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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

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Fora das Olimpíadas de Inverno, Isadora Williams decide se aposentar

Isadora Williams em ação durante o Mundial de Patinação Artística - Issei Kato/Reuters
Isadora Williams em ação durante o Mundial de Patinação Artística Imagem: Issei Kato/Reuters
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

23/10/2021 04h00

Principal nome do esporte brasileiro de inverno na última década, Isadora Williams vai pendurar os patins ainda nesta temporada. A atleta da patinação no gelo não conseguiu vaga nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, no começo do ano que vem, e decidiu encerrar a carreira.

"Eu competi as duas Olimpíadas e realizei meu sonho de disputar duas Olimpíadas. Pequim seria uma Olimpíada mais extra, uma diversão. Não era meu objetivo competir em três Olimpíadas. Mesmo assim, eu treinei muito para a classificação e não aconteceu. Eu tenho outros sonhos agora, outros objetivos", disse Isadora em entrevista por vídeo, diretamente dos Estados Unidos.

No Brasil, os esportes de inverno são divididos entre os disputados na neve e os de gelo, e Isadora vai se aposentar como o maior nome desse segundo grupo. Ela nasceu no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, filha de uma imigrante brasileira, Alexa Williams, com um americano. A garota estreou pelo Brasil em 2010, quando disputou o Campeonato Mundial Júnior.

Desde então, quebrou barreiras. Foi a primeira brasileira a disputar uma Olimpíada de Inverno, em Sochi-2014, e repetiu o feito em Pyeongchang, quando conseguiu se classificar para a final, feito inédito para uma atleta sul-americana, terminando em 24º. Em Mundiais, alcançou essa mesma posição em 2019.

Mas aí veio a pandemia. "Eu não consegui treinar. Nos EUA, as regras foram muito fortes. A pista onde eu treino em New Jersey ficou fechada seis meses. Eu não sabia se ia continuar, se ia haver temporada, não havia campeonato. Foi muito estranho", conta, revezando entre expressões em português e outras em inglês.

Formada como atleta no estado da Virgínia, a brasileira se mudou em 2017 para New Jersey para cursar faculdade. Na pandemia, porém, voltou para perto da mãe, só retornando à sua base de treinos no fim de 2020. "Não foi a mesma coisa. Você perde músculos, perde ritmo. Eu não quero dar desculpas, mas eu já tinha 24 anos, não foi fácil", justifica a patinadora, que precisou lidar com uma fratura no pé.

Em setembro, ela entrou no Troféu Nebelhorn, na Alemanha, último Pré-Olímpico, como azarã. Depois de ser 32ª colocada do programa curto, ela abandonou a competição sem nem se apresentar no programa longo. Eliminada, deu oficialmente adeus à briga por uma vaga em Pequim.

Antes de se aposentar, Isadora vem ao Brasil, em dezembro, para participar do Campeonato Brasileiro, que vai ser realizado no rinque de patinação construído pela CBDG, a confederação brasileira, em um galpão em São Paulo. "Foi desapontador o que aconteceu na Alemanha, então, eu quero me redimir. Não quero que o Troféu Nebelhorn tenha sido minha última competição. Quero ter uma última grande apresentação", explica Isadora, que ainda está decidido se, em março, disputa pela última vez o Campeonato Mundial, que será na França.

Prestes a se formar empreiteira, ela pretende se mudar para São Paulo em um futuro breve e dar aulas de patinação no gelo para jovens atletas brasileiras, passando adiante o conhecimento de quase duas décadas na patinação norte-americana. Pelos planos de Isadora, ela trabalharia remotamente para clientes nos Estados Unidos, se sustentando com esse serviço, mas mantendo-se ligada à patinação pelas aulas.

Na entrevista, ela não soube nomear nenhuma brasileira, ou mesmo brasileiro, que possa ocupar o lugar dela no cenário internacional da modalidade. "Quando eu estive em Canoas para o Brasileiro em 2019, vi crianças com potencial, mas é difícil porque algumas perdem interesse, se machucam. É difícil dizer se vão ter continuidade. Eu espero que outros brasileiros, brasileiros-americanos, brasileiros-canadenses, brasileiros que moram na Europa, onde estiverem, continuem essa tradição".

Pensando em Pequim, o Brasil ainda não tem nenhuma vaga confirmada nos esportes de gelo, mas diversas oportunidades. No bobsled, o país vai tentar vaga no 4-man e no 2-man (para quatro e duas homens, respectivamente). Na patinação em velocidade, uma novidade no esporte brasileiro de alto rendimento, Larissa Paes e João Victor da Silva conquistaram vaga para disputar a Copa do Mundo, com chances menores de irem à Olimpíada.

O país tem chance real em duas modalidades nas quais não tem tradição: o monobob, em que Marina Tuono estará na luta por uma das seis vagas pelo ranking olímpico, e no skeleton, com Nicole Silveira, que vem pontuando com regularidade na Copa do Mundo. A temporada de inverno acontece durante a primavera e o verão no Brasil, a partir de novembro.