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REPORTAGEM

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Confederação de canoagem fecha as portas 40 dias após ouro de Isaquias

Isaquias Queiroz, campeão olímpico da canoagem - Daniel Ramalho/COB
Isaquias Queiroz, campeão olímpico da canoagem Imagem: Daniel Ramalho/COB
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

17/09/2021 04h00

A Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) demitiu todos os seus funcionários e anunciou que está encerrando suas "atividades administrativas". Na prática, a entidade segue representando o Brasil junto à Federação Internacional, mas a gestão da modalidade no país, ao menos no curto prazo, será realizada pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) e pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

A bomba vem 40 dias depois de Isaquias Queiroz conquistar o primeiro ouro da canoagem brasileira em Jogos Olímpicos e menos de duas semanas depois de Fernando Rufino alcançar o mesmo feito na paracanoagem, disputada nos Jogos Paralímpicos.

O desmonte da CBCa está relacionado às dívidas fiscais contraídas pela entidade na década de 1990, antes da criação da Lei Agnelo/Piva, que passou a abastecer as confederações olímpicas com recursos perenes das Loterias. Até então, elas sobreviviam com a renda de bingos em nome delas, mas que eram administrados por terceiros.

Foi assim que a Confederação Brasileira de Vela e Motor (CBVM), que cuidava da vela, se afundou. No caso dela, o COB aceitou fazer uma intervenção e, depois de alguns anos, uma nova confederação foi criada. O plano deu errado e, em maio passado, o COB, que inicialmente não tinha nada a ver com a dívida e entrou no passivo depois da intervenção, optou por fazer um acordo com a Receita Federal. Vai pagar mais de R$ 70 milhões ao longo dos próximos 12 anos e comprometeu até 50% de suas receitas de patrocínio nos próximos três ciclos olímpicos.

No caso da canoagem, a discussão das dívidas tributárias não é nova. Quando Isaquias Queiroz surgiu como uma grande promessa, em 2013, e o BNDES aceitou patrocinar a modalidade no âmbito do Plano Brasil Medalhas com mais de R$ 30 milhões, os repasses foram feitos à Academia Brasileira de Canoagem, uma entidade criada pela CBCa exatamente para poder receber dinheiro público. As dívidas até foram equacionadas em 2016, quando pela primeira vez o dinheiro do BNDES chegou diretamente à confederação, mas logo em seguida o patrocínio foi rompido.

Agora o fantasma voltou. Segundo a CBCa, a entidade figura como executada em 14 execuções fiscais por dívidas de ISS em São Paulo, onde funcionava seu bingo, ainda que a entidade funcionasse em Curitiba. Só o montante que o bingo deixou de recolher em 1998 e 1999 corresponde hoje a uma dívida de R$ 5,6 milhões, impagável por uma entidade que nunca teve um patrocínio privado relevante.

Nesse processo, especificamente, a CBCa sofreu sucessivas derrotas até que, em 27 de agosto, a Justiça aceitou o pedido de penhora das contas da confederação. Sob risco, o presidente da entidade, Jônatan Pimentel Maia de Oliveira, optou por demitir todos os funcionários a tempo de conseguir utilizar o dinheiro para pagar as rescisões trabalhistas.

Jônatan chegou ao poder só em março, depois da morte, em janeiro, de João Tomasini, então dirigente mais longevo do esporte olímpico brasileiro, no poder desde 1988, quando fundou a CBCa. Tomasini deixou uma confederação que agora é campeã olímpica e paralímpica, mas que não tem mais condições de continuar existindo financeiramente.

"Apesar dos excelentes resultados conquistados pela Canoagem Brasileira nas Olimpíadas de Tóquio com várias medalhas de Ouro, fato é que a Confederação Brasileira de Canoagem, entidade que representa a modalidade, atualmente se encontra em situação irreversível e complexa", explicou a entidade, em nota.

"Estas medidas visam principalmente evitar a geração de mais ônus financeiro e também preservar os parceiros, atletas e profissionais da Canoagem Brasileira nesse momento. A atitude infelizmente é a única avaliada no cenário e irá impactar diretamente no âmbito esportivo. Nos últimos dias foram buscadas diversas alternativas para evitar tomar essa medida, onde reuniões aconteceram com as entidades parceiras, órgãos governamentais, políticos, mas infelizmente não houve êxito para identificar uma solução imediata que pudesse auxiliar a CBCa nesse momento", lamentou a confederação.