua democratização, à medida que o alto custo de equipamento (ao menos R$ 300 por um skate de boa qualidade, que precisa de constante troca de peças) segue restringindo o acesso de parte da população ao esporte.

"Democratização seria o barateamento do skate para uma classe social que não teria condições financeiras, mas isso não aconteceu. O skate é caro e tem uma vida curta. O shape acaba, tem que comprar lixa. O uretano talvez não esteja ligado a democratização, mas popularidade", ele avalia.

No Brasil, a pesquisa sobre skate na área de História começou com o próprio Brandão, que pesquisou sobre o assunto para seu Trabalho de Conclusão de Curso pela Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC) e descobriu que havia pouca coisa publicada a respeito, e apenas em Educação Física.

"Tinha gente falando de futebol, capoeira, começaram a falar de outros esportes, artes marciais, e deu um clique que era possível falar de skate. Não existia nada. Fui acho que o primeiro a começar a pesquisar o skate na área de História. Comecei a criar acervo, recortes de jornais...", conta o pesquisador, que hoje é professor na Universidade Regional de Blumenau, em Santa Catarina.

Nos últimos anos, o interesse sobre o assunto tem crescido. Levantamento feito por ele e pelo pesquisador Giancarlo Machado, que estuda o skate no âmbito da antropologia urbana, identificou cinco teses de doutorado e 20 dissertações de mestrado sobre o assunto no Brasil. Dessas 20, sete foram publicadas de 2016 em diante.