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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

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Atletismo ignora proibição e faz evento com 360 atletas sem teste de covid

Nike apresenta uniforme do atletismo brasileiro em Tóquio - Divulgação
Nike apresenta uniforme do atletismo brasileiro em Tóquio Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

24/04/2021 04h00

A atual fase do Plano São Paulo proíbe eventos esportivos, a não ser que tenham protocolos contra a covid aprovados pelo Centro de Contingência da Covid-19. Mesmo os aprovados, como o futebol profissional, só podem ser realizados depois das 20h. Essas proibições, porém, não impediram a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) de programar um evento sem testagem para 360 atletas, em Bragança Paulista, com quatro etapas de manhã e de tarde, hoje (24) e amanhã (25).

As regras impostas pelo governo paulista fizeram parte de debate público ao longo das últimas semanas, principalmente enquanto os clubes e a federação de futebol lutavam para conseguir autorização para retomar o Campeonato Paulista. A liberação só foi dada depois que o protocolo passou a incluir uma testagem mais constante. O Ministério Público Estadual (MP-SP) participou ativamente dessas discussões e deu o aval para o governo autorizar a retomada dos jogos.

Apesar disso, a CBAt decidiu organizar uma grande competição nacional em Bragança Paulista sem discutir protocolos com o governo paulista ou com o MP. O torneio envolve 360 atletas, a grande maioria sem chance real de estar nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Nas provas de pista, podiam se inscrever os 24 primeiros colocados do ranking nacional. Como comparação, a seletiva olímpica da natação, no Rio, tem provas com apenas cinco competidores, exatamente como medida preventiva.

Procurado pela reportagem, o governo paulista confirmou não ter dado aval para a competição. "Não foi identificado nenhum protocolo referente ao evento citado junto à Secretaria de Estado da Saúde ou ao Centro de Contingência de COVID-19. Qualquer estabelecimento ou organização de evento que não atenda às normas sanitárias ou aos critérios do Plano São Paulo está sujeito a fiscalização pelas equipes de Vigilância Sanitária municipais e estadual, bem como autuação se constatado descumprimento das normas", explicou a Secretaria de Saúde.

Já o Ministério Público informou que a Promotoria de Bragança Paulista oficiou a prefeitura da cidade para que, em 24 horas, informe "em que termos estão sendo realizados os eventos noticiados, quais os protocolos sanitários exigidos, quem os elaborou, quem os está fiscalizando, se houve aprovação de tais protocolos pelo Centro de Contingência da Covid-19 do Estado de São Paulo e demais considerações necessárias ao caso".

A CBAt diz que o evento tem aprovação da prefeitura de Bragança Paulista, o que o governo paulista tem reforçado, há meses, que não suplanta as proibições do Plano São Paulo, mais amplas. Por exemplo: o MP precisou aprovar que o Bragantino entrasse em campo antes das 20h pela Copa Sul-Americana, anteontem (22). E esse aval só veio porque a outra opção era ainda mais arriscada: levar o elenco para outro estado. Mesmo os jogos da terceira divisão estadual estão todos marcados para depois das 20h, por exigência do governo estadual.

A confederação alega, porém, que o protocolo para o "Torneio Cidade de Bragança - Capital Nacional do Atletismo" é seguro, ainda que não inclua testagem contra a covid e envolva atletas competindo lado a lado sem máscara. "As nossas atividades esportivas são individuais, inexistem contato e público, o distanciamento já existe de forma natural nas competições. Esse torneio é de avaliação de treinamento e somente os melhores do ranking podem participar — não é uma competição com inscrição aberta como seria um campeonato brasileiro e é restrito aos atletas com possibilidades de integrar as seleções brasileiras", explicou a CBAt.

Entre os protocolos previstos estão medidores de temperatura corporal, álcool em gel em diversos postos, implementos higienizados, e técnicos distantes uns dos outros nas grades. Além disso, é obrigatório o uso de máscara antes e depois de competir. Após a publicação da matéria, a confederação informou que dispõe de 100 testes de covid para aplicar naqueles que tiverem temperatura corporal elevada ao entrar no centro.