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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

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Ódio fez rival de Cielo abandonar piscina; paixão o leva à Olimpíada aos 37

Brent Hayden exibe sua medalha de bronze conquistada na Olimpíada de Londres, em 2012 - Clive Rose/Getty Images
Brent Hayden exibe sua medalha de bronze conquistada na Olimpíada de Londres, em 2012 Imagem: Clive Rose/Getty Images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

23/06/2021 04h00

Aposentadorias abandonadas são relativamente comuns no esporte olímpico, mas quando muito duram um ciclo olímpico. Brent Hayden, canadense que foi rival de Cesar Cielo quando os dois estavam no auge, foi além. Ficou sete longos anos sem nadar, traumatizado com as dores da preparação para uma Olimpíada, mas decidiu voltar depois de reencontrar sua paixão pelo esporte em uma piscina no Líbano. No retorno, conseguiu classificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, aos 37 anos. Com isso, será o nadador mais velho dos Jogos.

Hayden era o cara a ser batido quando Cielo começou a despontar entre os melhores do mundo. O canadense ganhou o Pan-Pacífico de 2006, primeira final do brasileiro em grandes competições, e foi campeão mundial em 2007, sempre nos 100m livre. Mas, no ano seguinte, falhou em se classificar para a final da Olimpíada de Pequim, na qual Cielo conquistou o bronze.

Quatro anos depois, em Londres, Hayden conquistaria seu bronze olímpico, enquanto Cielo terminava em uma modesta sexta colocação. Só muitos anos depois é que ele revelou quão traumática foi a preparação para aquele momento.

"Foi o pior ano da minha vida. O psicólogo da nossa equipe estava na discagem direta do meu telefone. Reuniões de emergência na minha casa. Eu estava entrando em uma espiral de depressão. Eu estava realmente começando a odiar a natação. Era doloroso. Houve poucas vezes em que eu estava feliz em estar na piscina", contou em entrevista ao canal de televisão CBC.

Hayden sentia espasmos nas costas e chegou a ficar semanas deitado na cama, sem conseguir se mexer. "Muitos telefonemas longos no estacionamento após o treino. Eu não conseguia nem dirigir porque estava gritando ao telefone. Muitas lágrimas. Além da minha mulher, do meu treinador e da minha equipe, foi muito solitário", relatou.

Cesar Cielo, Nathan Adrian e Brent Hayden - Stephen Dunn/Getty Images - Stephen Dunn/Getty Images
Imagem: Stephen Dunn/Getty Images

Semanas antes da Olimpíada, na Itália, os espasmos voltaram e ele ficou quatro dias sem se mexer. Pensou em nem ir para Londres. "Minhas costas doíam tanto que me lembro de ter agarrado os lençóis para me levantar do chão. Já havia passado por momentos difíceis e geralmente conseguia ver a luz no fim do túnel. Não havia luz no fim do túnel dessa vez".

Foi a Londres e, lá, arriscou. Fez uma prova que talvez nem conseguisse completar, tamanho esforço. Chegou em terceiro, ganhou um bronze com sabor de ouro, e decidiu que não tinha mais condições físicas e psicológicas de continuar. Horas depois, no mesmo dia, sem pensar muito, na festa da medalha, subiu no palco e anunciou aposentadoria.

A volta mais leve

Hayden passou então a se dedicar a outros sonhos. Ser fotógrafo, ensinar natação, mas sem precisar entrar na água, apenas orientando crianças na beirada da piscina. Foram sete anos assim, até que em uma viagem ao Líbano, ele atendeu os pedidos dos alunos e caiu na água para gravar um vídeo.

Sentiu-se confortável, feliz, e resolveu cronometrar o tempo de um "tiro". Ficou surpreso: "era o que eu fazia quando eu estava treinando". Não demorou, enviou mensagens aos amigos, com o vídeo, e um e-mail para a federação canadense. "Eu os procurei de Beirute mesmo. Na minha cabeça, previ todas essas respostas negativas. 'Muito velho'. 'Não há espaço para você'. Todas essas razões pelas quais eu não pude voltar". Mas a resposta ao e-mail foi oferecendo suporte.

Isso aconteceu no final de 2019. Menos de dois anos depois, Hayden caiu na água para nadar os 50m livre na seletiva canadense anteontem (21). Aos 37 anos, venceu com 21s82, ficando a apenas nove centésimos do seu próprio recorde nacional, estabelecido quando ainda eram permitidos os trajes tecnológicos, no Mundial de 2009. Classificado para Tóquio, será o nadador mais velho nos Jogos.

Ontem (22), porém, o veterano não foi bem nas eliminatórias dos 100m livre, prova para a qual ele até já tem o índice exigido pela Federação Internacional de Natação (Fina). Ficou em oitavo, classificando-se para a final, mas depois postou nas redes sociais que o esforço excessivo causou novas dores nas costas. Por isso, decidiu não nadar a final.