PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Suspensão branda a Didi mostra que EUA não ligam tanto assim para doping

Brasileiro Didi Louzada, do New Orleans Pelicans, foi suspenso por doping na NBA - twitter/didi_louzada
Brasileiro Didi Louzada, do New Orleans Pelicans, foi suspenso por doping na NBA Imagem: twitter/didi_louzada
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

20/11/2021 10h45

De 2019 para cá, quatro jogadores brasileiros de basquete foram pegos no doping, todos por anabolizantes. Três levaram penas que variaram de três a quatro anos. Um vai ficar afastado das quadras por três meses. A diferença entre eles? O que recebeu pena branda joga nos Estados Unidos, país que late alto quando o doping é de um rival olímpico, e mia baixinho quando o dopado faz parte do sistema esportivo do país.

Didi Louzada é brasileiro, mas faz parte de um modelo de controle antidoping desenhado para aliviar a barra para uma imensa maioria de atletas norte-americanos, que são três a cada quatro atletas da liga.

Quando três jogadores da liga receberam punição por doping no começo da temporada 2019/2020, dois eram norte-americanos: Wilson Chandler, do Brooklyn Nets, e John Collins, do Atlanta Hawks, que testaram positivo para hormônio do crescimento (GH, na sigla em inglês).

No esporte, essa é considerada uma das formas mais brutas de trapaça, porque não há como usar contaminação ou o famoso "tomei sem saber" como desculpa. Mesmo assim, foram punidos por apenas 25 dias. A mesma pena foi aplicada a bahamense Deandre Ayton, do Phoenix Suns, que testou positivo para diurético.

Essa é a pena máxima imposta por um documento que leva em consideração apenas os interesses dos jogadores da NBA e da NBA em si. O "Programa Antidrogas da NBA" faz parte do acordo coletivo de trabalho da liga, o mesmo que define o teto salarial, por exemplo. A versão mais recente, de 2017, vale até 2024 e aumentou a pena máxima de 20 para 25 jogos.

Como comparação, no código da Agência Mundial Antidoping (Wada) a pena máxima para GH, testosterona ou os anabolizantes é de quatro anos. Mas a NBA, como as demais ligas profissionais norte-americanas, e quase tudo que acontece de esporte nos EUA, se recusa a seguir o código internacional.

Valem, por lá, as regras mais cômodas aos interesses norte-americanos. Em dezembro do ano passado, o então presidente Donald Trump sancionou uma lei que pune com até 10 anos de prisão quem se dopar em um evento internacional que tenha participação norte-americana, seja com atletas ou com dinheiro de empresas dos EUA. É a mesma lógica que faz com que os escândalos de corrupção da Conmebol e da CBF sejam discutidos em tribunais americanos.

Por exemplo: se Didi Louzada, jogando por um clube brasileiro, tivesse caído no doping em Mundial com a participação dos EUA, ele em tese poderia ser julgado e condenado a 10 anos de prisão nos Estados Unidos. Como o caso foi na NBA, 25 jogos sem jogar está de bom tamanho.

Isso torna o esporte injusto. Com penas brandas mesmo quando flagrados em tratamentos hormonais condenáveis, jogadores da NBA (enorme maioria de americanos, reforço) não são desencorajados a se doparem. Pelo contrário. Quem trapaceia na pré-temporada/férias e é pego, perde um terço da temporada, mas ainda volta às quadras para a reta final e para os playoffs. Voando, graças ao tratamento proibido.

Mesmo tendo cometido uma infração grave ao código antidoping que vale para o mundo todo, Didi Louzada poderá normalmente jogar a Copa América, em setembro do ano que vem, pela seleção brasileira. Também Collins e Chandler, pelos EUA, e Ayton, por Bahamas. Se perder espaço na NBA, Didi poderá voltar para o Brasil para a próxima temporada do NBB sem nenhuma restrição.

Enquanto isso, por infrações muito parecidas, os três jogadores flagrados no doping no NBB e julgados pelo Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem (TDJ-AD) vão ficar de três a quatro anos afastados das quadras, sem poder jogar no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo. Nessa caso, a NBA é que deveria se espelhar no resto do mundo. Mas eu e você sabemos que isso não vai acontecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL