PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Olimpíada não é Paulistinha para seleção poupar jogadores

Jogador Neymar comemora a medalha de ouro olímpica no Maracanã na Olimpíada Rio 2016 - Lucas Lima/UOL
Jogador Neymar comemora a medalha de ouro olímpica no Maracanã na Olimpíada Rio 2016 Imagem: Lucas Lima/UOL
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

14/05/2021 16h11

"Só o Brasil leva a sério o futebol da Olimpíada". "Os europeus não usam o que têm de melhor". Nem se repetidas mil vezes essas mentiras vão virar verdade. Até porque elas já foram usadas milhares de vezes, e seguem sendo o que sempre foram.

A Olimpíada é, no futebol masculino, um torneio para jogadores de até 23 anos — em Tóquio, devido ao adiamento, até 24. Um torneio que não é mais importante do que um torneio adulto de seleções. Mas que também não é irrelevante a ponto de poupar atletas. Todos jogam com o que têm de melhor, desde que isso não prejudique a seleção principal, e desde que haja concordância dos clubes — e a regra é haver, com exceções.

No Brasil, porém, é uma corrente de pensamento que defende que a seleção não leve a sério a Olimpíada, que jogue com um time sub-18, que não convoque os melhores jogadores. Em outras palavras, que a seleção brasileira de futebol trate o maior evento do esporte mundial como o Palmeiras trata o Campeonato Paulista.

Para justificar essa opção, cita-se que os europeus fazem assim. Não fazem. Vamos pegar o elenco do Barcelona e data Fifa mais recente, de de março. O atacante Trincão foi defender a seleção sub-23 de Portugal (que sequer vai para a Olimpíada), o meia Riqui Puig e o zagueiro Mingueza a da Espanha. Classificada para Tóquio, a França Sub-23, por exemplo, contou com os zagueiros Koudé e Fofana, destaques de Sevilla e Leicester City.

O meio do ano terá Euro (11 de junho a 11 de julho), Copa América (11 de junho a 10 de julho) e Copa Ouro (2 de julho a 1 de agosto). Pouca gente poderia estar nessas competições "adultas" será escalado para ir à Olimpíada. Ainda assim, há exemplos. O técnico da Espanha, por exemplo, promete convocar Sérgio Ramos.

A regra é que os melhores jogadores sub-24 que não disputem esses torneios "adultos" estejam na Olimpíada. Basta pegar o exemplo da Alemanha, vice-campeã olímpica em 2016 num elenco que tinha Süle, Julian Brandt, Goretzka e Gnabry enquanto Sané, Tah, Kimmich e Can, também sub-23 na época, jogaram a Euro daquele ano. Portugal levou Guerreiro e Renato Sanches à Euro, mas não deixou de trazer Bruno Fernandes ao Rio.

Como a Olimpíada não é uma data Fifa, os clubes têm a prerrogativa de não liberarem seus atletas para os Jogos. E têm todo o direito de fazerem isso, se acharem que é melhor para si e para o atleta. E, claro, para os times brasileiros essa questão é mais sensível, já que o calendário nacional, que eles aceitam passivamente, os atrapalha mais do que atrapalha os europeus.

Mas cabe aos clubes tomar essa decisão, e arcar com elas. À seleção brasileira cabe respeitar os adversários, respeitar o evento, e levar o que de melhor tiver a disposição para disputar a competição. Ou simplesmente descartá-la. No próximo ciclo, não vai ao Pré-Olímpico, ou se for avisa que, mesmo pegando vaga, não vai usar. Mas jogar o Pré-Olímpico, se classificar, tirar o lugar de alguém interessado, e depois falar que não tem interesse, seria baixo demais até para o nível do futebol brasileiro.

Ou vai, e vai com o que tem de melhor. Ou não vai.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL